Vou direto ao ponto: no momento, estou assistindo a Brasil x Noruega, jogo da Copa de futebol feminino, pela TV com meu pai. O Brasil ganhava de 1 x 0 no primeiro tempo. Aproveitei o intervalo para tirar a mesa do almoço e, por isso, me ausentei da sala. Nesse ínterim, ouvi algo como “8 a zero”, acho que do comentarista da Bandeirantes. Papai me disse que havia acabado de ouvir o comentário que, no quesito beleza, a Noruega dava de uns 8 a zero no Brasil.
Qual o objetivo de tal comentário? Num momento em que o Brasil estava à frente (e iria marcar mais dois gols com menos de três minutos do segundo tempo), não sei porque enfatizar a suposta beleza do time adversário em vez de enaltecer o futebol das nossas meninas, craques que, ao contrário dos monstrinhos masculinos que ganham fortunas e adoram uma esbórnia, recebem muito menos do que merecem e não têm um décimo da visibilidade dos seus colegas.
Por que fazer tal comentário, que nada tem a ver com a bola no pé? É difícil não associá-lo ao fato que o nosso é um time de mestiças na sua maioria, enquanto que o norueguês é, em sua maioria, muito louro. Estaria o comentarista aludindo às idéias de que basta ser loura para ser bonita ou, pior, que preto só é bonito quando chega atrasado ao trabalho e o chefe diz, “Bonito…!”, como reza aquela piada pré-1995? Enfim, por que o comentarista achou que a sua preferência estética interessava a alguém? Sim, pois ele tem direito a preferir qualquer tipo físico, mas não a difundi-lo em cadeia nacional fora de contexto.
Como retrucou o Papai, o comentarista agiu mal. E eu complemento: que o comentarista restrinja sua posição a assuntos concernentes a futebol. Pelo que me consta, ele não é jurado de concurso de beleza; pois que ponha a língua no saco.
Originalmente publicado no blog da autora, http://viagensdapoetisa.blogspot.com/, em 3 de julho de 2011.

Vânia Penha-Lopes