Se permitimos a conservação dessa unidade ideológica que está cimentada em nossas cabeças, vendo como verdade toda a sua “história”, podemos julgar que, de fato, a Globo está contando as coisas como exatamente aconteceram. E daí ela pode até levar outro Troféu Raça Negra, não? (Percebam que ainda não perdoei…). Ou podemos escolher contar, nós mesmas, a versão enquanto sujeitos da História.
A grande questão “JK” é que, como qualquer produto de dramaturgia da emissora, ali se conta uma fábula do bom rapaz simples que virou presidente da República (obviamente, o fato de ter vendido o país não está no script). E como toda fábula global, a presença negra é sub-representada, subalternizada, ainda mais a presença negra feminina.
Como se nas questões sociais e políticas nacionais não houvesse, como elemento crucial, conflitos raciais, de classe ou de gênero; e que nesses conflitos a violência contra a mulher negra não passasse de uma violência isolada, privada e alheia a uma cultura que passava tanto pelo coronel regional quanto pelo rapazola boêmio da cidade.
Passa-se,simplesmente, uma esponja nessas lutas para dar o aspecto folhetinesco e maniqueísta necessário à manutenção das fantasias globais. E, nessas fantasias, não existe o sujeito negro. Se então a pessoa negra é retratada, é retratada como objeto. Mesmo quando a Globo acredita estar “mostrando a realidade do negro” sob o racismo, mostra-a/o tão-somente
enquanto um objeto de uso e exploração (escravidão) ou de violência (acusações racistas, ofensas e estupros).
Percebam a diferença da mulher negra e da mulher branca que ocuparam exatamente o mesmo lugar na casa do coronel, o lugar do desejo sexual e da dominação; aquela foi “salva” por esta, que se insurgiu, que reagiu e prosseguiu com a sua própria história enquanto uma personagem complexa, enquanto aquela permanece como apoio dramático aos personagens brancos.
Outro ponto é a banalização da violência, sim. A aparição de cenas de estupro não significa nenhum, absolutamente nenhum ganho político às mulheres negras; do contrário, amortiza cada vez mais a indignação do público que, sem quaisquer estímulos para a análise do fundamento racial e sexista daquela violência, acostumam seus olhos e seu sangue às visões da violência, como um fato histórico dado, imutável, fatídico. Daí para a apatia, é somente uma conseqüência.
Quem não sente a diferença que é ver uma cena de estupro pela primeira vez e depois outras repetidas vezes? Se da primeira vez nosso coração bate mais rápido, um silêncio de impacto se dá na sala de estar e a tentativa de desviar os olhos para não ver a cena é o nosso comportamento mais esperado, a cada nova visão em um dia, outro dia, e mais outro dia acaba por nos fazer olhar a violência como algo comum e suportável de se ver. Se não podemos falar que há também aqueles que acabam por desenvolver ou alimentar o fetiche da visão de uma violência sexual como uma fantasia secreta – ou não.
A indignação que a Casa de Cultura da Mulher Negra lidera é contra a cimentação dessa ideologia retratada na “história” contada pelo opressor. A Globo serve sabemos exatamente a essa ideologia opressora. E por cumprir seu papel muito bem cumprido, quer-nos iludir com uma suposta mensagem social de “denúncia” do que fora a violência contra a mulher negra, quando apenas nos mantém no lugar da subalternidade e da despersonalização.
A indignação que a Casa de Cultura da Mulher Negra lidera é contra a banalização da violência porque, se um ato de violência contra a mulher, aos nossos olhos, deve nos mover a uma reação necessária e imediata, assistir passivamente à violência gratuita e sem uma verdadeira crítica histórica naquelas cenas de tv será acostumar nossos nervos ao não-fazer, ao presenciar sem reagir.
A indignação que a Casa de Cultura da Mulher Negra lidera é pela reação ao estupro histórico dos corpos, mentes e significados reais de vida das mulheres negras.

Rebeca Oliveira Duarte