Salvador – O tradicional ritual religioso do Ilê Aiyê aconteceu ontem (domingo) por volta das 22h no Curuzu. Pipocas e pombas brancas foram jogadas para cima, simbolizando bons fluidos para o desfile do primeiro Bloco Afro do Brasil. Este ano, o Ilê Aiyê resolveu reafirmar a sua existência no Carnaval de Salvador tratando de um tema que traduz o anseio da sua comunidade: o negro e o poder.
“Este é o momento de pensar em fazer parte do poder. Nós [negros] temos que deixar de ser coadjuvantes da história”, afirma o presidente do Bloco, Antônio Carlos, o Vovô. Para ele, “homenagear e eleger personalidades negras como símbolos são formas de, ainda que paulatinamente, chegarmos ao poder”, concluiu.
“Falar de poder é, sobretudo, desenvolver políticas que combatam o racismo e a discriminação, promovendo a igualdade racial”, assim pensa a Ministra da Secretaria Especial para Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), Matilde Ribeiro, presente à cerimônia de saída do Bloco. Para ela, que é uma das homenageadas pelo Ilê neste Carnaval, o trabalho desse Bloco afro durante o ano e também neste período de festas é um exemplo a ser seguido pelas instituições públicas e privadas, pois com isso pode-se afirmar que “o negro está, tem e pode ter o poder”, assegura.
“Represento o poder da coletividade”. Assim se definiu o ator baiano Lázaro Ramos, que também marcou presença na saída do Bloco. De acordo com a estrela de sucessos nacionais como os filmes “Madame Satã, “Cidade Baixa” e “O Homem que Copiava”, “a chegada e a tomada do poder pelos negros não pode ser representada de forma isolada porque a luta começou há séculos e o espaço está sendo conquistado graças aos ancestrais do povo negro”, afirmou o ator, que neste Carnaval, participa da gravação do longa “Ó Pai Ó”, de Mônica Gardemberg, inspirado na peça homônima do Bando de Teatro Olodum, grupo que revelou Lázaro Ramos para o Brasil.
Também presente no Curuzú, o secretário municipal da Reparação, Gilmar Santiago, falou da felicidade de estar sendo homenageado pelo Ilê Aiyê na mesma época em que lança um projeto pioneiro no Brasil: o Observatório da Discriminação Racial no Carnaval de Salvador. “O Observatório é uma experiência que não seria possível se os trabalhos de combate à discriminação racial, educação e auto-afirmação do povo negro não houvessem sido iniciados pelo Ilê, há décadas.
Homenageada, a vereadora e ex-secretária municipal da Educação, Olívia Santana, afirmou que “a temática abordada pelo Ilê este ano vem suscitar questões como a participação do povo negro nas instâncias governamentais, mesmo durante a maior festa popular do mundo”.
E no ritmo marcante dos tambores conduziu uma multidão pelo bairro negro da Liberdade. No carro à frente, a deusa do Ébano Kátia Alves e as princesas negras iniciam as coreografias repetidas pelos seguidores do Bloco, com gestos largos, sorrisos e a auto-estima de negros e negras que já descobriram que “o poder é bom e querem o poder”.
Camarote atrai atenção na Praça Castro Alves
Quem passar pela Praça Castro Alves durante o Carnaval pode conferir mais um exemplo de vitória do povo negro na Bahia. É o Camarote do Bloco afro Ilê Aiyê que completa esse ano sua terceira edição. Com uma belíssima estrutura montada no estacionamento do Edifício Sulacap, decorado com motivos africanos e vendendo cerca de 1.200 camisas por dia, o camarote está se transformando em um dos mais atraentes do Circuito Osmar.
Além da vista privilegiada, o camarote é sempre motivo de homenagens dos diversos Blocos que passam pela praça do poeta.
O Carnaval nos Camarotes
Com a proliferação de camarotes no Carnaval baiano, o circuito Barra/Ondina vai ficando cada vez mais privativo deixando para os foliões “pipoca” um espaço cada vez menor. Os camarotes oferecem ao público vários serviços, como restaurante, cyber-café, vídeos, boates, salão de beleza, além de palco para show, diversos recursos para conquistar quem prefere curtir a festa “de cima”.
A decoração do espaço é outro fator de grandes investimentos nesses empreendimentos. Pensando nisso, este ano, o camarote Othon trouxe da Cultura Africana, temas e princípios para a decoração do espaço.
A novidade foi aprovada por alguns foliões. Eles acham que a iniciativa veio a calhar com o contexto carnavalesco baiano. “Nada mais justo que na Bahia, onde é grande a incidência de negros, se tomem iniciativas como estas. É um retrato não só do Carnaval, mas da Bahia”, diz Mira Oliveira, que reservou a noite de sábado, 25 de fevereiro, para aproveitar a festa no camarote Othon.
O Circuito Dodô surgiu na década de 80/90, oferecendo mais uma opção para os foliões, além do trajeto Campo Grande/Avenida Sete, chamado Circuito Osmar. O percurso Dodô tem aproximadamente 4 km de extensão e vai do Porto da Barra até a Ondina. No sábado, 22 Blocos fizeram a folia no Circuito, entre eles os Blocos Nana Banana com o Chiclete com Banana, Cocobambu com o Asa de Águia e Cerveja e Cia, com Ivete Sangalo.
Para comportar a festa, foi montada uma estrutura de 11 postos da Polícia Militar, que vão das mediações do Camarote Salvador até o Camarote Othon. Até às 00h do domingo, segundo a Polícia Militar, a festa estava sem muitas complicações, poucos índices de violência, sendo a maioria das diligências referentes a furtos.

Da Redacao