S. Paulo – O fotógrafo Eufrate Almeida, ativista do Movimento de Proteção Animal e diretor da ONG “Quintal de São Francisco”, uma associação beneficente de Proteção aos animais, considera, no mímino, “uma irresponsabilidade e um erro de estratégia”, a atitude do grupo de defesa animal composto por veganos que veicula por meio de uma página na Internet (www.holocaustoanimal.org) imagens de negros como e judeus associando-os ao abate e sofrimento de animais como cães e porcos. Almeida considerou a imagem da Escrava Anastácia associada a um cão com focinheira “um insulto à memória” da população negra brasileira.
“Defendo a idéia que os grupos, sejam de quaisquer segmentos, utilizem-se de frases e imagens que digam respeito a sua reivindicação e aos seus próprios objetivos. Utilizar-se de imagens de outros segmentos é correr o risco de, no afã de defender suas ideologias e pensamentos, afetar outros setores da sociedade. Considero irresponsabilidade atitudes como essa e um erro de estratégia”, afirmou, que também é ativista do Movimento Negro de S. Paulo.
A denúncia feita por Afropress consta de representação impetrada na semana passada, em que a ONG ABC sem Racismo, com base na Lei 7.716/89, pede a abertura de investigação e providências para coibir a associação de imagens atentatórias à memória e aos sofrimentos de negros e judeus. Veganos são vegetarianos radicais que não consomem qualquer produto de origem animal.
A promotora Fernanda Leão, coordenadora do Grupo Especial de Inclusão Social do MP paulista, deve se manifestar na próxima semana sobre o caso.
Veja, na íntegra, a entrevista do fotógrafo
Afropress – Como negro e ativista nos movimentos negro e de proteção animal, como vê as imagens chocantes que colocam a Escrava Anastácia ao lado de um cão com focinheira e judeus no campo de Treblinka ao lado de porcos?
Eufrate Almeida – Por pertencer ao movimento de proteção animal, ao mesmo tempo em que sou ativista no movimento negro, falarei sob o ponto de vista de cada um desses segmentos.
O grupo de defesa dos animais, que está veiculando tais imagens, acompanhadas de frases comparativas entende que é natural comparar as agressões sofridas pelos animais, das mais diversas espécies, em todas as partes do mundo, seja pelo poder público ou pela população em geral, aos maus tratos a que foram submetidos os negros escravizados no Brasil e aos judeus vítimas do holocausto.
Tais comparações, se dão pelo grau de sensibilidade e de entendimento do grupo, de que não são seres superiores aos animais e que os mesmos sofrimentos e maus-tratos, traduzidos em crueldade, impostos aos seres humanos apontados na matéria, estão em pé de igualdade com os maus-tratos impostos aos animais. E, com essas comparações, ele defende a “liberdade” de todos os grupos referidos na matéria.
Por outro lado, quando o negro se vê diante da imagem de uma das mais emblemáticas figuras da resistência ao regime escravocrata, a Escrava Anastácia com a famigerada máscara de ferro, sendo comparada a um cão com focinheira, seguida da frase “Qualquer semelhança não é mera coincidência”, só pode acreditar tratar-se de insulto à memória de seus antepassados; uma afronta carregada de maldade, de preconceito, racismo e apologia à escravidão. Por uma questão de ponto de vista, o movimento negro não está errado em, no mínimo, pedir esclarecimentos sobre a matéria.
As pessoas podem ser sensíveis às outras causas, podem avaliar o sofrimento de grupos perseguidos, mas, são incapazes de sentir a dor do outro.
Não tenho procuração para responder pelos judeus, porém, acredito que ao verem corpos de seus antepassados ao lado de porcos pendurados, acompanhados da indagação “Qual a diferença?”, eles farão uma leitura diferente da mensagem, que o responsável pelas imagens desejou passar, por ser uma questão de entendimento e leitura, sob o ponto de vista de cada segmento.
Afropress – Você considera aceitável que, sob o pretexto de combater a crueldade contra os animais seja utilizada esse tipo de estratégia de marketing?
Almeida – Defendo a idéia que os grupos, sejam de quaisquer segmentos, utilizem-se de frases e imagens que digam respeito a sua reivindicação e aos seus próprios objetivos. Utilizar-se de imagens de outros segmentos é correr o risco de, no afã de defender suas ideologias e pensamentos, afetar outros setores da sociedade. Considero irresponsabilidade atitudes como essa e um erro de estratégia.
Afropress – Não acha que tais imagens são ofensivas e atentatórias à memória dos nossos antepassados vítimas da escravidão e dos judeus vítimas do holocausto?
Almeida– Quando um determinado grupo se utiliza da memória de outras causas, a fim de justificar a sua luta, sem que esses tenham ligação direta, pode-se pensar em má fé ou ignorância, especialmente tratando-se dessas duas grandes vergonhas da humanidade.
Enquanto negro, afirmo: as imagens são, sim, atentatórias, na medida em que suscitam, no imaginário da ignorância humana sobre a história do povo brasileiro, a perpetuação da imagem do negro acorrentado à condição de miséria. O pretexto de que as imagens utilizadas são de domínio público, não dá o direito da sua utilização de forma vã, sem o contexto histórico e elucidativo. Mais que uma questão legal, tal atitude deve se figurar no campo da ética e da responsabilidade.
A condição imposta aos negros africanos, seqüestrados de suas terras, escravizados, coisificados, tratados como “sem alma”, descaracterizados, acorrentados e entulhados (por meses) em “navios cargueiros” como mercadoria – em condições sub-humana que produziram marcas físicas e psíquicas, que perdurarão por toda a vida do negro brasileiro -, males como câncer de próstata, anemia falciforme, pressão arterial e os mais diversos tipos de doenças neurológicas – que acometem especialmente à população negra – são heranças da escravidão. Nós negros, que lutamos pela elevação da auto-estima, principalmente das crianças e jovens negros, que diante de informações desencontradas, descaracterizadas e estereotipadas, têm vergonha de si mesmos; quando utilizamos imagens semelhantes, trabalhamos com a preocupação de valorizar a memória, trazendo a história da referida figura enaltecendo-a, para transmitir conhecimento de maneira que tais informações, não tomem outro viés e as transformem em seres humanos rancorosos e vingativos. Procuramos praticar uma cultura de paz.
Afropress – Faça as considerações que julgar pertinentes.
Almeida – Quero deixar evidente que o movimento de defesa dos animais é comprometido com a sua causa, sem desmerecer qualquer outro segmento da sociedade. É formado por grupos, instituições legalmente constituídas e pessoas físicas do Brasil inteiro, que têm as mais diversas linhas de pensamento, desde os moderados aos mais radicais, como todos os movimentos da sociedade. Porém, o grupo que responde pelo referido site e seu idealizador não estão credenciados para falar, tampouco expressar o pensamento do Movimento.
Em contato telefônico com o responsável pelo site holocautoanimal, não tive a impressão de má fé e sim, da falta de habilidade e de percepção sobre a leitura que fariam os grupos étnicos envolvidos, diante das imagens e as frases por ele veiculadas.

Da Redacao