Com estas palavras, em 31 de março, de 1731, o navio de carga “Diligent” recém transformado em negreiro, sob o comando do capitão Pierre Mary e com uma tripulação de 37 pessoas, deixava a França para sua primeira viagem à Costa Oeste do continente Africano. Nunca é demais salientar que mais de 35 mil viagens deste tipo foram feitas durante o período do tráfico de escravos.
A maneira com que nos é mostrada o dia a dia da tripulação, a comida que é levada à bordo para sua alimentação e dos futuros escravos, os ferros que serão usados para algemar estes últimos, a hierarquia de papéis no navio, e até mesmo, suas superstições, são contados nos mínimos detalhes no livro “The Diligent”.
Fechando os olhos é possivel imaginar a embarcação, sua rota, e tambem sua tripulação. É interessante e, ao mesmo tempo, triste viajar no tempo à bordo deste negreiro. Aprendemos, por intermédio do jornal do jovem primeiro tentente chamado Robert Durand, um pouco da história não só da África, mas tambem da Franca, Portugal, Inglaterra e Holanda. O diário de 113 paginas de onde a história se baseia é de propriedade da Universidade de Yale em Nova Jersey (Leste).
A história do livro começa ficar fascinante quando já estamos viajando pelas águas do continente Africano. Ficamos sabendo que os portugueses chegaram à Africa por volta do século XIV, seguidos dos britanicos, franceses e holandeses. Todos com a finalidade de “comerciar” com a Africa. Muitos comerciantes europeus ficavam surpresos ao chegarem à costa Africana e encontrar pequenos reinos altamente desenvolvidos e vivendo em paz. Vemos como os europeus trouxeram armas e pólvora, contribuindo enormemente para as guerras que se sucederam entre os pequenos reinados. Muito dos prisioneiros destas guerras eram vendidos como escravos.
Isto não quer dizer que esta era a única maneira de conseguí-los. Os europeus eram conhecidos por raptarem os nativos quando estes iam a seus navios para algum tipo de transação. Em determinada época era possível ver na Costa Africana (atual Gana) mais de 20 fortes com bandeiras destes países para o recebimento dos futuros escravos que permaneceriam acorrentados nos porões dos fortes até serem transportados como sardinhas em lata para o Novo Mundo.
Entretanto, não pense você que o relacionamento entre os europeus era amigável no solo africano, pelo contrário: houve muitas lutas entre eles para tentar monopolizar o tráfico.
A bordo do “Diligent” vemos o tratamento que os escravos recebiam. Ao chegarem ao navio homens e mulheres eram separados por uma divisória especialmente construida. Os homens eram colocados no porão acorrentados uns aos outros, enquanto as poucas mulheres eram colocadas em outra parte, porém não acorrentadas. O medo de um motim era frequente, por isto a vigilância constante por parte da tripulação.
A descrição do que acontecia aos africanos no porão do “Diligente” é de deixar qualquer um com um nó na garganta. A condição do porão era a pior possível. O espaço era limitado para o grande número de escravos e o calor insuportável. Acorrentados uns aos outros eles mal conseguiam mover-se. Se alguem tinha necessidade fisiológica, à noite era necessario arrastar consigo a pessoa a qual estava acorrentado causando tumulto nos que estavam dormindo. Como muitas vezes era impossível mover-se os africanos simplesmente faziam suas necessidades ali mesmo causando um fedor insuportável.
O banho dos escravos era escasso e dependendo das condições do tempo, somente uma vez por semana. A comida, de péssima qualidade, e água, eram racionadas ao máximo. Sob estas condições eram transportados para as Antilhas e tambem para as Américas. O padre católico Laurent de Luques resumiu assim as condições dos africanos dentro de um navio português no comércio mundial:” Os negros estavam no chão como animais entre sujeira e imundície. Alguns chorando de um lado, alguns chorando do outro. Havia alguns que choravam e lamentavam, outros gargalhavam. Resumindo, total confusão. O espaço no porão era tão restrito que era impossível para eles mudarem de lugar. O fedor era insuportável. Dormir era breve porque eles mal podiam fechar os olhos. Por causa do número de pessoas juntas era quase impossível para eles colocarem comida na boca, o pouco de comida que conseguiam comer era mal preparada. Eu nao sei se deveríamos caracterizar o navio como inferno ou purgatório”.
O padre Lucent decidiu caracterizar a travessia da África para o Novo Mundo como purgatório porque era uma condição temporária. Inferno aparentemente comecaria depois que navio atracasse no Brasil. Livros como este, dificilmente serão lidos ou debatidos pelos formadores de opinião no pais, ou por professores que ensinam história nas escolas públicas.
Quando leio que a Lei 10.639/03, sancionada pelo presidente Lula há mais de quatro anos, que obriga o ensino da História da África e dos afro-brasileiros, é atacada ferozmente fico pensando que mal tocamos na superfície da história em comum que ambos os Continentes compartilham. O mito da europeização na nossa historia segue firme e forte no país.
Servico
The Diligent
A Voyage through the Worlds of the Slave Trade
Robert Harms
Editora Basic Books. 466 paginas.

Edson Cadette