O periódico “The New York Times” publicou uma excelente matéria sobre Timbuktu no ano passado (07/09/07) dedicando um longo artigo à cidade lendária e sua luta para preservar sua história.
Timbuktu foi fundada por nômades árabes como entreposto comercial no século XI, fazendo parte depois do grande Império Mali (1235-1610). Por séculos a cidade floresceu porque estava entre as grandes vias de acesso ao deserto do Saara, com rotas para as caravanas carregando sal, tecido, pimenta e outros tesouros do Norte, e o rio Niger que carregava escravos do resto da África.
No seu auge Timbuktu sediava a universidade conhecida pelo nome de Sankore com mais de 25 mil professores. Um exército de escribas com uma caligrafia excelente ganhava a vida copiando e traduzindo livros trazidos por viajantes de varias regiões do Continente Africano. Na época, famílias influentes retinham muitos destes livros em suas bibliotecas privadas.
Tudo isto colaborou para que Timbuktu se tornasse um grande centro de conhecimento intelectual de fama internacional. Astronomia, Botânica, Farmacologia, Geometria, Geografia, Química, Biologia e Leis, eram estudadas por peritos.
E pensar que eu fui um daqueles estudantes nas décadas de 70/80 que foi doutrinado por professores medíocres a acreditar que o Continente Africano não contribuiu em nada para a civilização humana. O livro Black Athena desmistifica toda mitologia de que a civilização humana simplesmente começou com os gregos.
Porém, no século XIV, invasores marroquinos impuseram novas leis na cidade e os novos soberanos eram hostis à comunidade intelectual. Estes últimos eram vistos como descontentes pelos novos soberanos. Com medo de perseguição muitos deixaram a cidade levando consigo seus manuscritos. As novas rotas do Oeste africano suplantaram em importância não só as velhas estradas do deserto, como também os rios comerciais, levando a cidade a um declínio do qual jamais conseguiria se recuperar.
Recentemente, com a ajuda de paises como a África do Sul, Espanha e os EUA (Ah, esses norte-americanos!) um novo interesse está surgindo em relação à cidade histórica. Um dos historiadores locais, o senhor Ismael Deade, que possui um vasto acervo de documentos datados do século XIV, está felicíssimo com esta atenção.
Segundo ele, cidades históricas raramente tem uma segunda oportunidade. Ele acredita que seus documentos ajudarão a mostrar ao mundo que a reputação de Timbuktu como centro intelectual da África não foi somente uma simples quimera.
CAFÉ
O artigo acima foi escrito em um aconchegante café no coração do Harlem chamado Settepani, localizado bem na esquina da rua 120 com a famosa avenida Malcolm X. Fiquei sabendo deste café outro dia ao ler no periódico “Te New York Times” sobre a transformação que vem acontecendo neste famoso bairro histórico há pelo menos 10 anos.
O artigo não falava especificamente do café, mas sim, da complexa relação entre os velhos afro-americanos que vivem neste bairro, mas se sentem traídos pela nova geração de moradores influentes que estão “invadindo” o Harlem.
Entrei e fui logo recebido por uma gentil garçonete que me mostrou o lugar para sentar. Pedi um café com sabor de avelã, e para comer pedi um sandwich de mussarela derretida com azeite de oliva, orégano e rúcula. Enquanto comia pude perceber os frequentadores. Eram jovens e bonitos. Em nenhum momento vi alguém com as calcas caídas, e com cara de mal falando uma gíria que ninguém consegue decifrar.
A velha guarda no Harlem reclama que durante o período difícil do bairro, ou seja, durante o período do racismo manifesto, da violência policial, dos distúrbios dos anos 60/70 e da epidemia do crack no final dos anos 80, muitos moradores ficaram (é verdade também que eles não tinham outra opção).
Hoje com os melhoramentos que estão acontecendo na área, e com a afluência de muitos jovens de varias etnias, a velha guarda se sente traída. Eles reclamam também que a nova geração pouco sabe sobre a história do bairro, seus heróis e os problemas enfrentados no passado. A verdade é que muitos perderam a oportunidade de adquirir uma propriedade no bairro quando esta lhe bateu às portas.
Ao caminhar da estação do Metrô, nas rua 125 até o Café, foi possível ver algumas pessoas da velha geração sentadas na escada aproveitando o sol e a temperatura alta que fazia. Tomei meu café tranqüilo ouvindo música clássica enquanto colocava no papel esta coluna.
Servico:
Settepani Bakery
196 Lenox Ave/Malcolm X Blvd. e 120th Street
Harlem, NY 10026
Tel:(917) 492-4806

DIGA ME COM QUEM ANDAS…
O senador Barack Obama que está à frente nas pesquisas de intenção de voto, e tem o maior numero de delegados no partido Democrata para conseguir a nomeação pelo partido, teve duas semanas turbulentas, por causa do pastor da igreja que ele freqüenta háa mais de 20 anos.
O furor que envolveu o senador aconteceu porque um vídeo do pastor Jeremiah A. Wright foi amplamente veiculado na net e também nas tvs propagando diatribes anti-EUA em um de seus sermões logo após os atentados do 11 de Setembro.
É verdade que muito do que foi veiculado (não o que ele disse sobre o 11 de Setembro) é plenamente discutido privadamente por muitos cidadãos afro-americanos. Entretanto, uma coisa deve ficar bem clara , leitor(a): os norte-americanos são altamente patriotas, como se sabe.
Eles aceitam criticas à sua sociedade, mas jamais aceitam anti-partriotismo.
Barack Obama, que já havia sido alertado pela sua equipe sobre sua associação com o senhor Wright, tentou levar este episódio em “banho maria” na esperança de que as coisas se acalmassem. Não foi possível. A imprensa conservadora não largava esta história. Para complicar mais ainda sua situação, sua esposa, Michelle Obama, no mês passado havia dito também que, pela primeira vez, estava orgulhosa de seu país.
Isto, para uma mulher que tem um diploma da prestigiosa universidade Harvard e ganha mais de US$100 mil dólares anuais.
Na semana passada, Barack foi até a Filadélfia (onde os pais fundadores ratificaram a Constituição) para um discurso sobre o tema racial no país. Seu discurso foi altamente elogiado, tanto por conservadores como por liberais. Falando de suas próprias experiências como filho de uma mãe branca, e de um pai negro, Barack disse que somente uma conversa honesta e franca(o que no Brasil nunca ocorreu) sobre o problema racial norte-americano, é que negros e brancos poderão ultrapassar estereótipos enraizados há muito tempo sobre ambas as etnias.
Ao que parece, depois de uma pequena queda nas intenções de voto, a candidatura Obama está estabilizada. Resta, portanto, saber se este discurso conseguirá convencer os eleitores independentes (e brancos) de que ele não é anti-patriota e ama este país tanto ou mais do que qualquer outro cidadão norte-americano.

Edson Cadette