– Mas o que se passa de errado com Obama?, questionei.
– Com Obama nao se passa nada, mas na minha classe ja estamos cansados de ouvir os professores nos apontarem Obama como exemplo por tudo e por nada!, respondeu ele. Ri-me um pouco e perguntei-lhe porque razão isso era ruim, ao que me retorquiu:
– Obama em si não é ruim, o que se torna ruim é estarem sempre a nos falar dele como exemplo como se nós fossemos todos uns irresponsáveis sem ideias próprias sobre o que fazer da vida. Parecem se esquecer de que Obama é Obama, nós somos nós.
Pus-me a meditar nas palavras do meu jovem e na tamanha responsabilidade que o feito do novo presidente norte-americano colocou nos ombros das novas gerações, particularmente na dos jovens afrodescendentes. Sublinho aqui que meu filho, 15 anos, frequenta uma escola anglicana de Oval, sul de Londres, majarotariamente frequentada por jovens afrodescendentes pelo fato de se inserir numa zona da cidade com forte densidade populacional de africanos e afrodescendentes. Essa talvez seja uma das explicações para a constante referencia dos educadores a Obama.
A outra explicação reside no caráter religioso da instituição, que advoga e incute nos jovens a ideia do trabalho duro e da responsabilidade individual. Nao é, pois, de admirar que, para os responsáveis e educadores da instituição (Archbishop Tenison School), a eleição de Obama tenha caído como uma luva para o reforço de sua filosofia educativa. Um afrodescendente que chega a presidência dos Estados Unidos da America, que no seu discurso apela para uma maior responsabilidade individual dos membros do seu grupo “racial”, que passa a imagem de chefe de uma familia cristã, amorosa e harmoniosa.
Estes são ingredientes vistos de certa forma como conservadores e que chegaram na medida exata e na hora certa numa altura em que essa área da cidade vinha sendo confrontada com uma assustadora onda de violência, algumas vezes fatal, entre os jovens, particularmente os afrodescendentes. Mas será que a forma como se transmite o efeito Obama é a melhor?
Tentei explicar para meu filho que a constante referência ao exemplo de Obama não visava fazer deles literalmente novos Obamas mas sim passar a mensagem do aproveitamento das oportunidades dentro da ideia de que tudo é possivel independentemente da cor da pele, credo religioso ou político de cada um. Fiz até um paralelismo com o futebol para ilustrar que Pelé houve só um, Maradona tambem apenas um, e Eusébio, idem. Mas o exemplo deles como futebolistas que pareciam vindos de outra galáxia inspirou o aparecimento de outras estrelas da bola, não tão brilhantes e cintilantes quanto eles mas que brilharam ou brilham tambem com grande intensidade.
Ninguem pede que voces sejam o próximo Obama português, inglês, francês, angolano ou brasileiro. O que se pede é que voces se apliquem no vosso máximo, sejam ambiciosos nas vossas áreas de estudo e trabalho, sejam responsáveis convosco mesmos e com o coletivo que vos rodeia e tambem solidários sempre que possível.
Agindo assim novos Obamas surgirão, com certeza, seja em forma de um político de envergadura, seja como um médico ou engenheiro renomado, ou mesmo um professor ou operário bem qualificado e respeitado. A ideia-chave passa pela responsabilidade individual e reside no aproveitamento das oportunidades.
Notei que meu filho entendeu a mensagem mas não ficou totalmente convencido com a forma como ela é transmitida na escola porque terminou a conversa me perguntando se para tudo isso seria preciso sempre referir Obama como modelo comparativo de suas atitudes. Pensei cá para com os meus botões: “Que tamanha a responsabilidade Obama colocou nos ombros das novas gerações, particularmente da diaspórica afrodescendente!”. Oxalá os mais talentosos jovens da geração pós-Obama não fracassem vítimas de uma espécie de maldição-Obama devido a tamanha pressão que neles passou a ser exercida nos lares, nas escolas e nos locais de trabalho em resultado da benção que foi a eleição do primeiro presidente afrodescendente da América.
Ja diz a sabedoria popular que tudo o que é demais (inclusive o amor!) enjoa, prejudica.

Alberto Castro