Nesta terça feira, as seleções do Brasil e Gana se enfrentarão para disputar uma vaga para as quartas de finais da Copa de Mundo de 2006, na Alemanha. Será uma disputa de igual para igual. Quem sairá ganhando é o povo brasileiro, que terá oportunidade de conhecer a verdadeira África.
A imagem do continente africano que os brasileiros têm se revela em algumas perguntas que fazem aos estudantes das nações africanas nos corredores das universidades. Perguntas tais como:
– Como que é lá? Vocês moram em árvore?
– Lá tem carro, televisão, prédio…?
– Você vai ser presidente do seu país quando voltar?
A primeira pergunta expressa um imaginário da África antes da idade da pedra. A segunda, uma África distante do progresso tecnológico da era contemporânea. A última é a mais grave. Ao admitir que um estudante africano será presidente ao retornar a seu país, só pelo fato de estar numa universidade, é julgar que ele é o mais inteligente do seu país. É o único que está tendo a oportunidade de acesso ao conhecimento acadêmico, tanto que, ao retornar, será recebido com tapete vermelho e logo condecorado presidente da nação. Essa é a idéia formada no inconsciente de quem faz essa pergunta. Essa mesma pergunta soaria ridículo se dirigida a um colega universitário brasileiro.
Nos noventa minutos de partida, a seleção de Gana enfrentará a seleção do Brasil de igual para igual. É o momento que todo o povo brasileiro estará acompanhando e terá oportunidade de saber que Gana é um dos 53 países do continente africano. Que se os países africanos não tivessem acesso à tecnologia da era contemporânea, Gana não estaria ali competindo com o Brasil de igual para igual. Que, se Gana não tivesse um estado nacional organizado, cidades e centros metropolitanos complexos e torcida organizada, não estaria ali competindo com o Brasil de igual para igual.
Não importa se Gana vai golear Brasil ou se sofrerá derrota. Só a visibilidade do povo de Gana durante os 90 minutos de disputa na figura da sua seleção possibilita ao povo brasileiro conhecer a identidade cultural de uma das 53 nações africanas. Isso já é uma vitória e tanto.
O espetáculo de futebol da seleção de Gana a ser exibida nessa terça-feira é a prova que na África não se mora em árvore e muito menos há leão comendo pessoas no centro da cidade. O Brasil será vencedor só pelo fato de saber que no continente africano há nações bem organizadas e estruturadas, como no resto do mundo.

Lino Vaz Moniz