New York/EUA – Para a historiadora Hebe Mattos, autora de livros como “Das Cores do Silêncio”, “Escravidao”,Cidadania no Brasil Monárquico”, e “Memórias do Cativeiro”, para que o Brasil avance socialmente e enfrente sua secular desigualdade “precisa falar mais e não menos da herança dos mais de 350 anos da escravidão”.

Professora visitante da Universidade Columbia de Nova York, Mattos que tem mestrado pela Universidade Federal Fluminense, e pós-Doutorado pela Universidade de Maryland, para Mattos, “o Brasil tem que  aprender a lidar mais com a diversidade como uma coisa positive”. “O país vinha de uma tradição herdada do momento de formação nacional, de uma narrativa de um país mestiço e igual, uma cultura democrática. Celebrar o conhecer a diversidade cultural é um aprendizado que estamos fazendo, e a cultura afro-brasileira é central para isso porque não é uma cultura de minoria, é uma cultura de maioria”, afirmou.

 A historiadora é co-diretora do documentario “Jongos, Calangos e Folias”, que conta a história da luta de uma comunidade pela preservação da cultura africana passada de geração em geração desde os tempos da escravismo. O documentário foi apresentado recentemente para um público seleto na biblioteca Langston Hughes, em Corona, subdistrito do bairro do Queens. Após a exibição, Mattos deu entrevista a Edson Cadette, correspondente de Afropress em Nova York.

Confira:

Afropress: Quando você passou a se interessar pela temática afro-brasileira?

Hebe Mattos: Eu sou historiadora de profissão.  Posso dizer que desde o início da minha pesquisa me interessei pela sociedade escravista do século XIX. O interesse era entender esta sociedade, como ela funcionava, e tambem o processo de abolição. Porém, eu não comecei pelo afro-brasileiro, eu comecei pelo brasileiro. Entretanto, não se compreende  o Brasil, se voce não entender que foi um país que teve quase 400 anos de escravidão. Este foi o início.

Neste processo, cada vez mais  fui me aproximando de entender não só a sociedade brasileira, mas a experiência dos africanos que vieram escravizados, e a experiência dos ex-escravos no pós-abolição. Então, fui me aproximando tambem da temática afro-brasileira no contexto da sociedade escravista e pos-escravista do Brasil.

Afropress: Quando começaram seus estudos?

HM: Foi ao longo do meu doutorado que aconteceu entre 1988 e 1994.  Nesta época comecei a me interessar pela última geração de africanos que chega no Brasil quando o tráfico já era proibido pelas leis locais. O número por baixo era de mais ou menos 750 mil africanos em 20 anos, e que vão ser a base de toda a economia brasileira no século XIX. Meu tema passa ser cada vez mais a experiência destes homens e mulheres que chegam e vão viver realmente a abolição. Nesse processo e que tem a invisibilidade deles depois da abolição. Este era o meu tema inicial. E para torná-los visíveis eu fui cada vez mais me aproximando querendo saber quem eram estes africanos, para onde eles tinham ido. E aí foi um mergulho que até hoje eu acredito ajudou na história oral do meu livro “Memórias do Cativeiro”. Inclusive, eu terminei meu livro entrevistando um ex-aluno que hoje é doutor em História, Robinson Machado.  Ele entrevistou seu avô, Vicente Machado, que era um ex-escravizado. A partir daí percebi que ainda era possível trabalhar a memória oral dos descendentes da última geração de africanos vindos para o Brasil. Neste contexto, nesta questão não só da cultura afro-brasileira, mas, específicamente, a experiência desta última geração de africanos e seus descendentes, se tornou o tema principal há mais de vinte anos na minha carreira.

Afropress: Qual o papel da cultura afro-brasileira no país?

HM: E importantíssima. Não é só a cultura afro-brasileira. Eu volto ao ponto que eu comecei. Para entender o Brasil é preciso entender as relações escravistas. O que elas produziram de terrível, que a gente tem de superar, e o que elas produziram de riquezas que gente tem que incorporar. Acredito que, de certa maneira, a cultura afro-brasileira está presente em toda cultura brasileira, e ela tem uma força enorme enquanto experiência identitária da diversidade da sociedade brasileira. Não sei se estou sendo clara, mas acredito que para a gente superar o que há de terrivel e, realmente, visualizar plenamente tudo que se ganhou, é conhecendo e trazendo visibilidade e fazendo presente a cultura afrobrasileira no Brasil e no mundo porque esta é uma cultura de uma riqueza impressionante.

Afropress: Por que a cultura afro-brasileira ainda não é amplamente estudada nas escolas públicas?

HM: Acredito que houve mudanças significativas até mesmo em termos de leis para que isso seja feito. Acredito até que a Lei tem pegado (risos). Aquela história no Brasil da lei que pega e lei que não pega. Eu acho até que pegou. Porém, menos do que a gente gostaria. Mas acredito que seja mais por causa da não formação de professores. É preciso ir mais fundo nesta questão. Formar mais professores para que este tema esteja mais presente. O Brasil tem que  aprender a lidar mais com a diversidade como uma coisa positiva. O país vinha de uma tradição herdada do momento da formação nacional de uma narrativa de um país mestiço e igual. Uma cultura democrática. Celebrar o conhecer, a diversidade cultural é um aprendizado que estamos fazendo, e a cultura afro-brasileira é central para isso porque não é uma cultura de minoria, é uma cultura de maioria.

Afropress: O Brasil trouxe do continente africano mais de 5 milhões de pessoas. A escravidão durou mais de 350 anos. O impacto que esta cultura africana juntamente com os africanos teve, em geral, é enorme. Você acredita que o Brasil se recusou a aprender mais sobre este tema devido ao seu racismo em relação à Africa?

HM: Em parte, sim. A história do racismo é importante. A escravidão é algo terrível. Quando o volume de escravos é grande, eles tem um impacto naquela sociedade, mas é algo que aquela sociedade tem muita dificuldade de processar. Os próprios descendentes de escravizados quando ficam livres, em geral, não falam sobre isso. Não é só no Brasil, é em qualquer sociedade escravista. Em geral, se a sociedade mantém aquela lógica herdada da escravidão você quer esquecer aquilo. Para você superar a desigualdade da escravidão é preciso reconhecer que aquelas pessoas chegaram e tiveram um enorme impacto cultural e se orgulhar disto. Acredito que aí você vira a página daquele legado terrível. Enquanto ele está vivo, o descendente de escravizado não quer falar disso, a sociedade escravizadora diz: “nós não fizemos algo tão terrível”. Então todo mundo coloca para debaixo do tapete, e você finge que não vê aquele impacto cultural. E no caso do Brasil você até celebra a cultura, mas não as pessoas que fizeram aquilo. Então fica uma cultura sem seres humanos. Estamos no limiar de  tranformar-nos numa sociedade pós-escravista. Uma sociedade que pode falar disso reconhecendo a reparação possível sem vergonha. Você reconhece: eu sou descendente de escravizados. A sociedade brasileira é fruto deste impacto social/cultural no que ela tem de melhor em termos culturais, acredito. Ou de mais original.

Afropress: Comparando com a escravidaão norte-americana, ainda existe no Brasil o mito de que a escravidão foi mais suave, ou este mito esta completamente desmistificado?

HM: Se ele existe ou não, eu não sei. Entretanto, não existe escravidão boazinha. Acredito que, fundamentalmente, é isto. A escravidao é uma instituicao que pressupõe mais a desumanização do outro para permitir a escravização. Porém, ao mesmo tempo, toda sociedade escravista, inclusise, a dos EUA, ninguém se diz mal. Sempre  se tenta construir uma explicação da ideia da escravidão paternal, suave etc. Os EUA possuíram narrativas muito semelhantes à brasileira. A sociedade supostamente protegia seus cativos, o senhor com uma relação um pouco paternalista. Este é o tipo de construção que tenta justificar, amenizar a consciência de quem estava na posição do escravizador. Não existe escravidão boazinha. Ao mesmo tempo, toda escravidão tem um lado de legitimação, se não a sociedade não existiria. Se na época da sociedade escravista não houvesse um mínimo de campo de negociação e reconhecimento da humanidade dos cativos, nem o Brasil, nem os EUA existiriam. Então as suas sociedades foram igualmente terríveis. E se elas funcionaram por algumas centenas de anos tiveram seus espaços de legitimidade de negociação. Por fim, a escravidão na sociedade brasileira não foi boazinha de maneira alguma. O que nós podemos dizer de específico é que o Brasil teve uma sociedade muito mais dependente do tráfico africano.

O momento do tráfico é um momento de uma violência indescritível. O Brasil sempre foi dependente disto porque sempre vinham mais homens que mulheres. Havia sempre uma renovação do espetáculo da mais absoluta violência. No caso dos EUA, no século XIX, a situação é um pouco contrária, você não tinha o tráfico, você então tinha condições um pouco melhores nas senzalas, mas em compensação fecham-se as portas quase que absolutamente para a possibilidade de deixar a escravidão e passar para a liberdade, o que é um outro tipo enorme de violência. É um pouco diferente como no século XIX as duas sociedades se adaptam. A continuidade da escravidão é, ao mesmo tempo, um certo nível de estabilidade. Nos dois países são terríveis, apesar de diferente um pouco nos seus efeitos. Principalmente, na forma das linhas de separação nas relações raciais de quem é branco e quem é negro. Ela fica mais degradê no Brasil porque existe a possiblidade de mobiliade social, o que nada mais é do que também uma mobilidade racial. As pessoas vão mudando de cor, o que é uma prova do racismo mais absoluto. Se você para ascender socialmente tem que embranquecer isto é uma forma de violência que se estrutura de uma forma diferente no século XIX e no início do século XX.

Afropress: Quando surgiu a ideia do “Jongos Calangos e Folias”?

HM: Comecei um trabalho de história oral sobre a memória dos descendentes da última geração de africanos no Vale do Paraíba, ainda em 1994, no contexto do fim do meu doutorado, e comecei a trabalhar com o campesinato negro que tinha uma memória nestas áreas. Descobri que eles existiam graças ao Robinson Machado. Comecei um projeto de história oral com o Robinson e a historiadora Ana Lugão. Este projeto foi de 1994 a 2005 e resultou no livro “Memórias do Cativeiro” que eu escrevi com a Ana Lugão.

Nesta época o movimento social negro ganha uma nova dimensão no mundo rural com o movimento quilombola, os grupos de camponeses que eu entrevistava que tinham o uso tradicional coletivo pela terra começaram a se mobilizar como remanescentes de quilombos e transformar a luta deles pela terra que é uma luta que vinha há décadas nesta nova afirmação da identidade quilombola, e também os grupos de jongos começaram a se organizar enquanto a gente fazia a pesquisa. Eu falo que isso me trouxe para o tempo presente. Comecei a trabalhar com a memória mais interessada no século XIX, e no pós-abolição, no início do século XX, do que no que estava acontecendo hoje. Mas, de repente, a história do tempo presente falou mais alto. O meu lado antropóloga aumentou porque o que acontecia no contemporâneo era uma transformação absolutamente fascinante.

Havia um movimento social acontecendo do meu lado. Aí eu e a historiadora da música negra Marta Abreu fizemos um projeto para trabalharmos a memória do Jongo. Estava claro que a manifestação do Jongo estava ligada aquele mesmo campesinato que a gente já vinha trabalhando, mas a idéia, então, era de trabalhar com a cultura negra.  E como a cultura negra estava se tornando também uma forma de afirmação da identidade quilombola e de reinvidicação de direitos. Isto que era o mais interessante. O Jongo estava ganhando uma nova visibilidade como forma de reinvidicação de direitos. Ele é muito mais visível hoje do que o Calango e a Folia de Reis. Apesar de estarem juntos são obras culturais mais miscigenadas. O Jongo tem uma africanidade básica e hoje em dia ele é o que mais tem visibilidade, o que mais tem entrada no mundo moderno como  forma de reinvidicação de direitos. E aí nós fizemos este projeto, o arquivo, através da Petrobras Cultural, conseguimos ganhar o edital de patrimônio e material  da Petrobrás que apoiou a pesquisa, nós pesquisamos no Estado do Rio de Janeiro inteiro com registro de filmes e situação de pesquisas.

Não é um filme com todo o apoio tecnológico. Porém, nós tivemos condiçõess de fazer um arquivo áudio visual com uma qualidade bastante razoável e fazer uma leitura em filme do que nós descobrimos. Ou seja, este diálogo entre o Jongo, os Calango e as Folias. A forma como esta cultura afro-brasileira de origem bem na região de Congo- Angola está presente no litoral que são os lugares de chegadas dos africanos.

Na cultura do café do Vale do Paraíba, e tambem nas áreas nas quais as populações migraram ao longo do século XX. Foi uma pesquisa que nos deu muito prazer com o resultado que chegamos, e nós tentamos colocar neste filme Jongos, Calangos e Folias. Porém, eu sempre faço propaganda do arquivo com mais de 300 horas de material aberta a outros olhares de pesquisadores ou ativistas interessados em trabalhar com este material. Muitos dos nossos velhinhos já passaram desta para melhor, mas estão lá no arquivo registrado o conhecimento deles.

Afropress: Faça as considerações que achar necessárias.

HM: Eu adoro falar deste trabalho. O historiador sempre acha que seu trabalho tem uma relevância social. Desde o início, como eu mencionei, entender a sociedade brasileira, o papel da escravidão, mas  estes últimos 20 anos tem riqueza humana de tudo, de estar trabalhando com pessoas vivas que eu estou vendo se transformar, se organizarem e ganharem visibilidade e auto-estima na sociedade brasileira é uma experiencia que me transformou muito como pessoa, e da qual eu adoro falar. Por isto estou assim. Para falar deste trabalho eu sinto um prazer enorme.

Afropress: Obrigado.

HM: Obrigado a você.

 

 

Edson Cadette, Correspondente de Afropress em Nova York/EUA