S. Paulo – A historiadora Angela Fileno formada em Turismo pela Universidade Ibero-Americana, atual Unibero, e tambem em História pela USP acaba de publicar  o seu primeiro livro “Amanhã é Dia de Santo”. O livro é o resultado de sua tese de mestrado resgatando a história dos africanos que retornaram a Costa da Mina, atual Benin, durante o século XIX. Desde 2003 ela é professora dos cursos de Turismo e História da Universidade de Guarulhos da qual está atualmente licenciada em razão de ser bolsista  Capes, instituicao que exige dedicacao integral à pesquisa.

Mulher de familia como ela mesma diz, gosta muito de ler para sua filhinha de 6 anos, cozinhar  ir ao cinema, e tambem assistir shows no SESC, ela falou com o correspondente da Afropress  Edson Cadette por email sobre o seu livro e como o legado da escravidão ainda atinge negativamente metade da população brasileira.

Afropress:  O que a fez se interessar por este tema tão complexo e ao mesmo tempo ainda pouco explorado por historiadores brasileiros? Em outras palavras: quando você decidiu que a história entre o Benin e o Brasil merecia um olhar diferente?

Angela Fileno – Não acredito que esse seja um tema ainda pouco explorado. Temos diversos outros historiadores, no Brasil e fora, que já se dedicaram ao estudo das relações entre a Bahia e a região da Costa da Mina. Temos, por exemplo, Nina Rodrigues, Pierre Verger, Antonio Olinto, Gilberto Freyre, Alcione Amós, Milton Guran, Mônica Lima. Só para citar alguns do Brasil. Então, acho que foi justamente a leitura das obras produzidas por esses pesquisadores que me despertou para o tema.

Na verdade, na Graduação li a obra de Olinto, “A casa da Água”. É um livro de literatura que ele escreveu, nos anos de 1960, a partir da sua experiência como adido cultural do Brasil no Benin. A narrativa se passa no Brasil e na cidade costeira de Ajudá. É uma história belíssima do retorno de uma anciã e sua família para a terra de seus ancestrais. Acho então, que foi a literatura que plantou o interesse pelo tema.

Afropress:  Por que escrever um livro do ponto de vista a partir do regresso dos negros “livres” brasileiros para a África? O que você pretende abordando este assunto?

AF – Desde o início da pesquisa estava interessada em entender os processos de constituição das identidades brasileiras na Costa da Mina. Para isso, tinha como hipótese inicial a ideia de que a diáspora atlântica foi elemento decisivo à constituição de inovadores padrões de convivência e de identificação em ambas as margens oceânicas – na Bahia e na Costa da Mina.

Na África, a festa em homenagem ao Senhor do Bonfim se configurou como uma ocasião em que indivíduos de procedências e experiências de vida aparentemente distantes se reuniam para elaborar esquemas de identificação recíproca, que se traduziam em expressões coletivas de uma identidade polissêmica, permanentemente atualizada e cambiante.

Com a intenção de compreender os sentidos que tais formas de convívio e comemoração assumiram antes de serem levadas para África, busquei entender como eram, ainda na Bahia, organizados e praticados os festejos do Bonfim. De maneira complementar, pretendia também perceber o papel e lugar dessa comemoração coletiva dentro da sociedade escravista brasileira do século XIX, assim como analisar uma de suas celebrações de maior mobilização e comoção popular: a lavagem do Bonfim.

Em linhas gerais, pretendi mostrar o papel da festa na constituição e atualização da identidade brasileira na Costa da Mina e, na Bahia, da identidade africana.

Afropress – Seu livro é dividido em quantas partes? E o que elas abordam?

AF – Meu livro é dividido em três capítulos. O primeiro – Brasileiros na África – trata da primeira geração de brasileiros estabelecida na região atualmente denominada Golfo do Benin. Esta 1ª geração começou a se estabelecer a partir do século XVIII e era formada por traficantes baianos, em sua maioria, brancos. Na verdade, esses indivíduos não se identificavam como brasileiros, mas como portugueses. O Brasil ainda era colônia de Portugal e os escritos de viajantes que estiveram nos portos desta localidade registram esses mercadores de escravos como portugueses.

A segunda parte – “Hóspedes traiçoeiros” na Bahia – trata das razões que levaram tantos libertos a realizar a viagem de volta à África ocidental. Nesse capítulo trabalho com o conjunto de leis formuladas depois da Revolta urbana dos Malês, em 1835, em especial a Lei de Nº 9 e a Lei de Nº 14. Ambas legislações tiveram como propósito controlar e dificultar a permanência de africanos livres dentro da cidade de Salvador. Os empecilhos criados para expurgar a população africana de dentro da capital da Bahia levaram muitos a empreender viagem de volta para o continente de origem ou de seus ancestrais. Esses indivíduos foram responsáveis por mudar significativamente a configuração humana da comunidade brasileira que começou a se constituir no século XVIII, mas que adquiriu novos contornos a partir de 1835.

Nesse segundo capítulo ainda analiso a festa dedicada ao Senhor do Bonfim, na Bahia, ao longo do século XIX. Uma das considerações que teço a respeito dos motivos que levaram esta festa, e não qualquer outra festa baiana, a ser a comemoração de maior importância para a comunidade brasileira da Costa da Mina é o fato dela já ser uma celebração africana em solo baiano.

No terceiro capítulo – Identidade recriada: a segunda geração de brasileiros – encontra-se a discussão dos processos que levaram à composição da identidade brasileira em território africano propriamente dita. A partir do princípio de que as comemorações do Bonfim ganharam maior visibilidade depois do estabelecimento da segunda geração de brasileiros na costa africana, procurei analisar os processos que levaram à construção e atualização de signos que, ao serem coletivamente exercidos, serviriam como uma espécie de reforço aos vínculos de pertencimento ao grupo. Procurando desvendar os sentidos que as atividades, ritos e folguedos associados à festa assumiram, dediquei a parte final desse capítulo à reflexão teórica acerca das contribuições dos contatos atlânticos na constituição da identidade brasileira na África.

Afropress –  A escravidão no Brasil durou mais de 350 anos. Por que você concentrou seu estudo somente no século XIX?

AF- Porque estava interessada em entender a questão dos processos de formulação das identidades brasileiras na África. A partir da historiografia dedicada ao tema, percebi que esse processo só poderia ser entendido a partir do século XIX, pois antes disto a presença brasileira era muito menor. Além disso, procurei entender a questão das identidades brasileiras por meio do viés da cultura.

Para tanto, estudei a festa do Bonfim em Salvador e na Costa da Mina como uma chave à compreensão de como os saberes, as práticas religiosas e culturais circulavam de uma costa a outra do Atlântico. Essa proposta de estudo requeria um recorte temporal ao século XIX, pois não existiam registros de que a festa acontecesse na Costa da Mina antes disto.

Afropress –  Quem eram estes africanos que decidiram voltar para a África e como eles conseguiam recursos pecuniários para retornar e ao mesmo tempo comprar e levar escravos de volta a África?

AF – Pelo que apurei nos registros de passaporte pesquisados, estes libertos africanos eram principalmente ex-escravos urbanos que haviam desenvolvido habilidades específicas (eram pedreiros, carpinteiros, comerciantes, padeiros, etc) que lhes permitiu acumular recursos não apenas para comprar a sua liberdade, e em muitos casos também de seus dependentes, como ainda foram capazes de amealhar capital suficiente para pagar a viagem de travessia e se estabelecer em um novo território.

Sobre como conseguiam os recursos pecuniários, a historiografia nos mostra que a imensa maioria dos escravos urbanos era colocada ao ganho, isso permitia que o cativo adquirisse certa mobilidade dentro da cidade e que ele apurasse recursos a partir da diferença entre o que era acordado como pagamento ao seu senhor e o excedente fruto de seu trabalho.

Afropress –  Você tem um número de quantos africanos regressaram para o Benin?

AF – Tenho uma tabela que apresento no livro. Essa tabela foi construída a partir dos registros de passaporte que pesquisei no APEBa. Outras pessoas que estudaram esse assunto apresentam dados diferentes, pois fizeram uso de outras fontes, ou porque combinaram essa fonte a outros documentos.

Afropress –  Quando falamos de escravos livres ou libertos tem se a impressão que eles tinham todos os direitos como qualquer cidadão branco, e ou senhor de escravos. Eles eram realmente livres com todos direitos ou haviam restrições? Se haviam quais eram?

AF – A resposta para a sua pergunta é não, principalmente para o caso dos africanos libertos. Depois da Revolta dos Malês há um processo sistemático de dificultar a vida dos africanos na cidade e de levá-los para a zona rural. A revolta de 1835 foi a primeira ocorrida em ambiente urbano e isso tomou a população branca de sobressalto. Além disso, na lavoura baiana, havia um problema de carência de mão de obra escrava que começava a se esboçar nesse período.

Como mencionei na questão 3, depois de 1835 duas Leis tornam a permanência do africano na cidade ainda mais difícil. A primeira era a Lei de Nº 9, formulada no calor pós-levante malê e promulgada em 3 de maio de 1835. Essa legislação trouxe uma série de restrições à população africana liberta. Apenas para citar algumas, ficou proibido aos africanos possuir bens de raiz, ou seja, imóveis. Aquele que alugasse casas ou quartos a libertos africanos em Salvador teria de ter autorização e pagar um imposto específico. Os libertos eram obrigados a se matricularem junto às autoridades policiais, informando: nome, nação, idade aproximada e ocupação. Assim como pagar um imposto anual que era bastante caro à época.

Depois da Lei de Nº 9, foi promulgada a Lei de Nº 14. Essa legislação substituía os cantos de trabalho por capatazias. Na prática isso significava que no lugar do capitão do canto, uma figura significativa em meio aos ganhadores, ficaria o capataz, sujeito que ao menos pelo nome já era uma referência direta e clara ao universo senhorial. Além disso, os trabalhadores que desejassem continuar atuando em seus cantos deveriam matricular-se junto às autoridades policiais.

Afropress –  A média de vida de um escravo no Brasil girava em torno de, no máximo, 40 anos. Você tem informações com quantos anos estes escravos chegavam ao Brasil, e depois com quantos anos eles retornavam?

AF – Não tenho como responder a essa pergunta, pois foge aos temas trabalhados pela minha pesquisa.

Afropress – A sua pesquisa para este livro ela foi feita somente no Brasil? Quais foram suas maiores dificuldades?

AF – Sim, como não tive bolsa (Fapesp, Capes ou Cnpq). Para realizar a pesquisa tive de pagar do meu próprio bolso as viagens que fiz à Bahia, isso inviabilizou outras viagens, inclusive ao exterior. Acho que a maior dificuldade foi realmente a financeira, pois com recursos ou financiamentos essa pesquisa poderia ter assumido proporções maiores, incorporando documentos de arquivos localizados fora do país.

Afropress –  Você poderia explicar um pouco sobre as Leis restrigindo a compra de bens por parte dos libertos? Esta Lei ficou em vigor por quanto tempo? Você acredita que estas restriçõess são sentidas ainda hoje pela comunidade afro-brasileira?

AF – A Lei de Nº 9 foi promulgada apenas quatro meses depois do levante malê. Os vinte e três artigos que compõem essa lei foram formulados com base nos depoimentos obtidos pelas autoridades durante a devassa da Revolta de 1835. Não sou especialista na legislação estabelecida nesse momento. Faço uma análise mais superficial apenas para demonstrar que o retorno de libertos não foi uma opção, mas uma saída para aqueles que dispunham de recursos para arriscar uma nova vida na Costa da Mina. Uma outra pesquisadora, Luciana Brito, trabalha especificamente com essa legislação.

Sobre se acredito que essas restrições são sentidas ainda hoje pelos afro-brasileiros, minha resposta é sim. Acho que os processos de exclusão social no Brasil passam pela questão racial e muitas pessoas enxergam o debate sobre o preconceito racial uma questão tabu, porque contradiz o mito de que somos uma democracia racial. Considero que os debates levantados em torno das quotas raciais e do ensino de História da África nas escolas tiveram o mérito de escancarar os preconceitos, mas precisamos seguir em frente e ir além, propondo e implementando ações mais efetivas de diminuição das desigualdades sociais que, no Brasil, tem cor.

Afropress –  O Brasil assinou um acordo com a Inglaterra para por fim ao tráfico em 1831, porém, ele nunca foi cumprido pelo Governo brasileiro. Somente em 1850, o Brasil, finalmente, pôs um fim ao tráfico. Você tem informações sobre o que aconteceu durante estes 19 anos em que o Brasil era proibido de trazer escravos da Africa?

AF – Há historiadores que afirmam que nas décadas anteriores ao fim definitivo do tráfico, em 1850, houve inclusive um aumento das importações clandestinas. Afinal, prevendo a supressão do tráfico, os senhores se antecipavam fazendo estoque de mão de obra escrava. Esses estudos também nos mostram que, durante esse intervalo de 19 anos, havia um debate acerca do intervencionismo britânico. Para alguns historiadores, o debate político girava em torno do Brasil não aceitar ingerência externa em um assunto considerado de soberania nacional.

Afropress – Quando te perguntam por que escrever um livro sobre a escravidão no Brasil, qual é a sua resposta?

AF – Meu livro não é exatamente sobre escravidão, mas sobre a diáspora. Ele trabalha com a circulação de pessoas e ideias de um lado e outro do Atlântico. A questão da escravidão é suporte para entender esses processos de troca e de circulação.

Afropress:  Por que o título do livro “Amanhã é Dia Santo”?

AF – “Amanhã é Dia Santo” é um verso de uma das canções cantadas pelos brasileiros da cidade de Ajudá, no atual Benin. A canção completa é assim:

Amanhã e dia santo

Dia corpus de Deo

Quem tem roupa va a Missa

Quem não tem faz como eu

Essa canção foi recolhida por Pierre Verger e publicada em 1957 em um livro que cita diversas outras canções da comunidade brasileira do Benin. Os versos estão em um português meio estropiado, porque Verger escreveu exatamente da forma como ela era cantada.

Escolhi específicamente esse verso, porque ele pode ser lido também como “Amanhã é Dia de Santo” e, portanto, de dedicação aos orixás. Foi uma tentativa de fazer um trocadilho entre as religiosidades católica e africanas. Tal como acontecia no século XIX, para que as religiões africanas fossem praticadas era necessário travesti-las com uma roupagem católica. Não é isso que acontece ainda hoje na lavagem do Bonfim?

 

 

Edson Cadette