S. Paulo – O grande desafio do Movimento Negro Brasileiro é credenciar lideranças por meio do voto popular. A opinião é do jurista e ex-secretário de Justiça de S. Paulo, Hédio Silva Jr., para quem o debate nos partidos será tanto mais altivo e produtivo “tanto mais sejamos capazes de credenciar lideranças”.
Segundo Hédio, nome destacado no Movimento Negro e que disputou sem sucesso as eleições passadas para deputado federal pelo PFL (atual DEM), há três tipos de relação dos negros com os partidos: o estilo, que ele chama de capitão do mato, “dos que não se cansam de bajular sinhozinhos e sinhazinhas”; os que acreditam que a força nos partidos políticos deve ser buscada nos próprios partidos, o que ele considera um equívoco; e o segmento cada vez maior que se recusa a subordinar os interesses da comunidade negra às conveniências partidária.
Hédio, que está engajado na campanha do ex-governador Geraldo Alckmin, do PSDB, que disputa com o prefeito Gilberto Kassab, a preferência dos tucanos paulistas na disputa para a Prefeitura, conversou com a Afropress, numa longa entrevista ao editor, Jornalista Dojival Vieira, e falou de quase tudo: das possibilidades de aprovação do Estatuto da Igualdade Racial à eleição do senador Barack Obama, nos EUA.
Para Hédio, a base do Governo Lula no Congresso não tem o menor interesse em aprovar o Estatuto. “De modo que as chances de aprovação continuam remotas, para dizer o mínimo”, acrescenta. Quanto as chances dos Estados Unidos terem o primeiro negro eleito presidente é otimista. “A eleição do Obama irá chacoalhar o mundo todo, tanto no plano simbólico, nas reflexões que irá fomentar, quanto na reafirmação da importância do ativismo político”, afirmou.
Veja, na íntegra, a entrevista.
Afropress – Como o senhor está vendo a participação negra nos partidos políticos, de um modo geral?
Hédio Silva Jr. – O desafio do Movimento Negro não apenas na interlocução com os partidos políticos mas com a sociedade como um todo é o desafio de credenciar lideranças por meio do voto popular. O Brasil tem hoje centenas de milhares de entidades negras e anti-racistas espalhadas por todo o território. Temos conquistas políticas substantivas como as cotas raciais adotadas em 54 instituições de ensino superior. Mudamos significativamente a agenda dos direitos humanos no país, a publicidade, o mercado de cosméticos (para citar apenas este exemplo), inserimos o debate sobre intolerância religiosa no espaço público e impusemos mudanças, mesmo lentas, na pedagogia brasileira, ainda marcada por forte tendência étnico e eurocêntrica.
O problema é que a luta andou mais rápido do que a organização e este potencial ainda não se transformou em força política real. O debate com os partidos será tanto mais altivo e produtivo tanto mais sejamos capazes de credenciar lideranças. Hoje eu diria que há três tipos de relação, digamos assim: 1. há aquele segmento que diante das direções partidárias assume o estilo Capitão do Mato, seus representantes são dóceis, submissos, obedientes e, mesmo relegados a cargos de nono ou décimo escalão, não se cansam de bajular os sinhozinhos e sinhazinhas; o interessante é que este tipo quando está no seio do Movimento Negro exibe uma valentia e radicalismo impressionantes; 2. há um segmento que acredita que a força nos partidos políticos deve ser buscada no interior dos próprios partidos, o que me parece um equívoco; 3. há um segmento cada vez maior que se recusa a subordinar os interesses da comunidade negra às conveniências partidárias e, por isso mesmo, afirma uma posição de independência e autonomia em relação a qualquer partido político, o que não significa a recusa a alianças pontuais desde que favoreçam o avanço da luta por igualdade racial.
Afropress – Como está vendo e acompanhando o debate em torno do Estatuto da Igualdade Racial?
Hédio – O Movimento Brasil Afirmativo, do qual você é uma das mais destacadas lideranças, que conseguiu agregar parte significativa do segmento sério e conseqüente do Movimento Negro brasileiro, vem dando uma contribuição inestimável para a aprovação do Estatuto, ao resgatar a pressão social sobre o Congresso.
Tenho participado de vários eventos do Movimento Brasil Afirmativo e em todos eles é visível a demanda social pela aprovação do Estatuto. Já estive incontáveis vezes no Congresso para participar de audiências e sessões públicas nas mais diferentes comissões permanentes da Câmara e do Senado. O problema, como todos sabemos, é que a base do governo no Congresso não tem o menor interesse em aprovar o estatuto, de modo que as chances de aprovação continuam remotas, para dizer o mínimo.
Afropress – O debate sucessório municipal em S. Paulo está aberto, devendo se dar em junho as convenções municipais dos partidos que escolherão os candidatos a prefeito e a vereador. O que pode representar para o Movimento Negro a candidatura do ex-governador Geraldo Alckmin à Prefeitura de S. Paulo?
Hédio – Geraldo Alckmin é uma liderança política cosmopolita, moderna, que tem visão política e sensibilidade para o novo. Desde o período em que o auxiliei como Secretário, depois na campanha presidencial e mais recentemente na militância, tenho testemunhado sua preocupação com a temática da discriminação racial, com o problema da intolerância – inclusive religiosa – e com o debate sobre políticas de valorização da diversidade.
Lembro-me bem do dia em que fomos a uma comunidade de Quilombo, Caçandoca, localizada em Ubatuba, primeira vez que um governador de São Paulo pisou numa comunidade de quilombo. Pisou, liberou dinheiro para um programa estadual de reconhecimento e titulação das comunidades, almoçou com as lideranças e ouviu pacientemente os relatos de sofrimento e luta pela terra.
Portanto, Geraldo Alckmin não é uma personalidade política daquele tipo que tem simpatia pela luta contra o racismo, dá o ar da graça em eventos, distribui sorrisos na comunidade, mas no cotidiano não implementa nenhuma política séria a favor da igualdade racial nem consegue avistar um único negro ou negra qualificada para ocupar o primeiro escalão no seu governo.
O Geraldo nomeou um negro para a Secretaria da Justiça (não um preto, um negro com uma trajetória de vínculo orgânico com o Movimento Negro), ele reconhece o Movimento Negro como interlocutor de uma importante demanda social e compreende que a luta contra o racismo é parte integrante do esforço de consolidação da democracia em nosso país. Não tenho dúvida, portanto, de que sua gestão será coerente com a folha de serviços que ele tem prestado à luta pela igualdade racial no Brasil.
Afropress – O que o motiva a assumir a defesa da candidatura Alckmin, inclusive no quadro de uma disputa interna PSDB/DEM, que o opõe ao atual prefeito e também candidato Gilberto Kassab?
Hédio – Quando fui nomeado Secretário da Justiça até então havia me encontrado duas ou três vezes com o Geraldo. Nos 11 meses em que estive à frente da Secretaria não houve uma única proposta que eu tenha apresentado a ele que tenha sido recusada. Ele esteve em todos os eventos que organizei e atendeu todos os grupos e pessoas que indiquei. Na campanha eleitoral, mesmo enfrentando uma agenda de candidato à Presidência da República, muitas vezes tendo que visitar dois ou três estados num único dia, ele esteve sempre presente, apoiando, prestigiando. E, o que é mais importante, após a campanha eleitoral o Geraldo fez questão de me manter próximo, me convocando para atividades e para a luta.
Já no governo eu havia dito a ele, no avião, quando retornávamos da visita à Caçandoca, que ele poderia contar comigo para qualquer empreitada.
Afropress – Como está acompanhando a quase certa indicação do senador Barack Obama nas primárias e na convenção do Partido Democrata americano, que escolherá o próximo Presidente dos EUA?
Hédio – Com muito interesse e esperança. O Obama expressa uma demanda em escala mundial por mudanças, não apenas por novos discursos, novos programas: alguns paradigmas e suas expressões humanas clássicas (homem branco engravatado) definitivamente estão em xeque nos EEUU mas também no Brasil e em outros lugares (basta pensarmos na eleição de Evo Morales, na Bolívia, de Cristina Kirchner na Argentina ou de Fernando Lugo no Paraguai).
Nos últimos anos, sobretudo com o fim da guerra fria e a cada vez maior indistinção entre os partidos políticos, novos atores sociais afirmaram sua importância independentemente e muitas vezes contrariando os partidos. Trata-se da reafirmação da sociedade civil como agente ativa, titular e destinatária do poder. Diria mais: há um espaço ocioso, para não dizer que há uma crise de lideranças na sociedade civil, uma verdadeira crise de paradigmas ao lado de uma pujante afirmação social de novas identidades culturais e políticas.
O problema, ou a solução, é que o discurso partidário desconsidera e sente-se ameaçado por estas novas identidades, autônomas e que têm uma agenda e uma dinâmica próprias. O Obama não representa mudança somente por ser negro. Há negros conservadores e fascistas em África e fora dela. O Obama representa mudança porque sendo negro sabe aquilatar o peso que a diferença impõe aos seus portadores e, por isso mesmo, consegue captar a relevância política e galvanizar estas novas identidades. Sem a consideração destas novas identidades, a política tende a ser perigosamente enfadonha, frustrante e desalentadora. O Obama expressa exatamente esta pulsação, este anseio por novos paradigmas, por novas e mais abrangentes leituras da condição humana no século XXI; ele resgata a utopia da política como instrumento de transformação.
Afropress – A eleição do primeiro presidente negro nos EUA, o que pode representar isso para os negros em todo o mundo, inclusive, para o Brasil?
Hédio – A eleição do Obama irá chacoalhar o mundo todo, tanto no plano simbólico, nas reflexões que irá fomentar, quanto na reafirmação da importância do ativismo político.
Lembro-me bem que no período da sucessão do Papa João Paulo II, em 2005, um dos nomes mais cotados era o do Cardeal africano Bernardin Gantin, do Benin, um dos amigos mais próximos do Papa e Prefeito Emérito para a Congregação dos Bispos. Num determinado momento o Cardeal Bernardin afirmou que a humanidade não estaria preparada para um papa negro.
A figura do Papa, a despeito do poder da Igreja Católica em certas regiões do planeta, tem um peso muito mais simbólico do que político. Já a Presidência dos Estados Unidos representa poder político, econômico, militar, uma formidável e influente indústria cultural e por aí vai.
A eleição do Obama ira demonstrar não apenas que a humanidade está preparada para um lidar com um negro neste lugar como também irá potencializar sobremaneira as demandas locais por espaços e representação política.
A eleição do Obama também irá mexer vigorosamente na auto-estima dos africanos negros e da diáspora, ampliando e muito os horizontes de nossos jovens e crianças. Vai ser mesmo um privilégio viver essa experiência.
Afropress – Este ano o CEERT, do qual o senhor é um dos fundadores e diretor executivo, está entrando para a maioridade?
Hédio – Sim, estamos completando dezoito anos de jornada. O CEERT entra para a maioridade afirmando-se como uma das mais respeitadas ONG’s do país. Formamos inúmeros quadros neste período, investimos e continuamos investindo nos jovens, ampliamos a área de atuação e contabilizamos uma vasta produção intelectual. Somos uma das poucas organizações que tem sede própria e uma equipe treinada e destemida. Nossa ambição, de conjugar pesquisa e intervenção, pode ser medida por alguns dados: desde 1996 vimos estabelecendo parcerias com órgãos públicos e privados, sendo que a primeira foi com a Prefeitura de Belo Horizonte (na gestão de Patrus Ananias), seguida por iniciativas em Recife, São Paulo, Santo André, Campinas, Jundiaí, entre outras. Mais recentemente passamos a prestar serviços para o setor privado, sendo que com a assessoria do CEERT a Febraban lançou um promissor e ousado programa de valorização da diversidade no trabalho.
Ao mesmo tempo, assessoramos universidades na implementação de cotas, a exemplo do trabalho realizado na Uneb, na UnB e na Federal de São Carlos. Isto sem falar do programa de Justiça Racial, por meio do qual temos várias ações judiciais em curso: ganhamos ações importantes na área de liberdade religiosa (o reconhecimento judicial, pela primeira vez, da validade do casamento realizado em um Terreiro de Umbanda de Porto Alegre); as vitórias obtidas no caso do Dentista Flávio Santana, e o trabalho de defesa das cotas no Supremo Tribunal Federal.
Mas há um dado do qual mais nos orgulhamos: se você ler a cartilha publicada pelo Edson Cardoso sobre a “Marcha Zumbi dos Palmares Contra o Racismo, pela Cidadania e Vida”, realizada em 1995, vai constatar que o CEERT estava lá, apoiando, financiando ônibus para a militância e elaborando o documento entregue ao Presidente da República. Na Marcha realizada em Brasília, em 2005, não o desfile dos áulicos do governo, mas aquela do Movimento Negro, o CEERT estava lá e eu, então Secretário de Justiça, busquei apoio no setor privado para viabilizar os oito ônibus que saíram de São Paulo para Brasília e estive lá, no caminhão de som, ao lado da militância.
Quero te dizer, portanto, que nosso maior orgulho – meu, de Cida Bento e de toda a nossa equipe – é que nestes 18 anos invariavelmente estivemos fortalecendo as lutas coletivas do Movimento Negro brasileiro. Esta é nossa mais importante realização.

Da Redacao