Mas desejei, sobretudo, que a efeméride não nos deixasse perder de vista os motivos iniciais, isto é, aqueles motivos que inspiraram amplas reflexões e atitudes emblemáticas dos nossos antepassados.
E desejei, ainda, que este Ano nos afastasse do trivialismo e do individualismo, mas que não nos deixasse faltar singeleza, ternura, isenção, e principalmente receptividade para com o sentido geral das coisas.
Em outras palavras, desejei fervorosamente que a data tivesse a propriedade de enlutar as vaidades, desonrar os egoísmos, desmoralizar as presunções; alçar as inteligências rasteiras e abrir as cerradas.
E que ninguém tentasse pousar de boa providência para com os afrodescendentes, uma vez que não é possível reconhecer o panteísmo de tais manifestações. E desejei com muita intensidade que este Ano histórico tivesse a propriedade de converter uma porção de gente não à doutrina irracional e sim ao préstimo e ao olor da promoção da igualdade racial.
Enfim, desejei que este Ano trouxesse o derramar de graças, a incorporação do espírito de paz, o respeito pelas diferenças raciais, sociais e etárias, subvertendo tudo o mais na própria fugacidade.
Brava Gente brasileira
A Constituição de 1988 define que um dos objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil é “promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”.
Contudo, apesar de várias iniciativas nesse sentido, é evidente que muito ainda precisa ser feito para erradicar o racismo e o preconceito da nossa sociedade. Da mesma forma, ainda há uma enorme luta a ser travada para assegurar à população brasileira, cuja expectativa média de vida aumenta a cada ano, condições de alcançar velhice digna e produtiva.
A partir desse quadro, das nossas experiências de vida e, sobretudo, dos enriquecedores estudos e das saudáveis discussões travadas durante o nosso Mestrado em Gerontologia na Pontifícia Universidade Católica, pudemos constatar a existência de uma realidade triste, cruel e excludente: descobrimos que os idosos negros brasileiros são vítimas de preconceito em dose dupla: social, por serem velhos; e racial, por serem negros.
Constatamos também a falta de políticas públicas dirigidas a esse público, o que significa que se ignora que as velhices negras possuem características específicas, que englobam aspectos étnicos, fisiológicos, socioeconômicos, psicológicos e culturais.
Por tais razões, decidimos abraçar o tema idosos negros e, na seqüência, compartilhar as nossas reflexões, cujos objetivos principais são: despertar a atenção para as particularidades e especificidades das velhices negras; incentivar debates e reflexões a respeito desse tema; envolver os próprios idosos negros na construção de um pensamento referente às suas velhices e também na divulgação de propostas no tocante à promoção da igualdade racial e etária.
Se assim agimos é porque acreditamos ser do nosso dever reconhecer as tradições de galhardia, de altivez, de presença de espírito, enfim, de resistência daqueles que muito antes de nós fizeram sua parte com idealismo e competência, legando-nos inúmeras lições de vida útil. Mas também porque nos convencemos de que sem a presença in loco desses idosos nos nossos estudos, tudo tenderia a ficar no terreno das nossas impressões pessoais. Eis, pois, uma pequeníssima demonstração do nosso afeto, carinho, mas principalmente reconhecimento e valorização da importância dessa nossa gente.
Assim, idealizamos esse PROÊMIO – uma longa introdução a um tópico altamente relevante, delicado, polêmico e, até onde sabemos, absolutamente inédito.
Acreditamos que a Gerontologia, ciência que tem como objeto de estudo os fenômenos fisiológicos, psicológicos e sociais relacionados ao processo de envelhecimento humano, pode se tornar um instrumento importante na construção de um novo modelo social que inclua os idosos negros, proporcionando a eles o mesmo respeito e o mesmo tratamento digno que são devidos a todas as pessoas, independentemente da condição social, da idade ou da cor da pele.
Então, hoje, desejo que todas as forças positivas, que a imensa falange de pretos velhos mentores, instrutores, guias de encarnação e de evolução ajudem a todos nós a continuarmos não só honrando os nobres feitos dos nossos antepassados e ancestrais como também exigindo, exigindo, exigindo que os nossos atuais mais velhos sejam tratados como seres humanos, reconhecidos como fontes de informações valiosíssimas e até inédita, e jamais como apetrechos de estimação.

Sônia Ribeiro