VITÓRIA/ES – Quatro anos e oito meses antes do soldador João Alberto Silveira Freitas ser assassinado por espancamento e asfixia por seguranças do Carrefour, em Porto Alegre, outro homem negro – Jhonatam Barbosa, 28 anos – foi morto em circunstâncias parecidas numa loja do supermercado Carone, da região metropolitana de Vitória, no Espírito Santo.

O caso aconteceu no dia 29 de março de 2016. A loja fica em Laranjeiras, Serra – a mesma em que, na última sexta-feira (17/12), outro homem negro foi levado e espancado nas mesmas dependências do supermercado, sob acusação de que tentara furtar uma bicicleta.

DUAS PICANHAS

No caso do soldador gaúcho, foi atacado sem qualquer acusação ou suspeita de ter cometido qualquer infração, crime que chocou o país e ainda repercute por conta de um acordo em que o Carrefour teve excluída a responsabilidade civil e que está sendo questionado na Justiça.

Jhonatam foi acusado de roubar duas picanhas. Com o disparo do alarme foi perseguido, levado para dentro das dependências e morto por asfixia.

A conclusão de que foi assassinado foi da própria Polícia, após análise do laudo do Departamento Médico Legal (DML) de Vitória.

Veja reportagem da época

https://globoplay.globo.com/v/4921350/

Os dois seguranças foram presos pela Polícia, acusados de homicídio qualificado, por motivo fútil, com dolo eventual.

Na agressão mais recente praticada por seguranças, a vítima não foi identificada.

VÍDEO SALVOU A VIDA

Vídeo gravado pelo professor Damian Cunha, que presenciou o início da abordagem, mostra o homem sendo levado para o quartinho, puxado pelos cabelos e sangrando, enquanto tentava se desvencilhar dos seguranças.

O advogado André Moreira (foto abaixo) do Coletivo Cidadania, Antirracismo e Direitos Humanos, disse que a iniciativa de Cunha provavelmente salvou a vida do rapaz. “Se não houvesse o vídeo, é possível que tivéssemos outro Beto Freitas”, afirmou, numa referência ao que aconteceu em Porto Alegre.

Ele lembrou o caso Jhonatam para chamar de “cínica e despudorada” a nota do supermercado Carone ao se manifestar publicamente sobre o episódio de sexta.

A nota nega a truculência e a agressão racistas, ao mesmo tempo em que tenta apresentar a falsa versão de que os seguranças apenas tentaram conter o homem, enquanto aguardavam a chegada da Polícia.

As imagens, porém, mostram o contrário: não registram a presença de qualquer policial na cena do crime; o rapaz só foi solto depois que a violência começou a ser gravada.

PROTESTO

Nesta quinta-feira (23/12), 16h, a Unidade Negra, articulação que reúne entidades e ativistas capixabas promove manifestação de protesto em frente a loja para denunciar mais um caso de racismo e brutalidade de seguranças contra pobres e negros.

Segundo Moreira, a empresa é reincidente: em 24 de dezembro de 2020, um menino de 12 anos também foi agredido por seguranças na loja do Jardim da Penha, em Vitória.

A criança vendia bombons na frente do estabelecimento, quando foi informada de que deveria sair dali, mas se recusou. Foi então agarrada pelo pescoço por seguranças e expulsa do local.

O Grupo empresarial Carone tem hoje cinco unidades no Espírito Santo: uma em Colatina, uma em Rio Bananal, duas na Serra e uma em Cariacica.