S. Paulo – O grupo autodenominado vegano, adepto da filosofia que prega a abstenção de qualquer produto de origem animal, não mais associará aos seus materiais de propaganda, imagens consideradas depreciativas à memória e aos sofrimentos de negros e judeus durante o escravismo e sob o nazismo.
O compromisso foi assumido por Fábio Paiva, líder do grupo, depois de notificado pela promotora substituta Érika Pucci da Costa Leal, do Grupo Especial de Inclusão Social, do MP paulista, a dar explicações na representação movida pela ONG ABC sem Racismo.
As imagens da propaganda na internet em que a Escrava Anastácia aparecia com a máscara de ferro ao lado de um cão com uma espécie de focinheira, e de judeus sacrificados no campo de Treblinka, ao lado de bandas de porcos num açougue, seguida da pergunta “Qual a diferença?”, provocaram a reação das comunidades negra e judaica. A foto da escrava Anastácia – venerada como Santa em muitas comunidades negras – era acompanhada da afirmação “qualquer semelhança não é mera coincidência”.
Consideradas propositadamente fortes, as fotos chocaram até mesmo pessoas não pertencentes às duas comunidades, e foram retiradas do ar logo em seguida à entrada da representação, numa admissão implícita de erro por parte do responsável.
Eufrate Almeida, ativista negro e também vegetariano, disse que a propaganda vegana representava um insulto à memória dos sofrimentos da população negra. O presidente da Sherit Hapleitá do Brasil – a Associação dos Sobreviventes do Holocausto – Bem Abraham, 82 anos, também protestou e disse que “colocar os animais no mesmo nível do nazismo é uma profanação de todos os que morreram, vítimas da infame teoria racista sobre a superioridade racial”.
Explicações no MP
No MP, Paiva disse que nunca teve a intenção de ofender mas “chamar a atenção para o sofrimento a que estão sendo submetidos os animais, seres que também tem sua integridade tutelada legalmente.”
A promotora afirmou que, a pesar das explicações, as imagens divulgadas “podem gerar sentimentos de ofensa e humilhação tanto naqueles que as compreendem (mas não as aceitam), quanto em quem as interprete de forma equivocada”. “Se a proposta causa polêmica junto a comunidades que possuem acesso à bibliografia correlata, certamente não será bem aceita pelo restante da população, pois não há como se esperar que informações tão específicas, baseadas, principalmente, em doutrina e atuação estrangeiras, sejam disponibilizadas e obtidas por todos, para que se viabilize eventual aceitação”, concluiu, no despacho em que mandou arquivar a representação, mediante o compromisso assumido pelo líder vegano.
O despacho ao Procedimento 124/07, para apuração de eventual crime de racismo, é assinado pelas promotoras Érika Pucci e Cláudia Maria Beré, com data de 22 de novembro do ano passado, porém, só ontem (11/01) foi tornado público pelo MP.
Também pesou na decisão do MP, o fato de Paiva ter retirado as imagens da Internet, “tão logo soube que causaram desconforto” e de ter assumido que “não pretende mais utilizá-las” o que tornou desnecessária atuação para a exclusão do conteúdo divulgado.
Se as imagens voltarem a ser veiculadas, no entanto, a promotora disse que a quebra do compromisso implicará na “lesão a interesses difusos”, o que justificará uma Ação Pública para obrigar a retirada do material do ar e até a requisição de indenização por eventuais danos.

Da Redacao