Rio – A barbárie brasileira se expôs, mais uma vez sem cortes, em pleno bairro do Flamengo, no Rio: um adolescente negro, de idade entre 16 e 18 anos, foi deixado nu preso a um poste amarrado por uma trava de bicicleta, depois de ser espancado presumivelmente por rapazes brancos bem nascidos da classe média carioca na última sexta-feira, na Av. Rui Barbosa, Zona sul do Rio.

Bastante machucado, o adolescente conseguiu revelar a artista plástica Yvonne Bezerra de Melo, 66 anos, da ONG Projeto Uerê, quem teriam sido seus algozes: "os justiceiros" – como são conhecidas gangues de playboys cariocas, da classe média branca que costumam sair às ruas para espancar e até matar moradores de rua, na sua maioria negros.

O caso lembra o que ocorreu com a empregada doméstica Sirlei Dias, espancada por cinco jovens de classe média do Rio, em 2007, porque os agressores achavam que fosse prostituta, quando ela aguardava o ônibus em um ponto da Barra da Tijuca, zona Oeste, de volta do trabalho.

A cena remete aos castigos que usualmente eram aplicados a negros durante o período da escravidão, acusados de pequenos delitos. No caso do período da escravidão, porém, os algozes eram quase sempre a Polícia, mantida pelo Estado imperial.

Garotões justiceiros

“Eu não quero saber se ele é bandidinho ou bandidão, você não pode amarrar uma pessoa no meio da rua. Aquela área do Flamengo teve um aumento muito grande de violência e roubos recentemente. Como as coisas não melhoram, um bando de garotões se juntam e começam a fazer justiça pelas próprias mãos. Sei que tem muita marginalidade e a polícia é ineficaz, mas você não pode juntar um grupo e começar a executar pessoas — explica Yvonne, que estima que o rapaz tenha entre 16 e 18 anos. — Eu perguntei a ele quem tinha feito aquilo e ele disse que eram os “justiceiros de moto”. Ele foi espancado, levou uma facada na orelha, arrancaram a roupa dele e prenderam pelo pescoço. E ninguém na rua faz nada para impedir, disse a artista plástica chamada por vizinhos e responsável pela denúncia.

Os bombeiros do Quartel do Catete que atenderam a ocorrência soltaram o rapaz, que foi levado para o Hospital Municipal Souza Aguiar. Os bombeiros precisaram usar um maçarico para abrir a trava da bicicleta.

Ameaças

A artista denunciou está recebendo ameaças por ajudar o adolescente: "Eu recebo ameaças por defender, mas estamos falando de seres humanos. Recebi no Facebook a seguinte mensagem: “Pra mim essa raça tem que ser exterminada com requintes de crueldade”. De um rapaz jovem, que não deve ter nem 20 anos. Se o Estado não toma providências para resolver o problema da violência, os grupos nazistas, neonazistas se unem e essa mentalidade toma conta", afirmou.

Ela é fundadora do Projeto Uerê, que oferece educação a crianças e adolescentes com dificuldades de aprendizagem decorrentes de traumas, desde os anos 1980.

Segundo Yvonne, desde os anos 80, esse tipo de ataque contra adolescentes negros é comum: "Nos anos 80 existiam, na Zona Sul, gangues de rapazes que saiam à noite para bater em mendigos e em meninos de rua. Depois, isso parou porque houve certa redução da criminalidade. Se ele rouba, que prendam, mas não pode torturar no meio da rua. Esse tipo de crime tem muito racismo, muito preconceito. Se fosse o contrário, ia ser um Deus nos acuda. “O branquinho amarrado no poste, coitadinho!”. O que está acontecendo é que a violência está criando o ódio da população. Eu entendo, ninguém quer ser esfaqueado andando no Aterro (do Flamengo), mas você tem leis, tem uma polícia. Não pode fazer justiça com as próprias mãos", concluiu.

Comentários

Depois que o caso foi denunciado uma verdadeira avalanche de protestos e de apoio a ação dos justiceiros: "Acordem seus tapados… quem anda no Flamengo sabe… isso ai é LADRÃO que assalta senhoras e mulheres todos os dias na rua Oswaldo Cruz e adjacentes… ele tem uma gangue… geralmente anda com mais 4 pivetes homens e 2 mulheres… fizeram foi pouco… faltou álcool e isqueiro pra 'esterilizar' o meliante", disse um rapaz. "Se é bandido, pena eu não ter passado com meu pitbull pra deixar ele brincar um pouquinho… Bandido bom é bandido morto!!", comentou um jovem.

Um terceiro homem reiterou: "Sinceramente, acho q só quem mora em Botafogo sabe o quanto esses pivetes estão colocando o terror, já tá todo mundo de saco cheio, é muito fácil ficar defendendo e dizendo q foram ladrões q fizeram isso!! Pelo q vi na foto, ele não está nada machucado, só está preso, acho até q foi um ato simbólico, pois já que quando alguém reclama com a policia que foi assaltado por um bando de pivetes eles simplesmente dizem que não podem fazer nada, que não adianta prendê-los!! Então, alguém foi lá e prendeu!!"


 

Da Redacao