Pelo menos esta era a versão nos livros escolares dos anos 70. A falácia histórica, para mim, foi sepultada após a leitura do excelente livro “Princess Isabel of Brazil”, de Roderick J. Barman. O senhor Barman é professor e membro do Departamento de História da Universidade da Columbia Britânica, no Canadá.
O livro mostra como a Princesa Isabel jamais se identificou com a causa da abolição. Desde pequena ela ficou isolada no Palácio Imperial, alheia a tudo que acontecia na cidade do Rio de Janeiro e no país. Tutores particulares, que tinham muito mais em comum com a Europa do que com o Brasil, passavam oito horas diárias ensinando a futura princesa Francês, Alemão, Matemática, História (ênfase na História da Europa), Filosofia, etc. Na verdade, ela foi educada simplesmente para manter o “status quo” vigente. Sua principal função social como mulher era casar, ter filhos e manter algum futuro marido feliz.
Ao 18 anos o pai arranjou seu casamento com um europeu de uma importante família francesa de religião católica, o Conde D’Eu. Na época, D.Pedro II acreditava que nenhum brasileiro merecia a mão de sua filha. Sua ligação com o país era tão insignificante que após o casamento, Isabel e o marido passaram seis meses de lua de mel na Europa. Sua identificação com o velho Continente era tão grande que não houve nenhum “shock” cultural por sua parte nesta viagem.
Segundo o autor, a princesa sempre foi a favorita de seu pai. Entretanto, em nenhum momento ficamos sabendo de alguma discussão ou desentendimento entre pai e filha a respeito questão dos escravos e dos negros. Em suas correspondências com seus pais, depois de casada, nenhuma palavra e escrita sobre o assunto. A escravidão estava infiltrada em praticamente todas as áreas da sociedade nacional. É verdade que, quando a princesa casou, deu liberdade a uma de suas mucamas. Mas foi só.
Nem mesmo durante suas viagens pela Europa ela se interessou pelo assunto. Isto em uma época em que o Império britânico exercia grande pressão para o Brasil por fim ao tráfico. Finalmente, aos quase 40 anos, a princesa começou a se interessar pelo abolicionismo, isto por volta de 1884. Quatro anos mais tarde, ao assumir o comando do país em virtude de uma viagem do pai à Europa para tratar da saúde, assinou o documento que viria a ser conhecido como Lei Áurea. A escravidão estava extinta. O Brasil foi o último país no Novo Mundo a abolir o trabalho escravo. O mito de benemérita persiste até hoje.
Servico:
Princess Isabel of Brazil
Roderick J. Barman
Editora: SR Books. 291 paginas

LEITURA
Outro dia estive na ótima e aconchegante livraria Hue-Man, localizada no coração do Harlem, para uma palestra do professor Michael Eric Dyson, da Universidade de Georgetown. Ele estava na cidade para promover seu livro “April 4, 1968”. Quarenta anos atrás, nesta data, o pastor e líder do Movimento dos Direitos Civis, Martin Luther King Jr., foi assassinado em um Motel na cidade de Memphis, no Estado do Tennessee.
O professor Dyson, autor de mais de 15 livros sobre a cultura afro-americana e seu impacto na cultura dos EUA em geral, conversou por mais de uma hora com o público, que lotou as dependências da livraria. Segundo o senhor Dyson, MLK foi o divisor de águas no país. Para ele, a história norte-americana deveria ser conhecida como antes e depois do pastor. O professor que também é um fã ardente de Malcolm X, fez duras críticas ao líder muçulmano por este não ter ido ao “campo de batalha” (Sul dos EUA), onde o aparato do Estado era totalmente hostil a King e sua organização, preferindo ficar no Harlem e chamar Marting Luther King Jr. de “Negro sim Senhor”.
Para Dyson, a figura histórica do pastor pode ser comparada a dos pais fundadores dos EUA. Ele também afirma que, logo após seu aparecimento no cenário nacional, com apenas 26 anos, ao liderar o boicote contra a companhia municipal de ônibus, em Montgomery (Alabama), MLK passou a conviver com o fantasma da morte.
Seu ultimo sermão, chamado “I’ve Been to the Mountaintop”(Trad.livre: “Estive no Topo da Montanha”) feito um dia antes de seu assassinato, foi premonitório. Com a atmosfera altamente racista que permeava o sul do EUA, foi realmente um milagre o senhor King ter chegado aos 39 anos.
Servico:
Hue-Man Livraria & Café
2319 Frederick Douglas Blvd.
New York, NY 10027
Tel: 212 -665-7400
Fax: 212-665-1071

BARBÁRIE
Nada do que os donos do poder disserem irá amenizar o sofrimento das famílias dos três jovens negros brutalmente assassinados no Rio de Janeiro, com a cumplicidade (e participação) do Exército. O Estado brasileiro continua tratanto a população negra brasileira com total descaso. Esta recente barbaridade foi tão repugnante que foi preciso o Ministro da Defesa (Nelson Jobim) subir o morro para pedir desculpas e também tentar acalmar os ânimos dos moradores e das famílias dos jovens.
A imprensa, por sua vez, continua omitindo a etnia dos jovens assassinados, como se isso fôsse irrelevante. A ideologia de que não existe racismo no Brasil há tempos está desacreditada, mas a mídia insiste em não ver o óbvio ululante, ou seja, jovens morrem nas mãos do Estado porque são negros. As mazelas nas quais a vasta maioria dos negros se encontra, nada mais são do que o legado escravocrata e o contínuo racismo praticado pelo Estado brasileiro contra esta população. Me pergunto onde estão as “lideranças” dos chamados Movimentos Negros que não aparecem para protestar. Por que estas mesmas lideranças não vêm à público denunciar o que ocorre nas periferias e favelas brasileira diáriamente? Será que estão tão envolvidas com as promiscuidades do Estado e impregnadas pela ideologia da democracia racial que preferem esconder-se em seus gabinetes a repudiar esta falsa ideologia?
A Abolição da escravidão aconteceu há 120 anos, entretanto, mortes como a dos jovens no Rio de Janeiro mostram, mais uma vez, o quanto o negro não só está longe de sua plena liberdade, como também de ser respeitado como cidadão brasileiro.

Edson Cadette