A gestão da ministra Luiza Bairros, à frente da SEPPIR desde janeiro de 2011, ficará marcada pela centralização, pela ausência de diálogo com os vários setores do movimento social negro e pelo autoritarismo. Não deixará saudades. Já vai tarde.

A sensação que sua excelência, uma técnica com larga experiência no sistema UNESCO, deixou, é que foi escolhida por Dilma, apenas para cumprir o organograma da ocupação dos cargos na Esplanada e lustrar seu próprio currículo.

A ausência de diálogo – alvo de queixas de militantes até do seu próprio partido, o PT – foi mais que uma atitude: foi uma postura deliberada que, no caso da mídia independente, chegou às vias da perseguição aberta.

Enquanto privilegiava entrevistas e contatos com uma certa mídia preta-chapa branca, a chefe da SEPPIR elegeu deliberadamente esta Afropress como inimiga, ao melhor estilo dos regimes autoritários e das ditaduras. Depois de deixar nosso correspondente, em Nova York, esperando por horas por uma entrevista agendada por sua assessoria no Hotel em que estava hospedada, sem qualquer satisfação, ainda tentou dar lições de “jornalismo” ao seu editor, numa tentativa inútil e tola de enquadrar o veículo no que ela julgava ser o papel que deveríamos exercer. Fracassou, claro.

A chefe da SEPPIR parece jamais ter entendido, ao longo dos últimos longos quatro anos em que esteve à frente do órgão, que o papel de uma mídia independente num Estado Democrático de Direito não é o exercício do beija-mão, mas sim o de cobrar e fiscalizar quem ocupa o Poder. Faltou postura e comportamento republicanos.

Por isso mesmo, espera-se da nova ministra, a ex-reitora da UNILAB, Nilma Lino Gomes que, a exemplo de Bairros também é um quadro técnico dos mais qualificados, mudança de postura: diálogo com todos os setores do movimento social, atitude que ela anuncia na primeira entrevista a Afropress, concedida pouco antes da posse.

O movimento social negro é, política, partidária e ideológicamente plural. Não se pode conceber que quem ocupa um cargo no Governo, não tenha outro papel, senão o exercício do diálogo altivo com todos e o rechaço a bajulação e ao puxa-saquismo como método.

Torcemos para que a nova ministra exercite a capacidade de entender a pluralidade, as diferentes visões como um valor e não como transtorno a ser tolerado e suportado. Torcemos para que assuma o desafio de dar audiência às vozes independentes do movimento social, que querem ter uma relação republicana e não marcada por partidarismos tacanhos.

Torcemos para que tenha a capacidade de executar 100% do orçamento pífio que terá (menos de R$ 50 milhões, pelo que se sabe), e que poderá ficar ainda menor por conta dos contingenciamentos e cortes que certamente virão do Joaquim “Mãos de Tesoura” Levy, o xerife da Fazenda; e de ampliar os espaços para garantir a transversalidade necessária. As políticas de promoção da igualdade racial, não podem continuar sendo apenas símbolos de uma inclusão que nunca acontece.

Torcemos para que a nova ministra faça uma gestão à altura do grande desafio que todos precisamos enfrentar: a inclusão dos negros na agenda democrática do Brasil, capaz de operar mudanças nesta República feita por poucos e para poucos, e dar sentido a este Estado Democrático de Direito, que precisa significar mais do que a obrigação de votar a cada dois anos nos candidatos que o mercado elege.

E por fim, torcemos para que esta gestão da SEPPIR contribua para que ampliemos a presença negra na Esplanada e passemos a ocupar ministérios que, de fato, contam – Educação, Saude, Ciência e Tecnologia, Trabalho, Justiça etc. Não apenas pelo peso dos seus orçamentos, mas também pela importância na definição das políticas públicas de inclusão.

A SEPPIR precisa ser um espaço no Estado para ampliarmos a nossa presença nele, na perspectiva de transformá-lo radicalmente, e não para nos contentarmos às migalhas – os guetos e puxadinhos – que satisfazem a poucos, quase sempre ao custo da altivez, e desagradam a todos.

Dojival Vieira