INTRODUÇÃO
Se há um movimento social que retomou sua expressividade no cenário político contemporâneo foi o Movimento Negro. Basta uma breve análise para perceber que ele está nas rodas de conversa, nas pautas da mídia, diante do Judiciário, dentro do Executivo e do Legislativo e ultrapassou os muros das Universidades.
Falando especificamente da mídia, tem sido ela, ao longo dos anos, a protagonista de um fenômeno até então inédito na história brasileira: o despertar da sociedade para os temas que envolvem o negro, o racismo e a interculturalidade.
No período escravista e após ele, foi a imprensa negra que se constituiu como um foco de resistência e denúncia da desumanidade da escravidão negra e enquanto um mecanismo de promoção e proteção da identidade étnico-racial e da auto-estima da população negra. Contemporaneamente, foi também através da imprensa negra que a discussão sobre a existência e a persistência do racismo no Brasil e suas formas de enfrentamento, há muito tempo travada dentro dos muros das Universidades, nas mesas do Congresso, nos livros e pesquisas científicos e, atualmente, nas barras dos Tribunais, se tornou, realmente, pública e pôs às claras uma questão até pouco tempo invisibilizada ou tida como proibida nas rodas de conversa e nos debates familiares do país, que até então vivia sob a égide de uma falsa idéia de democracia racial.
A midiatização dos problemas da discriminação racial, do racismo e do preconceito em relação à população negra, tem mostrado, também, o tamanho dessa discussão e a dificuldade de se encontrar uma solução consensual para esse problema, que, pela persistência ao longo dos anos, tem se mostrado como um dos principais problemas que a sociedade brasileira não consegue resolver: como conviver com a interculturalidade? Como lidar com o ser negro, sua cultura, religião, expressão?
Nesse contexto, o uso de novas tecnologias, sobretudo da Internet, têm contribuído de forma importante para o desenvolvimento desse debate. Por ser um mecanismo de comunicação ágil, dinâmico e de acesso relativamente fácil, ela tem sido usada pelo Movimento Negro para a criação de listas virtuais de discussão e de experiências de divulgação de notícias através de sites específicos, que vêm se constituindo numa importante arma no enfrentamento do racismo e um instrumento didático e informativo, para escolas, universidades, empresas, pesquisadores, lideranças sociais e pessoas interessadas na temática, e além disso, um espaço de denúncia, formação, reflexão e debate, mas, também, de articulação e participação políticas.
No presente trabalho denominamos de imprensa negra online, essas experiências alternativas de comunicação que, inseridas na rede mundial de computadores, buscam suplantar os objetivos primeiros da imprensa negra surgida no início Século XX, ou sejam, criar uma imprensa feita pela e para a população negra, e vão além disso, deixando de falar para dentro e passando a dialogar com todo o mundo, diante da percepção de que o problema do racismo e de suas formas de expressão, não deve ser preocupação exclusiva do movimento negro, mas, de todos indistintamente, sejam pessoas físicas ou jurídicas.
Assim, diante desse novo quadro, o presente trabalho busca estudar uma dessas práticas alternativas, o AfroPress, surgido em São Paulo, para a partir dele, discutir as características e as propostas dessa imprensa negra online brasileira, investigar o seu protagonismo nas discussões atuais sobre o negro e, pensando na necessidade de enfrentamento do racismo e na construção de um Brasil intercultural, refletir sobre a legitimidade, a capacidade e a independência dessa atuação.
1 IMPRENSA NEGRA: EXPERIÊNCIAS PRIMEIRAS
1.1 Uma imprensa feita por e para negros
Segundo Clóvis Moura , festejado intelectual negro brasileiro, a imprensa negra é uma das mais relevantes manifestações de identidade étnica da trajetória do negro brasileiro na luta pela cidadania. Ela surgiu assim, como um movimento de identidade étnico-racial, de valorização e incremento da auto-estima do negro e, enfrentando as barreiras de uma imprensa branca (Grande Imprensa), impermeável aos anseios e reivindicações da comunidade negra, recorreram à solução mais viável, que era fundar uma imprensa alternativa, na qual os seus desejos, as denúncias contra o racismo, bem como a sua vida associativa, cultural e social se refletissem.
O autor defende que por meio de um conjunto de periódicos que se sucedem do fim do Séc. XIX até meados do Séc. XX, a imprensa negra exerceu uma significativa influência na formação de uma ideologia étnica do negro e no seu comportamento, de uma forma geral. Assim, concentrando o seu noticiário nos acontecimentos da comunidade, divulgando a produção dos seus intelectuais nas páginas dessas publicações, aconselhando, orientando e criando, mesmo, um código moral puritana para ser obedecido pelos negros, essa imprensa feita por negros, para negros, marcou profundamente o pensamento do negro brasileiro.
Esses jornais, narra o intelectual negro, eram mantidos pelos próprios grupos que os editavam e alguns membros da comunidade que contribuíam com o que podiam, o que o torna um fato único e importantíssimo na História do Brasil, pois foi a união e a obstinação desses grupos negros em manterem um espaço ideológico e informativo independente, bem como a sua consciência étnica, que criou e garantiu a continuidade de vários periódicos.
Assim, eles também serviram como um veículo organizacional dos negros. Foram as discussões que se tratavam nas suas páginas, a colocação permanente dos problemas específicos da comunidade, as denúncias contra o racismo e a violência através de fatos concretos, que levaram à fundação do maior movimento político negro no Brasil: a Frente Negra Brasileira.
Esses jornais, conforme já dissemos, não refletiam nas suas páginas os grandes acontecimentos nacionais. Nada sabemos, pela sua leitura, da Coluna Prestes, da revolução de 1930, do movimento de 1932 em São Paulo, da revolta comunista de 1935 e de outros acontecimentos relevantes nesse período. Há, mesmo, uma certa cautela tática, pois neles também não se encontram notícias ou comentários sobre o movimento sindical, as lutas operárias, greves e a participação dos negros nesses eventos. Também não se encontram críticas ao governo. É uma imprensa altamente setorizada nas suas informações e dirigidas a um público altamente específico .
1.2 Esboço das experiências primeiras
Foi ainda no período colonial que o tipógrafo negro Francisco de Paula Brito fundou O Homem de Cor (1833), depois denominado O Mulato, primeiro jornal de combate à discriminação racial no Brasil , precursor daquilo que mais tarde iria se chamar “imprensa negra”.
Mas, antes mesmo que Paula Brito adquirisse o seu maquinário e O Homem de Côr fosse uma realidade, já em 1798 pessoas negras em Salvador, na Bahia, haviam organizado a Revolta dos Búzios, utilizando como veículo aglutinador manifestos colados em paredes da cidade, o que hoje se chama jornal mural. Houve ainda a experiência primeira do jornal O Bahiano, do jurista Antonio Pereira Rebouças, que circulou sob sua responsabilidade de 1828 a 1831 .
Pinto , diz que em 1833, impulsionados pelo aparecimento de O Homem de Côr, surgem no Rio de Janeiro, Brasileiro Pardo, O Cabrito, O Crioulinho, O Lafuente, todos com o objetivo principal de ser um veículo de denúncia do preconceito de cor nos espaços públicos tanto da Corte quanto de outras localidades do país.
Outros negros, seguindo o exemplo de Paula Brito, contribuíram na construção da imprensa negra brasileira a partir do início do século XIX, como Ferreira de Menezes, fundador dos jornais O Ipiranga e a Gazeta da Tarde. Quando ele morreu, em 1881, José do Patrocínio o sucedeu na Gazeta da Tarde, onde ficou seis anos, até lançar A Cidade do Rio de Janeiro, em cujas páginas deu a notícia da promulgação da Lei Áurea .
A história segue em Recife, no ano de 1876, com a publicação do jornal O Homem – realidade constitucional ou dissolução social, que acusa os governantes de empurrarem a classe dos homens de cor ao ostracismo, contra toda a justiça, contra a própria lei fundamental de país. Pouco depois será a vez de São Paulo, com A Pátria – orgam dos homens de côr (1889) e O Progresso – orgam dos homens de côr (1899), que são considerados por alguns como os primeiros passos da imprensa negra paulista, bem como Porto Alegre, com O Exemplo (1892), que, rompendo as fronteiras do século XIX, deixou de circular apenas em 1930, em decorrência da quebra da bolsa de Nova York .
Note-se que, mesmo diante do passar dos anos, mesmo com o fim da escravidão e com a Proclamação da República, os discursos seguem a mesma base temática, o tom de denúncia não é abandonado e, ao contrário disso, intensifica-se e estende-se por todo o país, mostrando a persistência do racismo e de suas formas de expressão ao longo dos tempos.
Clóvis Moura , diz que de 1915, ano de lançamento de O Melenick, que ele considera o marco fundador da imprensa negra paulista, a 1963, a chamada imprensa negra paulista editou cerca de 32 jornais, entre os quais se destacavam o Clarim da Alvorada e A Voz da Raça, que se tornou o porta-voz da Frente Negra Brasileira (fundada em 1931), uma das mais importantes organizações da população negra do País, e influenciou a criação de novos veículos em outros Estados, como A Raça, em Minas Gerais (1935); Alvorada, no Paraná (1936); e União, no Rio Grande do Sul (1943).
Os jornais editados por negros paulistas sucedem-se até 1963, quando é fechado o Correio d’Ébano. O Menelick, que conseguiu grande prestígio na comunidade negra, difundia aquilo que os seus redatores achavam mais interessantes para a vida social e cultural dos negros. Após o primeiro, outros se sucederam na seguinte ordem: A rua e O Xauter, 1916; O Alfinete, 1918; O Bandeirante, 1919; A Liberdade, 1919; A Sentinela, 1920; O Kosmos, 1922; O Getulino, 1923; O Clarim da Alvorada e Elite, 1924; Auriverde, O Patrocínio e O Progresso, 1928; Chibata, 1932; A Evolução e A Voz da Raça, 1933; O Clarim, O Estímulo, A Raça e Tribuna Negra, 1935; A Alvorada, 1936; Senzala, 1946; Mundo Novo, 1950; O Novo Horizonte, 1954; Notícias de Ébano, 1957; O Mutirão, 1958; Hífen e Niger, 1960; Nosso Jornal, 1961; e Correio d’Ébano, 1963.
Na mesma linha de Clóvis Moura, Miriam Nicolau Ferrara , divide a imprensa negra em três períodos. O primeiro começa em 1915, com o lançamento de O Menelick, primeiro jornal feitos por negros e para negros. O jornal conseguiu grande prestígio na comunidade negra, difundindo aquilo que os seus redatores consideravam mais interessante para a vida social e cultural dos negros. Para a autora, o lançamento de O Clarim da Alvorada, em 1924, marcou o surgimento de uma série de publicações mais reivindicativas, dando início à segunda fase da imprensa negra. É nesse período que surge a Frente Negra Brasileira, que publicou seu órgão oficial, A Voz da Raça, veiculado de 1933 até 1937, quando o advento da ditadura getulista fechou a Frente, a essa altura já transformada em partido.
Em 1933, com o jornal A Voz da Raça, que passa ser o principal meio de comunicação da imprensa negra, emerge o terceio período, que se estende até 1937, quando a Frente é fechada pelo Getúlio. Nessa época, a Frente Negra já havia se transformado em partido político (FNB). Nesse período, a admissão da questão racial era vista como antipatriotismo, o que, certamente, era refletido na imprensa. Somente com a queda de Getúlio, em 1945, o jornal Alvorada, retoma os ideais da imprensa negra e marca a sua terceira fase, seguindo até 1963, quando é novamente paralisado por causa da ditadura.
No fim da década de 70, ainda durante a ditadura militar, os negros manifestaram sua reorganização político-cultural através dos jornais Sinba, no Rio, e Jornegro, em São Paulo, e na revista Tição, no Rio Grande do Sul. Nos anos 80, surgiram publicações como Ébano (SP), Akomabu (MA), Frente Negra, Coisa de Krioulo, Afro-Reggae, Maioria Falante (RJ) e Nêgo (BA). Em 91, foi lançada no Rio a revista Nós, we around the world e, cinco anos depois, em 1996, em São Paulo, a Raça Brasil.
No momento atual, novas experiências de imprensa negra emergem e trazem consigo uma nova discussão sobre o papel dessa imprensa no enfrentamento do racismo e suas formas de expressão. Esse novo debate reflete sobre até que ponto a imprensa negra atual continua restrita ao público negro, ensimesmada, e em que medida isso pode significar um entrave ao alcance dos seus objetivos principais. Questiona-se, ainda, se não estaria na hora de construir um modelo de jornalismo negro que não tivesse por foco, tão somente, e exclusivamente, outros negros, mas que pudesse ser um veículo de conscientização de todos os cidadãos para o grave e persistente problema do racismo no Brasil. Um dos exemplos dessas novas experiências é o AfroPress, que analisaremos a seguir.
2 UMA NOVA PROPOSTA DE IMPRENSA NEGRA: FALAR COM E PARA O MUNDO
2.1 Agência Afro-étnica de notícias – AfroPress: (d)escrevendo uma nova história
Na página principal um banner negro informa o site: AfroPress – Agência Afro-étnica de Notícias . No próprio banner consta o menu com os links: principal, colunistas, correspondentes, agenda, quem somos nós, publicidade e sugestões de links.
Com alguns elementos repetidos do menu, a página principal traz seções como, notícias, colunistas, editorial, agenda, palavra do leitor. Uma coluna à esquerda evidencia banners de entidades da causa anti-racista.
O teor das matérias na editoria de notícias é bastante diversificado, porém, todos pautados na questão racial e étnica. Versam sobre futebol, direitos, política, enfim, a inclusão na pauta se dá mediante eventos específicos, demandas do movimento, da sociedade e também do governo.
O site da agência é atualizado com bastante freqüência, tem pelo menos uma edição diária sobre o que está ocorrendo no campo da temática racial e étnica. É na contramão da grande mídia que a AfroPress segue construindo sua política de comunicação. O editor critica a grande mídia afirmando que esta pratica racismo institucional quer, invisibilizando, quer reduzindo a importância, quer ainda distorcendo os fatos. Para exemplificar, faz referência a um fato recente:
O carnaval feito pela Globo e pela Revista Veja, no caso dos gêmeos univitelinos, um branco outro negro, que recorreram ao sistema de cotas na Universidadede Brasília. Um dos gêmeos foi recusado na primeira fase, recorreu e a Universidade acatou, porém, essa informação, que anula a anterior não foi dada pela mídia. Esse é o exemplo, na minha opinião, mais acabado, de como a mídia pratica racismo institucional.
A visibilidade do site vai além do espaço virtual. Seu poder de articulação junto à sociedade propicia um caráter mobilizador que vai ao encontro do seu principal objetivo – falar para além dos seus pares -, contribuindo, dessa forma, para que a temática racial e étnica seja apropriada pela mídia, incluindo os grandes jornais impressos e o telejornalismo, sendo referência, fonte de informação para as redações. É exatamente este o objetivo de uma agência de notícias. Uma agência de notícia tem um papel crucial na circulação de informações.
Também por conta dessa visibilidade, no final de 2005, a página da agência foi vítima de cinco ataques de racismo virtual por hackers. Ataques estes que levou a agência mudar de provedor três vezes em seis meses. Atualmente a página está hospedada na Rits – Rede de Informações do Terceiro Setor, que tem conseguido evitar os ataques. Para a Ong ABC Sem Racismo, os ataques se deram, de um lado, porque está sendo dada visibilidade a um tema que permanece encoberto e que não se encontra na pauta da chamada mídia tradicional. Por outro, porque a Ong está falando à sociedade brasileira.
O caso do estudante Marcelo Valle Silveira Mello, ilustra bem essa visibilidade e articulação além do virtual por parte da agência. O estudante acusado de crime de racismo pela internet foi interrogado no Tribunal de Justiça do Distrito Federal após investigação do Ministério Público de São Paulo. Marcelo usou palavras como “macacos” e “sujos” em uma comunidade do Orkut para discutir o sistema de cotas na Universidade de Brasília (UnB). A Ong ABC sem Racismo acusou o estudante de praticar racismo no Orkut.
Enquanto a Ong ABC Sem Racismo tem seu foco de atuação na região do ABC Paulista, a agência AfroPress, projeto integrante daquela Ong, tem por território os cinco continentes, reforçando ainda mais a sua legitimidade e das das suas propostas. Isto se deve não somente pelo fato de a agência ter um site e encontrar-se num espaço virtual, mas pelo fato do seu poder de mobilização ir além de São Paulo, tendo penetração no Brasil e em diversos continentes.
Neste sentido, colunistas e correspondentes voluntários prestam um relevante trabalho. Num breve levantamento feito acerca do perfil dos colaboradores, verificou-se um grupo bastante eclético: sociólogos, jornalistas, educadores populares, pedagogos, historiadores, advogados, psicólogos e uma expressiva participação de lideranças sociais não somente do Movimento Negro.
A agência conta sistematicamente com duas dezenas de colunistas que escrevem regularmente; porém, outros escrevem sazonalmente, em uma espécie de colaboração eventual. No que diz respeito à captação de colunistas os únicos critérios existentes dizem respeito à qualidade do texto e a seu foco, ou seja, qualquer pessoa pode se tornar colunista ou escrever artigos para a Afropress, independente da opinião que tenha a respeito de qualquer tema, ainda que esteja em desacordo com a linha editorial do veículo, o que desvenda o seu caráter democrático.
O site da agência é gerenciado por Dojival Vieira dos Santos, 51 anos, advogado, poeta e jornalista, com reconhecida atuação na área de combate ao racismo e desenvolvimento de projetos sociais voltados a valorização da diversidade racial e étnica em São Paulo e no País. Este jornalista foi coordenador do primeiro Programa de Ações Afirmativas no âmbito do Ministério da Educação (MEC) – o Programa Diversidade na Universidade, de apoio à elaboração de políticas públicas de melhoria da qualidade do Ensino Médio com ênfase à defesa da inclusão e ao combate à discriminação racial e étnica. Atualmente Dojival preside a Ong ABC Sem Racismo, onde atua na elaboração e desenvolvimento de projetos em parceria com empresas e Poder Público nas áreas da Saúde, Educação, Esportes, Mercado de Trabalho, Mulher, Cultura e Direitos Humanos.
A agência conta também com uma coordenadora de redação, a jornalista Dolores Medeiros, que tem experiência no uso das tecnologias de informação e na área da produção e edição de Programas de TV e Rádio. Ressalte-se que ambos trabalham voluntariamente e mantêm o site sem qualquer apoio financeiro do Governo ou outras instituições.
Destaque-se que o descrito sobre a composição do pessoal, altamente qualificado e especializado, e sobre a autosustentabilidade do Projeto, sem patrocínio, financimento ou qualquer tipo de ajuda institucional, apesar de vislumbrarem essa possibilidade num futuro próximo, diante da necessidade de ampliar a rede e a atuação, reforçam a sua capacidade e a sua independência de atuação.
Com um organograma bem reduzido, a AfroPress conseguiu a façanha de ter em média, 20 mil acessos ao mês. A adesão de voluntários, bem como o poder de articulação desta agência, chama a atenção para essa proposta alternativa de uma agência focada na temática étnico-racial. Em uma entrevista concedida via e-mail aos pesquisadores, o editor responde sobre a ampla articulação da AfroPress e relata as parcerias conquistadas, conforme o fragmento abaixo:
Foi com esse espírito de abertura que há dois anos, em contato pela própria Internet, o Colunista Edson Cadette, passou a escrever regularmente para a Afropress. É o nosso correspondente em Nova York, desde que passamos a operar em tempo real, há dois anos. A cada 15 dias, tem artigo dele, sobre os mais variados temas. Também mais recentemente, passamos a publicar “As Cartas de Hamburgo”, com artigos e impressões do jornalista Marcos Romão; e agora mais recentemente, Telma Montes, de Glasgow, Escócia. O que buscamos é reproduzir esse olhar negro, que vê o país e a questão étnico-racial de fora do país. É bem interessante e acredito que estamos ampliando a nossa abordagem. Também postamos regularmente artigos da Sueli Carneiro publicados no Correio Braziliense, de Brasília, com sua autorização, o mesmo ocorrendo com o Nei Lopes, de quem também, sob autorização, reproduzimos textos do seu blog Meu Lote. Não há para postagem qualquer filtro, político e ou ideológico. Também lideranças, articulistas brancos anti-racistas tem espaço. Nossa linha editorial contempla a idéia de que a luta pela superação do racismo – que é um dos elementos estruturantes da desigualdade social brasileira – é uma tarefa para toda a sociedade brasileira, sob a direção do povo negro que durante 350 anos viveu sob o escravismo e há 119 vive sob esta modalidade de racismo que é, provavelmente, a pior: um racismo camuflado, envergonhado, que não ousa se assumir e quando flagrado, em qualquer circunstância se acovarda e não se assume. (grifou-se)
É desse modo que a agência, através dos seus colaboradores, faz uso da mídia como um instrumento estratégico de combate ao racismo, cria vínculos entre pessoas, comunidades, sociedade e dá sustentação editorial não somente a seus pares, mas a jornais e revistas, entre outros. Isto significa ir ao encontro de uma proposta mais global, sair do puro fornecimento de conteúdo e passa a atuar de forma mais abrangente.
2.2 Saindo da invisibilidade e falando para fora: a proposta da imprensa negra online
Assim, a partir desse cenário, dessa breve descrição da agência AfroPress, nos propomos, nesse momento, a discutir como a internet enquanto fenômeno hegemônico, embora ainda minoritário, que transita entre o tecnológico e social, tem se constituído em uma aliada à denominada imprensa negra.
Iniciamos essa tarefa, percebendo que o Projeto do AfroPress justifica-se na percepção de que o processo de exclusão sócio-racial do negro mantém-se, em grande medida, graças ao mecanismo da invisibilidade e/ou subalternidade da população negra, que é, simultaneamente, de negação e afirmação da memória, e funciona numa via de mão dupla: de um lado, a partir a negação do negro como sujeito-protagonista; de outro, pela afirmação do negro como estereótipo, sujeito sim, mas do que é depreciável, da menos valia. Assim, esse processo perverso de exclusão socio-racial do negro, não teria, talvez, tido tanto sucesso se não fosse adotada a invisibilidade como estratégia.
O sucesso dos mecanismos de invisibilização do negro, pode ser hoje comprovado quando vemos que em praticamente todos os setores privilegiados da sociedade, com exceção de alguns “espaços permitidos” , a presença do negro é mínima, o que é patente, por exemplo, quando verificamos a inserção quase insignificante do negro na mídia. O Projeto do AfroPress defende que a desconstrução da invisibilidade da população afrodescendente tem seu principal instrumento nas lutas do Movimento Negro por inserção no mercado de trabalho, acesso à Educação por cidadania e por direitos. E que, nessa tarefa, não se pode abrir mão da importância da mídia, incluindo a Internet, no processo de combate ao racismo e pela construção de uma sociedade étnica e racialmente plural em direitos e oportunidades.
Segundo Aquino , o maior desafio que se coloca para os negros não é a recusa à tecnologia da informação, mas a integração no espaço virtual, aproveitando os recursos tecnológicos de uma forma positiva e procurando desenvolver uma atitude favorável em relação à tecnologia para combater o racismo.
Para a autora, participar da sociedade de informação significa penetrar velozmente numa via na qual as pessoas se tornam membros de uma gama de comunidades não enraizadas, tornando-se produtoras e distribuidoras de seus próprios produtos culturais, pois a Internet possibilita a produção da informação e o desenvolvimento de uma ação no sentido de impedir o racismo, obter compensação e correção dos defeitos da discriminação, tornando-se num meio que permite aos negros reforçarem a criação do que vem sendo chamado de movimento afirmativo no Brasil.
Prosseguindo, defende que os negros precisam estar inseridos na sociedade em rede, utilizando as tecnologias da informação para construir o espaço do saber, recusando os estereótipos, clichês e discriminações que constituem o discurso racista e cristalizam a idéia de que todo negro é intelectualmente inculto. Uma das estratégias para a construção desse espaço, no nosso entender, é a posse das novas tecnologias, especialmente, a internet.
Nesse sentido, Resoluções assinadas pelo Brasil, em especial na III Conferência Mundial contra o Racismo promovida pela ONU, em 2001, em Durban, África do Sul, já apontavam para a necessidade de ações efetivas, no que se refere à Comunicação. É o que se pode concluir da menção explícita sobre o uso, no combate ao racismo, da informação, comunicação e da mídia, incluindo novas tecnologias, em especial a Internet, como vemos:
140. Acolhe a contribuição positiva feita pelas novas tecnologias de informação e comunicação, incluindo a internet, no combate ao racismo através de uma comunicação rápida e de grande alcance; 141. Chama a atenção para o potencial de se aumentar o uso de novas tecnologias de informação e comunicação, incluindo a internet, para criar redes educacionais e de sensibilização contra o racismo, a discriminação racial, a xenofobia e a intolerância correlata, tanto dentro quanto fora da escola, bem como o potencial da internet em promover o respeito universal pelos direitos humanos e também o respeito pelo valor da diversidade cultural; 142. Enfatiza a importância de se reconhecer o valor da diversidade cultural e de se adotarem medidas concretas para incentivar o acesso das comunidades marginalizadas à mídia tradicional e alternativa e à apresentação de programas que reflitam suas culturas e linguagens; […]147. Solicita os Estados a considerarem o que se segue, levando em conta as normas internacionais e regionais existentes relativas à liberdade de expressão, quando adotarem medidas para garantir o direito à liberdade de opinião e expressão: h) Incentivar a representação da diversidade da sociedade entre o pessoal das organizações de mídia e das novas formas de informação e tecnologias de comunicação, tais como a Internet, através da promoção adequada da representação de diferentes segmentos dentro das sociedades em todos os níveis de sua estrutura organizacional .
Em reforço ao argumentado até aqui levantado sobre a necessidade da emergência de novas experiências que contribuam no enfrentamento da invisibilidade da população afrodescendente e do racismo brasileiro, trazemos as contribuições de Stuat Hall, negro, nascido na Jamaica e residente na Grã-Bretanha desde 1951, que se tornou uma das principais referências atuais sobre as dimensões político-culturais da globalização, vistas a partir da diáspora negra. Na sua obra Da Diáspora: Identidades e mediações culturais, diz o autor:
[…] as estratégias culturais capazes de fazer diferença são o que me interessa – aquelas capazes de efetuar diferenças e de deslocar as disposições do poder. Reconheço que os espaços “conquistados” para a diferença são poucos e dispersos, e cuidadosamente policiados e regulados. Acredito que sejam limitados. Sei que eles são absurdamente subfinanciados, que existe sempre um preço de cooptação a ser pago quando o lado cortante da diferença e da transgressão perde o fio na espetacularização. Eu sei que o que substitui a invisibilidade é uma espécie de visibilidade cuidadosamente regulada e segregada. Mas simplesmente menosprezá-la, chamando-a de “o mesmo”, não adianta. Depreciá-la desse modo reflete meramente o modelo específico das políticas culturais ao qual continuamos atados, precisamente o jogo da inversão – nosso modelo substituindo o modelo deles, nossas identidades em lugar das suas – a que Antonio Gramsci chamava de cultura como “guerra de manobra” de uma vez por todas, quando, de fato, o único jogo corrente que vale a pena jogar é o das “guerras de posição” culturais .
No contexto desse fragmento, Hall questiona que tipo de momento é este para se colocar a questão da cultura popular negra. Ele afirma que esses momentos são sempre conjunturais, que tem sua especificidade histórica. Cabe ressaltar que a cultura popular para este autor é constituída por tradições populares e pela forma como estas se processam em tensão permanente com a cultura hegemônica. Nesse sentido ela não se resume à tradição e ao folclore, nem ao que se consome ou vende. Sua importância reside em ser um terreno de luta pelo poder, de consentimento e resistência populares, abarcando, assim, elementos da cultura de massa, da cultura tradicional e das práticas contemporâneas de produção e consumo culturais.
É nessa linha o trabalho da AfroPress, que tem utilizado a internet como estratégia para propagar suas reivindicações e propostas sobre a questão racial e étnica, elucidando as causas e as estruturas do racismo, usando este meio para resistir à cultura de opressão racial existente no Brasil e rompendo de alguma forma com a invisibilidade provocada pela grande mídia. Percebe-se desta forma, a Internet propiciando possíveis mudanças de caráter social e organizacional de uma etnia. Como nos lembra Fischer, “os meios de comunicação constroem significados e atuam decisivamente na formação dos sujeitos sociais” .
Conclusões
Longe de querer apontar respostas, procuramos, antes, nesse estudo, descrever alternativas possíveis, pois acreditamos que há no mundo, especialmente nos países do Sul, como o Brasil, experiências emergentes e ausentes, invisibilizadas diante das tradicionais formas e modelos postos, mas que trazem em si um enorme potencial para contruir novas realidades emancipatórias, mesmo num contexto de adversidades .
Foi pensando nisso que, a partir da análise da experiência do que denominamos de imprensa negra online, para distinguí-la daquela imprensa negra que fez história no princípio do Século XX e marcou o início da luta anti-racista nos meios de comunicação, no Brasil, procuramos investigar como a AfroPress – Agência Afroétnica de Notícias, desenvolve o seu projeto de jornalismo.
Anotamos que a proposta da AfroPress, que tem por foco um jornalismo voltado para a temática racial e étnica, a partir do uso da Internet, e pelo aproveitamento da experiência e do idealismo dos seus membros no trato da temática racial, por serem militantes e voluntários de movimentos sociais, e da sua formação profissional, já que são jornalistas ou profissionais de áreas afins, consegue realizar um trabalho que congrega a legitimidade, a capacidade e a independência.
Por fim, que essa experiência tem o claro objetivo de servir de modelo e abrir portas para a sua reprodução. Mas, alertamos para os riscos de que, pela falta de algum daqueles elementos que analisamos nesse trabalho, ou sejam, legitimidade, capacidade e independência, acabe-se caindo nos perigos da cooptação, especialmente da grande imprensa, o que tornaria essa tentativa de um jornalismo emancipatório em mais uma experiência de dominação e regulação, desvirtuando-a da trilha daquilo que se deseja construir alternativamente a partir da idéia de que “um outro mundo é possível” .
1 MOURA, Clóvis Moura. História do Negro Brasileiro. São Paulo: Editora Ática S.A., 1992.
2 MOURA, op. cit
3 MARQUES, José Reinaldo. A imprensa e a igualdade racial. Associação Brasileira de Imprensa [online]. Disponível em: < http://www.abi.org.br/primeirapagina.asp?id=1249>, Acesso em: 12-jul-2007.
4 PINTO, Ana Flávia Magalhães. A imprensa negra no Brasil: momentos iniciais. Írohìn online.
Disponível em: , Acesso em: 13-jul-2007.
5 Idem, idem.
6 MARQUES, op. cit.
7 PINTO, op. cit.
8 MOURA, op. cit.
9 MOURA, op. cit.
10 FERRARA, Miriam Nicolau. A Imprensa Negra Paulista (1915-1963). São Paulo: FFCH.USP;1986.
11 MARQUES, op. cit.
12 O AfroPress é um projeto da ONG ABC Sem Racismo, entidade com sede em São Bernardo (SP), com área de abrangência no ABC paulista e em núcleos na Capital, São Paulo.
13 Entrevista concedida aos pesquisadores via e-mail em 14 de julho de 2007 por Dojival Santos.
14 Uma minuta do Projeto AfroPress foi fornecida aos pesquisadores pelo jornalista Dojival Vieira, responsável pelo mesmo. Tal proposta está sendo encaminhada e discutida com instituições de apoio a projetos sociais.
15 Esse conceito trata da “permissão” para que os negros usufruam e sejam até hegemônicos numericamente falando nos espaços lúdicos (música, dança, esporte), e vetados nos demais espaços, como o político, econômico, acadêmico, etc. Isso pode ser visto, por exemplo, na Bahia, onde o negro está maciçamente representado na dança e música, mas, na política, há menos negros que no Estado do Rio Grande do Sul. Sobre isso ver BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.
16 AQUINO, Mirian de Albuquerque. Tecnologias da informação e racismo: combatendo monstros com arma suave. Disponível em:
, Acesso em: 15-jul-2007, p.10-11.
17 Relatório da Conferência Mundial Contra Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata. Disponível em: , Acesso em: 15-jul-2007.
18 HALL, Stuart. Da Diáspora: Identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: UFMG: Representações da UNESCO no Brasil, 2003, p.349.
19 FISCHER, Rosa Maria Bueno. O Estatuto pedagógico da mídia: questões de análise. In: Educação e Realidade. Vol 22 n 2, jul/dez . Porto Alegre: FACED/UFRGS, 1997, P.59.
20 As discussões sobre uma globalização contra-hegemônica, globalizações alternativas, experiências ausentes e emergentes, são desenvolvidas pelo sociólogo português Boaventura de Sousa Santos. Ver SANTOS, Boaventura de Sousa. A gramática do tempo: para uma nova cultura política. São Paulo: Cortez, 2006.
21 Slogan do Fórum Social Mundial, que congrega desde 2001 Movimentos Sociais de todo o mundo e tem construído uma rede internacional, sobretudo entre os países do Sul mundial, que objetiva a troca de experiências e de propostas alternativas ao modelo hegemônico capitalista ou neoliberalismo.

Ilzver de Matos Oliveira e Lourdes Ana Pereira Silva