A Inglaterra, que construiu seu famoso Império participando ativamente no mercado e também no tráfico de escravos, celebrou em março de 2007, os 200 anos do fim da sua participação no tráfico, que durou de 1681 à 1807. Aproveitando as celebrações que estão ocorrendo por causa desta data histórica, recentemente dois historiadores: um inglês e um norte-americano colocaram mais uma vez o holofote no Brasil pela sua participação neste período.
A luz deste holofote vem mostrar novamente o Brasil, liderado pelos portugueses, no centro do palco mundial como o maior comerciante de escravos da África para o Novo Mundo. Este estudo, organizado pelos historiadores David Eltis e David Richardson, das Universidades Elmory, nos EUA, e Hill da Inglaterra, respectivamente, conseguiram a proeza de mapear um total de 35 mil viagens de navio entre o Continente Africano e o Novo Mundo, de 1501 à 1867.
As naus portuguesas e brasileiras carregaram quase 6 milhões de escravos, e deste total, 95% eram para o Brasil. A intenção do estudo, que estará à disposição do público a partir de 2008 acompanhado de um CD-ROM, é fazer com que as pessoas deixem de ver somente números quando o assunto é o comercio escravocrata.
Os interessados poderão examinar o ponto de partida de cada nau, o número de escravos a bordo, o preço pago por cada escravo, a bandeira da nau, e até mesmo, o nome de seu capitão. Este estudo dá uma nova dimensão ao estudo da escravidão africana. Estudos como este não caem bem com os neo-racistas brasileiros que não querem o aprendizado sério da história africana e afro-brasileira nas escolas públicas no país.
Quanto mais lemos sobre a história do Brasil, mais aprendemos a respeito da total dependência do país em relação à escravidão. O papel do Brasil neste comércio precisa deixar a Academia para ser discutido abertamente pela sociedade. Se a nossa mídia fôsse mesmo séria, este assunto teria destaque semanalmente nos principais periódicos do país.
Somente quando esta discussão acontecer o país enfrentará, sem demagogia, o legado nefasto ao qual foram relegados os milhões de afro-descendentes que, praticamente, tiveram que se defender sózinhos desde que deixaram o cativeiro, em 1888. Ainda hoje seus ancestrais continuam a enfrentar problemas raciais que o governo brasileiro insiste em tapar com uma peneira.
O caso dos estudantes africanos, que quase morreram queimados dentro de seus dormitórios na Universidade de Brasília é mais um exemplo da inaptidão do governo brasileiro para enfrentar o racismo no país.
Por mais que o país, no passado, quisesse identificar-se com a Europa, e atualmente queira identificar-se com os EUA, estudos como os dos senhores Edites e Richardson mostram mais uma vez que, nosso passado e nossas características fenotípicas estão mais em acordo com a África do que com a Europa ou os EUA.
Rei Leão
Eu me lembro muito bem deste desenho animado que faturou milhões de dólares ao redor do mundo, em 1994. O que eu não sabia, e acredito que milhões de pessoas também não, é que o tema deste filme foi primeiro gravado por um grupo musical sul africano, em 1939, chamado “Original Evening Birds” (Passaros Originais da Noite).
A música “The Lion Sleeps Tonight” (O Leão Dorme Esta Noite) foi o primeiro disco africano a ultrapassar a marca de 100 mil cópias. Seu autor, Solomon Linda, era analfabeto. Ele foi ludibriado ao vender os direitos autorais desta música. Depois da venda, foi “agraciado” com um trabalho de servente varrendo o chão e servindo café na mesma gravadora.
Mais de 150 artistas gravaram, e em alguns casos até alteraram a letra desta música, que foi tema musical de mais de 13 filmes, e hoje é reconhecida mundialmente. Seu autor e, posteriormente, seus descendentes deveriam estar ricos com o sucesso. Entretanto, o senhor Salomon morreu pobre aos 53 anos de idade, em 1962. Durante anos sua família recebeu misérias com os direitos autorais.
De 1991 até 2000, quando o sucesso da música começou a mexer com as pessoas ao redor do mundo com a ajuda do sucesso do filme e também da peça, que continua em cartaz aqui na Broadway, a família do senhor Solomon recebeu a irrisória quantia de US$ 17 mil.
Graças a um artigo publicado na influente revista musical Rolling Stones, em 2000, questionando a validade dos acordos anteriores feitos com a família do autor, a indústria fonográfica americana tomou consciência de que a situação poderia escapar ao seu controle se não fôsse feito um ajustamento imediato no pagamento dos direitos autorais da música.
Também em 2004, pressionada pelo advogado da família, a companhia Walt Disney, que certamente não gostaria de ver sua reputação enlameada em uma disputa deste nível, resolveu fazer um acerto e pagar os direitos autorais à família Solomon. A quantia do acordo não foi revelada.
Entretanto, uma das filhas do senhor Solomon, Elizabeth Nsele, parece satisfeita com o desfecho desta história. Finalmente, depois destes anos todos dormindo ao relento, o Rei Leão poderá dormir mais tranqüilo dentro de uma casa própria.

Edson Cadette