Ando angustiada, refletindo muito sobre o educar alguém, não apenas o meu filho, mas também os meus alunos e alunas. Mas, educar em uma perspectiva plural, livre de preconceitos, livre de olhares parciais, sendo capaz de construir e suscitar habilidades para uma vida plena, humana, para a empatia e sensibilidade. Fico pensando sobre deixar um mundo melhor para os nossos filhos. No entanto, o mundo é feito de gente, de pessoas, não é? Feito das relações que elas constroem entre si, do que elas aprendem, do que elas vivem. Então, seria correto investirmos mais em termos relações melhores entre as pessoas. Fico me perguntando se o correto não seria atuar para que os nossos filhos sejam pessoas melhores para o mundo.

Nós queremos um mundo melhor para nossos filhos, é óbvio! Toda mãe e todo pai almeja isso, mas me parece que não é possível esperar que o mundo se mude sozinho ou esperar que o outro, ou aquilo que não gostamos no mundo mude para que ele seja/fique melhor. O que nós podemos fazer? Essa é uma pergunta que tenho me feito, constantemente. Eu tenho um filho de quatro anos aprendendo a ser pessoa, diariamente, em diferentes espaços de socialização, tais como a família, escola, igreja.

Ele está construindo o seu arcabouço de vivências, experiências, aprendizados. São muitas as preocupações do que ele está internalizando, principalmente, em se falando da sociedade brasileira, temas como racismo e machismo estão muito presentes nas minhas preocupações, uma vez que me pergunto como os reproduzimos, como eles se mantêm ainda tão vivos, passando de geração a geração.

Meu radar fica sempre ligado para o mundo que o cerca, devo admitir que depois dele fiquei ainda mais atenta a uma série de situações e sempre que posso tento interferir de alguma forma, tento aprender e de alguma forma atuar. Meu filho gosta de desenhos animados, como toda criança, mas tento incentivar que veja aqueles com uma mensagem interessante.

Gosto muito de assistir com ele o desenho “Doutora Brinquedos”, a personagem principal é uma menina, negra, médica dos brinquedos que ganham vida durante seus atendimentos, no desenho ela tem família, pai, mãe e irmão, algo sobre a questão da representatividade que já conversamos em artigos anteriores, algo raro é vermos meninas e negras como protagonistas de desenhos animados, ainda mais com sua família.

O que também me atrai nesse desenho é o fato de incentivar meu filho a ver que a mulher pode ser protagonista. É evidente que ele não entende essas questões agora, mas gosto que ele amplie sua visão desde cedo sobre os possíveis papéis das mulheres e ainda mais das negras, gosto que ele tenha o contato, tenha exemplos da diversidade que temos e somos.

Nos últimos dias assistimos a um episódio muito bom, em que uma boneca estava enferrujada necessitando de ajuda para poder voltar a voar em seu avião, a boneca era negra e fazia alusão a primeira mulher negra dos Estados Unidos a obter uma licença para pilotar avião, tratava-se de Elizabeth “Bessie” Coleman. Enquanto, a “Doutora” a consertava explicava um pouco sobre quem seria Bessie Coleman.

Engraçado que dias depois, meu filho perguntou algo sobre ela. Eu não conhecia sua história e fui pesquisar um pouquinho. Bessie Coleman nasceu em 1892, em Atlanta, estado do Texas, Estados Unidos. Se interessou pela aviação em conversa com um irmão que esteve na França devido a I Guerra Mundial e falava sobre as mulheres francesas, que elas até pilotavam aviões e que Bessie nunca seria capaz de fazê-lo.

A fala do irmão serviu como motivação. Ela saiu a procura de escolas de aviação pelo país, mas em sendo mulher e negra nenhuma a aceitou nos EUA. No entanto, ela não desistiu, juntou economias e foi para França, se matriculou em uma conceituada escola de aviação, obtendo sua licença da Fédération Aéronautique Internationale em 1921.

Fiquei muito feliz em ter visto esse episódio junto com meu filho, pois vira e mexe conversamos algo a respeito dele. Tento trazer alguns assuntos com leveza, procurando criar um repertório mais amplo para ele, livre de estereótipos e preconceitos. E, mais procurando apresentar um leque maior de representatividade existente no mundo.            

             

Valquíria Tenório