Ribeiro, que também é produtor de televisão, com passagens pelas TV Tupi, Manchete e Cultura de S. Paulo, destaca que as seleções com maior número de jogadores negros, exceptuados os países africanos foram as de Honduras, Brasil, ambas com 11 – e Estados Unidos, com oito. Entre os países Europeus, a que teve mais negros foi a Inglaterra, com sete.
No total de 736 jogadores, 553 eram brancos. Entre os países que disputam a final neste domingo, a Espanha não tem nenhum negro na equipe, enquanto a Holanda tem seis.
Ribeiro é autor do livro “Diamante Eterno – Biografia de Leônidas da Silva” (Editora Gryphus, 2000), “Fio de Esperança – Biografia de Telê Santana”, pela mesma editora, e “A Magia da Camisa 10” (Verus Editora, 2006), este último também publicado em Portugal, Hungria, Polônia e
Japão.
No momento ele prepara a biografia do jogador Fausto, um dos primeiros a jogar no exterior, na década de 30, antes mesmo da existência do profissionalismo no futebol.
Fausto sofreu preconceito racial dentro e fora do país, ao ser contratado pelo Barcelona, em 1.931, segundo conta o pesquisador. Morreu só em Palmyra, cidade mineira, atual Santos Dumont, de tuberculose.
Leia, a entrevista do pesquisador ao jornalista Dojival Vieira, editor de Afropress.
Afropress – Como você vê o futebol hoje e a presença negra neste contexto de futebol globalizado?
André Ribeiro – O futebol, como qualquer outra atividade esportiva ou não, também não escapa ao contexto financeiro mundial. E sendo assim, pouca mudança existe nesta geografia monetária dos gramados. A grande novidade é que além do Brasil, quase todos os países do continente americano, incluindo, pasmem, até a pequena Honduras, surgem como “exportadores” de pés-de-obra. Honduras, que deixou a Copa da África sem marcar nenhum gol, tem alguns jogadores atuando no futebol europeu como Wilson Palacios (negro), no Toteham, e Suazo (negro), que atua desde 1999, na Europa, com passagens pelo Cagliari e Internazionale (Itália), Benfica (Portugal) e na temporada 2010, no Genoa, da Itália.
Até a seleção americana, considerada frágil até pouco tempo atrás, tem também vários jogadores atuando em clubes europeus, como o goleiro Tim Howard (negro), do Everton (Inglaterra), ou ainda Onyewu (negro, filho de nigerianos imigrantes nos Estados Unidos), que atua pelo Milan, na Itália.
O “Banco Central” do futebol continua centralizado na Europa. É lá que se encontra o poder e o dinheiro do futebol mundial. E o continente africano, onde se encontra a raiz da raça negra, não consegue, apesar do crescimento do futebol nas últimas décadas, escapar desse processo, que acaba não permitindo a organização de campeonatos mais fortes e clubes financeiramente capazes de segurar seus craques. O mesmo fenômeno ocorre no Brasil há décadas.
Afropress – O que aconteceu com a seleção brasileira, sob o comando de Dunga e, porque os times do Brasil, a partir de 1.992, sempre majoritariamente negros, parecem que, sob o comando sempre de personagens como Dunga, Parreira e Cia, perdem a alegria do jogo, parecem desaprender e passam a praticar esse futebol burocrático que tem nos eliminado sistematicamente?
Ribeiro – Dunga é o reflexo do autoritarismo que persiste em diversos setores da sociedade brasileira. E como todo ditador, mesmo com um título mundial na bagagem (1994), sairá pela porta do fundo, lembrado e carimbado eternamente como representante de uma geração que tentou trocar o futebol-arte pelo futebol-força ou de resultados.
Quanto a presença de negros na seleção brasileira, felizmente, pelo menos nessa atividade, o preconceito existente nas primeiras décadas do século passado deixou de existir. Na Copa da África, por exemplo, o Brasil era um dos países com maior número de negros entre os 23 convocados (excluindo os cinco países africanos). Foram 11 atletas, número idêntico a Honduras e oito da seleção norte-americana.
Não creio que seja a presença maior ou menor de negros na seleção brasileira que irá determinar o sucesso de nossa equipe em Copas do Mundo. O que faltou, pelo menos nessa Copa da África, foi a ousadia de nosso treinador em optar pela ginga e a malícia ao invés da força e truculência de jogadores como Felipe Melo. Um deles, coincidentemente negro (Neymar, que inexplicavelmente negou sua raça), poderia ser o representante legítimo de nossas raízes no futebol.
Afropress – Como estudioso do futebol, como vê o fato de que a presença negra nesse esporte ainda esteja restrita as quatro linhas. Ou seja: do banco de reservas aos cartolas, sempre os mesmos: burocratas brancos e o império da cartolagem?
Ribeiro – Discordo em parte dessa questão, pois a maior autoridade esportiva do país, o ministro do Esporte, Orlando Silva, é negro. Em parte porque, realmente, ex-atletas negros poderiam ter espaço muito maior na gestão esportiva do país. Um bom exemplo a ser lembrado é Joaquim Cruz, medalhista olímpico brasileiro que poderia certamente mudar o rumo do atletismo no país e faz sucesso nos Estados Unidos.
No futebol, infelizmente, tivemos raríssimos exemplos de lideranças, caso de Wladimir (ex-Corinthians), presidente do sindicato dos atletas de São Paulo. Talvez, porque o maior representante da raça negra no futebol brasileiro, que teve a chance de lutar por essa causa, Pelé, o atleta do século, pouco fez por essas questões, dentro ou fora dos gramados.
Afropress – Qual a contribuição que o futebol dar a um país que combate o racismo e promova a inclusão da população negra, ainda as margens?
Ribeiro – Apesar de sermos considerados o “país do futebol”, o esporte é ainda muito mal utilizado como ferramenta de integração social. Especialmente em comunidades carentes, o futebol pode ser o instrumento mais barato de políticas públicas do país. O grande problema é que o país não tem sequer uma política pública para esportes de alto rendimento, quanto mais para populações carentes.
A esperança é que com a realização, no Brasil, dos dois maiores eventos esportivos do mundo, a Copa do Mundo em 2014 e a Olimpíada, em 2016, multipliquem o número de projetos sociais que tenham o futebol como instrumento de educação. A expectativa é que esse cenário precário de inclusão social, tanto de negros como brancos, possa ser alterado urgentemente.
Afropress – Atitudes como as da Fifa recomendando a leitura de uma Declaração contra o Racismo na abertura dos Jogos das oitavas de final, são importantes? Não poderiam ser repetidas aqui em todos os jogos importantes dos principais campeonatos e do Brasileirão?
Ribeiro – Com certeza. O problema é que no Brasil a grande maioria da população acha essa questão menor, acreditando que o racismo, no futebol, não existe. Esquecem que se no futebol o negro conquistou o seu espaço, fora das quatro linhas esses mesmos personagens consagrados pelo fanático torcedor pode ser vítima de preconceito racial.
São inúmeros casos relatados de jogadores “famosos” que sofreram algum tipo de discriminação racial, em locais públicos. Uma simples faixa estendida todos os domingos, nos principais estádios brasileiros, pode não ser a solução, mas uma enorme ferramenta de divulgação das questões raciais no país.
Afropress – De que trata o seu novo livro e quando pretende lançá-lo?
Ribeiro – Já em meu primeiro livro, “O Diamante Eterno – Biografia de Leônidas da Silva”, lançado em 1999, abordei a questão do preconceito racial na vida do primeiro gênio consagrado do futebol brasileiro.
Só que Leônidas foi famoso, o primeiro negro a conseguir driblar as diversas barreiras que todo negro encontrava na sociedade. Ficou sempre em minha cabeça como outros negros que circulavam ao seu redor, e que não tiveram as mesmas “regalias”, sobreviveram.
Fausto, um negro alto, forte, nascido no interior do Maranhão, na pequena cidade chamada Codó, em 1905, e que jogou ao lado de Leônidas, tanto no Vasco, como no Flamengo carioca, na década de 1930, foi um caso exemplar do forte preconceito e discriminação que os negros sofriam nas primeiras décadas do século passado.
Apesar da fama obtida com o futebol, a ponto de ganhar o apelido de “Maravilha Negra”, a trajetória de Fausto não teve o mesmo “final feliz” ou maravilhosa como a de Leônidas. Morreu jovem, com apenas 34 anos, vítima de tuberculose, praticamente abandonado em um sanatório na cidade de Santos Dumont, interior de Minas Gerais.
Pretendo percorrer a trajetória de Fausto desde seus antepassados negros que chegaram ao interior do Maranhão para trabalhar nas imensas plantações de algodão localizadas na região de Codó. Foi ali que a família de Fausto trabalhou nas primeiras grandes indústrias de tecelagem que abasteciam o mercado nacional e de exportação brasileira, no final do século XIX e início do século XX.
Devo também explorar as questões religiosas existentes nessa região, já que Codó é considerada até hoje berço do Tambor-da-mata ou Terecô, uma tradicional religião afro-brasileira, criada pelos negros maranhenses, e muito pouco estudada por especialistas dessas questões.
Por conta da experiência na indústria de tecelagens, Fausto e família decidiram deixar a vida sofrida em Codó para tentar a sorte no Rio de Janeiro, em 1926, mais precisamente no bairro de Bangu. Não foi uma escolha aleatória.
Foi ali que funcionou durante décadas a tradicional Companhia Progresso Industrial do Brasil, uma das maiores indústrias têxteis do país, que em seu início foi um modelo de gestão empresarial, especialmente na inclusão de negros operários. Vale lembrar que foi o Bangu, equipe de futebol, que teve o primeiro negro, Francisco Carregal, a jogar entre os brancos, no início do século XX.
Boêmio inveterado, Fausto freqüentou a noite carioca ao lado de personagens ilustres da sociedade, como Noel Rosa e Orestes Barbosa, todos moradores de um bairro conhecido como Aldeia Campista, atual Vila Isabel. Neste período devo resgatar também a história de tradicionais redutos da boemia carioca, na Lapa, da gafieira Elite e seus dancings famosos, além dos cabarés suburbanos e os tradicionais Cafés Nice e Rio Branco.
No futebol, Fausto foi pioneiro em uma questão muito debatida nos dias de hoje. Ele foi um dos primeiros jogadores brasileiros a jogar no exterior, antes mesmo da instalação do profissionalismo, em 1933. Negro, foi o primeiro. Fausto foi contratado pelo tradicional Barcelona, da Espanha, em 1931.
Em terras européias ele também sofreu forte preconceito racial. Jogou na Suíça também, por pouco tempo, pois foi para lá muito mais preocupado em conseguir se recuperar dos problemas pulmonares que já o afligiam. Retornou ao Brasil, em 1934 e novamente foi alvo de polêmicas contratuais. Partiu para o Uruguai, para jogar pelo Nacional, e novamente sofreu preconceito racial.
No retorno ao Brasil foi contratado pelo Flamengo para, ao lado de Leônidas e Domingos da Guia, todos negros, transformar o clube rubro-negro na maior torcida do Brasil. Sua fama e respeito eram tão espetaculares que acabaram gerando “ciúmes” por parte dos dirigentes da época. Foi perseguido duramente pelo presidente do Flamengo durante um ano inteiro, em 1937, ficando proibido de jogar pela equipe. Fausto foi “execrado” publicamente, obrigado a se retratar nas páginas dos principais jornais da antiga capital da República. Caso único e terrível, justamente com um negro famoso.
Quando conseguiu retornar aos gramados, estava doente, vítima da tuberculose que matou dezenas de jogadores neste período. Fausto ficou internado alguns meses no Hospital São Sebastião, no Rio de Janeiro, mas o tratamento não deu certo. Foi transferido para a antiga cidade chamada Palmyra, atual Santos Dumont, onde funcionava um tradicional sanatório para doenças respiratórias.
Morreu logo depois e foi enterrado em cova rasa no cemitério local. Nem mesmo um mausoléu que a fanática torcida do Flamengo queria que fosse construído, no Rio de Janeiro, o clube carioca construiu, alegando falta de recursos.
Enfim, Fausto viveu na pele a tragédia similar ao personagem de Goethe.
Afropress – Quais os personagens na história do futebol no Brasil que deram maior contribuição para a inclusão dos negros não apenas no futebol, mas em todas as áreas da sociedade?
Ribeiro – Infelizmente, a resposta é: pouquíssimos. Poderia lembrar de Paulo César Caju, que jogou no Rio de Janeiro e pela seleção brasileira que obteve sucesso estrondoso na década de 1970. Mas se perdeu com a fama, assim como Fausto. Depois de abandonar o futebol (ou do futebol tê-lo abandonado), conseguiu sensibilizar muitos brasileiros, especialmente seus “irmãos” da raça negra, dos bastidores cruéis do futebol mundial.
Afropress – Como vê o papel do nosso maior jogador, Pelé, nessa questão?
Ribeiro – Pelé poderia ter sido o ícone da raça negra, mas nunca tratou especificamente de nenhuma questão, social ou cultural. Conseguiu sim ser Ministro do Esporte, obtendo conquistas importantes na questão do passe livre. Mas o que era para ser a “Lei Áurea” do futebol transformou-se num grande imbróglio.
Afropress – Como para a Copa de 2014, podemos avançar para combinar os preparativos com uma forte mensagem pela inclusão negra na sociedade?
Ribeiro – O único caminho é o da reflexão e debates. Não podemos perder essa oportunidade única. Pretendo criar a cada ano um fórum de discussões temáticas (e desde já conto com o apoio da Afropress) sobre a questão do negro no futebol brasileiro e mundial. Uma das questões fundamentais que precisa ser debatida urgentemente é a do “tráfico” de seres humanos. Segundo pesquisas, existem hoje cerca de 300 brasileiros dados como “desaparecidos”, entre eles, muitos negros, atraídos por falsos empresários de futebol.
Será importante, por exemplo, trazermos ao Brasil representantes da instituição francesa de Direitos Humanos, Culture Foot-solidaire, que há três anos denunciou ao Parlamento Europeu, através de um dossiê, a presença de 600 jovens da África e do Brasil em situação irregular na Europa.
Há inúmeras questões que poderemos debater neste período até 2014, como a inclusão da prática do futebol, em comunidades carentes, pelas diversas ONGs que podem e devem ser criadas com essa finalidade específica: formar cidadãos e não apenas pretendentes a atletas milionários.
Afropress – Há ainda no Brasil pouca pesquisa e poucos livros sobre o futebol e os principais jogadores. Acha que esse interesse pode crescer para a Copa de 2014? Por que a presença de negros no gol ainda é raridade, é influência da “Síndrome do Barbosinha”, no “maracanazo” de 1.950?
Ribeiro – É falsa essa ideia de que no Brasil existem poucas pesquisas e livros sobre futebol. O que falta é divulgação e incentivo à produção por parte de órgãos governamentais e editoras brasileiras. Para ilustrar essa situação recomendo a leitura do livro produzido pelo GEFUT, Grupo de Estudos sobre Futebol e Torcidas (http://gefut.wordpress.com/), que realizou um levantamento fantástico, embora não total, com a produção acadêmica sobre o futebol nas Ciências Humanas e Sociais, de 1980 a 2007.
Muitas teses, dissertações e livros envolvendo a questão dos negros no futebol brasileiro e mundial são apresentados. O estudo pode ser acessado gratuitamente a partir do link
http://www.4shared.com/file/gWbzbhpS/GEFuT-Levantamento.html.
Quanto ao baixo número de goleiros negros recomendo a leitura do livro Goleiros – Heróis e anti-heróis da camisa 1, de meu amigo Paulo Guilherme (Editora Alameda). Nele podemos conferir que o primeiro goleiro negro a vestir a camisa da seleção brasileira foi Nelson Conceição, jogador do Vasco, em 1923.
Ele e seus companheiros de equipe, no futebol carioca, revolucionaram a história do futebol brasileiro, pois foram os primeiros negros campeões estaduais em uma época repleta de discriminação e restrições às atuações de negros no futebol. Nelson também sofreu na pele o preconceito em seus sete jogos pela seleção.
Era chamado de “macaquito” pelos torcedores uruguaios, na excursão realizada pela seleção que disputou a Copa América da época. Por aí se pode constatar que, tempos depois, na Copa de 1950 disputada no Brasil não poderia ser outro o responsabilizado pelo fracasso brasileiro em pleno estádio do Maracanã. Além de Barbosa, Juvenal e Bigode, todos negros, foram os únicos crucificados pela fatídica derrota.
Não acredito que a história de Barbosa tenha causado algum tipo de restrição à outros negros que pretendessem jogar como goleiro. Até porque, brasileiro lê pouco e duvido que muitos soubessem da história trágica do goleiro brasileiro na Copa de 1950.
O que existe é preconceito puro e mais uma vez, um trecho do livro de Paulo Guilherme revela: “…Se um goleiro branco leva um frango, é porque ele é ruim, porque estava desatento ou porque é mesmo um ‘frangueiro’. Se quem engole o frango é um goleiro negro, as críticas não recaem sobre suas deficiências técnicas, mas sobre a cor de sua pele. Não levou o gol por ser ruim, por estar desatento ou por ser um ‘frangueiro’: tomou o frango porque é negro, porque não é confiável”.
O texto de Paulo Guilherme é definitivo sobre a questão racial: “Barbosa tornou-se bode expiatório de uma sociedade que ainda não aprendeu a lidar com a questão da diversidade racial. O negro é reconhecido como artista, como atleta, como trabalhador, mas quando vai ocupar um cargo de extrema confiança, e nenhuma outra posição requer mais confiança no futebol que a do goleiro, a história muda de figura”.
Participação negra nas seleções que disputaram a Copa, promovida pela FIFA
Brasil: 11 (Michel Bastos, Maicon, Luisão, Juan, Gilberto, Ramires, Júlio Baptista, Gilberto Silva, Robinho, Luis Fabiano e Grafite). (obs: não considerei Gomes e Kléberson)
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FONTE: André Ribeiro