Quando recebi a missão de escrever sobre a II Caminhada do Povo de Santo pela Vida e Liberdade Religiosa, não me dei conta da dimensão em que estava me envolvendo. E só pude perceber a complexidade do fato quando à noite, dentro do Terreiro de Oxumarê, sentei em frente ao computador para escrever o tal artigo. Pensava, pensava, pensava e nada. Tendo ficado em minha cabeça a velha história que a nossa tradição é oral.
Pois bem, como sou do Orixá e de luta, refleti que o que tinha a fazer mesmo era dormir. Dormir e me inspirar. Pedi então para Ewá me incitar bons sonhos e caminhos para tratar da Caminhada. Acordei cedo e na manhã de hoje (sexta-feira), dia de Oxalá cumpri o sagrado ritual do Terreiro e então, após tomar todas as bênçãos necessárias perguntei aos mais velhos (Ogan Cidinho, Tia Filhinha e Tia Cotinha) o que fazer, tendo ouvido as mesmas respostas de maneira diferente, eles disseram: você sabe!
Resolvi então escrever como quem carrega o Oxê de Xangô e o Opaxorô de Oxalá para tratar da importância desta Caminhada.
Nós, os representantes das Religiões de Matriz Africanas estaremos nas ruas desta cidade, no dia 19 de novembro, um dia antes do dia da Consciência Negra, porque o dia 19 é dia de domingo, e não desejamos causar transtornos à vida da cidade, pois não desejamos atrapalhar o comércio ou as pessoas de chegarem no trabalho. Estaremos na rua no dia 19 de novembro porque em um país laico, com dezenas de feriados católicos e com uma população de 48% de negros e uma cidade com o maior percentual de negros e negras do país, ainda não se dignificaram a transformar em Feriado o dia 20 de novembro, dia Nacional da Consciência Negra.
A Caminhada do Povo de Santo surge devido a uma demanda contida desde muito tempo pelos fiéis das Religiões de Matrizes Africanas e do povo negro desta cidade. Historicamente existe um destrato que passa desde a ignorância (falta de conhecimento) acerca da nossa história e religiosidade até o não cumprimento dos órgãos públicos para com as suas obrigações legais de respaldar os nossos direitos constitucionais adquiridos, mas não assegurados. Isto é visível a olhos nus quando, devido à opressão que nos amealha cotidianamente, muitos dos nossos não afirmam a religião a que estão intrinsecamente ligados, como podemos perceber no último senso do IBGE onde pouco mais de oito mil pessoas afirmaram de forma corajosa a altiva que são de candomblé . Somos só esta quantidade mesmo neste estado?
O Povo de Santo, desta feita, vai às ruas em causa própria, para homenagear as suas próprias tradições e raízes, para falar de Mãe Runhó do Bogum; Nezinho de Muritiba; do Babalaô Martiniano Bonfim; de Bamboxé; de Tia Massi do Engenho Velho; de Mãe Menininha do Gantois; Dionísia do Alaqueto; Bernardino do Bate-Folhas; Procópio do Ogunjá; Ciriáco na Vila América; Cotinha do Oxumarê, Mãe Aninha do Opô Afonjá, dentre outras grandes personalidades. Grandes sacerdotes e sacerdotisas das Religiões de Matrizes Africanas.
Agora, como diria os mais novos, somos nós na fita, sabendo que estamos apenas dando mais um passo frente a todo o caminho trilhado pelos nossos ebomis (mais velhos). Queremos com esta atividade relembrar aos poderes públicos quem somos, onde estamos, o que fazemos, como pagamos os nossos impostos e que temos direito a voto (votamos e decidimos). Estamos cansados da opressão e aviltamento cotidiano. Cansamos de ser cartão postal sem direitos, de ser cultura sem formação, de estar na internet sem acesso, de conhecer leis que não se colocam em prática, de ser utilizados em receptivos como atrativos, como moscas nesta emaranhada teia de conexões globalizadas e turísticas.
Resolvemos sair de Casa. Exu à frente enviando a mensagem, Ogum abrindo o nosso caminho, Oxossi com a sua flecha certeira, Xangô com a sua justiça, Ossaim com suas folhas sagradas, Omulú cuidando da nossa saúde, Oxum espelhando nossa beleza e conhecimento, Yemanjá nos dando a força materna e sabedoria plena, Logum-Edé com os seus encantos, Ewá com seus mistérios, Iansã os seus bons ventos e presságios, Iroko e o ancestral saber, Oxumarê com a visão do futuro, Nanã nos enviando e nos esperando e Oxalá nosso pai maior a nos conduzir.
E desta vez Olorum pode ter certeza, não mais retornaremos a Ele, o nosso destino maior lá no Orum, sem a nossa missão cumprida.
Acredito que todas as pessoas que respeitam a vida e a liberdade religiosa, e que tenham a disponibilidade necessária, se farão presentes a este grande chamado e darão um grande abraço ao Dique do Tororó, dos Orixás e de Oxum.
Que os orixás, Inquices, voduns, e Encantados para sempre sejam louvados!
Motumbá a todos e todas.

Marcos Rezende