A morte do professor Eduardo de Oliveira, poeta, jornalista, conferencista, ex-vereador paulistano, fundador e presidente de honra do Congresso Nacional Afro-Brasileiro (CNAB), ocorrida ontem, 12 de julho, é uma perda terrível e irreparável que nos atinge a todos que lutamos por um Brasil sem racismo, com Justiça e oportunidades iguais para todos.

 

 
O professor Eduardo aliava uma qualidade rara em um movimento tão marcado por séculos de opressão e sequelas e pela autofagia que pode transformar adversários de idéias em inimigos mortais, quase sempre para alegria dos nossos verdadeiros inimigos: era doce e gentil com todos com quem se relacionava, independente de quem fossem. A doçura e a gentileza no trato escondiam um lutador calejado, veemente na defesa das ideias pelas quais lutava.
 
Conheci o professor Eduardo, como todos o chamávamos, em 2002, em Brasília, quando lutávamos pela criação da estrutura do Programa Diversidade na Universidade, do Ministério da Educação (MEC), que tinha como meta o acesso de jovens negros e pobres ao ensino superior.
 
O programa adotado com entusiasmo pelo então ministro da Educação Paulo Renato Souza, também já falecido, por meio da Secretaria de Educação Média e Tecnológica, liderada por Raul do Valle, se propunha a discutir as razões pelas quais jovens negros não passavam pelo funil do ensino médio e eram tão raros nas universidades brasileiras. O professor Eduardo foi um entusiasta dessa iniciativa, que viria a se transformar nos dois primeiros Governos Lula e no atual Governo Dilma, na Secretaria da Diversidade do MEC.
 
Participava das reuniões e das articulações no Congresso com uma alegria juvenil e, não poucas vezes, me perguntei como aquele velhinho tão maltratado pelas asperezas da vida, conseguia ser ao mesmo tempo veemente e doce. Posteriormente, com a minha saída do MEC, no contexto da perseguição sem tréguas e do assédio de que fomos alvos nos primeiros seis meses do primeiro Governo Lula, passei a encontrar o professor Eduardo esporádicamente nos encontros, nas duas Conferências da Igualdade Racial promovidas pela SEPPIR, em Brasília, e nos preparativos para a Parada Negra, movimento que levou milhares de negros e antirracistas à Avenida Paulista, em S. Paulo, nos anos de 2006 e 2007.
 
Sempre elegante no seu terninho surrado, sempre doce e gentil no trato, sempre veemente na defesa das idéias contra o racismo e a desigualdade sócio-racial que, em pleno século XXI, ainda envergonham esse país tão rico, tão imenso em potencialidades e também tão farto em desigualdades e injustiças. Ontem à tarde, tomei conhecimento da morte do professor Eduardo de Oliveira, pelo meu amigo, o jornalista Antonio Lúcio, decano dos jornalistas negros brasileiros. Justo no dia em que fiz 56 anos, o professor Eduardo nos deixou.
 
Nos deixou mais pobres, nos deixou mais órfãos, nos deixou mais carentes de líderes que saibam aliar doçura no trato com firmeza nas posições. Descance em paz, professor Eduardo! Pessoas com a sua qualidade não morrem, “ficam encantadas”, como dizia Guimarães Rosa. Viva o lutador do povo, Eduardo de Oliveira, a quem honraremos sempre, dando continuidade a defesa das suas idéias e das suas lutas por um Brasil sem racismo, justo e solidário. E com doçura, sempre – que foi a sua marca registrada em vida. Hasta siempre, professor Eduardo!

Dojival Vieira