Talvez tenha visto algum dos cartazes vermelho, preto e branco postados em alguma parede no centro de São Paulo convocando os jovens para mais um baile, ou tenha ido ver um show de algum cantor afro-americano se apresentando na cidade.
O fato é que pela primeira vez indo a estes bailes eu pude perceber a beleza dos afro-brasileiros. Foi tambem nesta época que ganhei um pouco de auto-estima. Até então não acreditava na minha própria beleza. Cresci com a idéia da associação negativa ao negro brasileiro, ao negro africano e a África. Tudo relacionado com negrigute era negativo. Crescer com idéias de beleza e valores brancos europeus não é nada fácil para qualquer afro-descendente no Brasil.
As músicas que tocavam nestes bailes raramente eram tocadas nas rádios FM de São Paulo.Roy Ayres, Tyrone Davis, Bar-Kays, One Way, Sky Valley, Kid Creole etc. Acredito que tenha sido aí a descoberta da minha consciência de cidadão afro-brasileiro. Foram nestes bailes que frequentei com certa assiduidade que comecei a perceber a divisão entre negros e brancos no país. Neste período já falava inglês, e sempre que tinha uma chance comprava a revista norte-americana “Ebony Man” e me perguntava porque no Brasil não havia uma revista de moda masculina direcionada à comunidade afro-brasileira.
Lembro-me tambem de ter conhecido um jovem afro-brasileiro que ensinou-me muito a respeito do problema racial. Fomos juntos a muitos destes bailes, e sempre que saíamos para pegar o ônibus de volta para casa conversávamos bastante sobre a nossa própria situação e os problemas que os afro-brasileiros enfrentavam, e certamente continuam enfrentando ainda hoje. Ele estava anos luz a minha frente em relação aos problemas enfrentados pelos afro-brasileiros. Eu ficava fascinado com seu conhecimento. Lembro-me da primeira vez que fui à sua casa e entrei em seu quarto – a quantidade de livros e jornais espalhados pelo chão me deixou surpreso. Devo a ele muito dos meus conhecimentos e a contínua busca do saber. Li outro dia na Folha que mais de 1 milhao de brasileiros se auto-declararam afro-brasileiros recentemente. Isto causou enorme supresa a muita gente, inclusive, levando alguns dos nossos neo-racistas a declarar que isto veio a acontecer somente porque eles estão interessados em se beneficiarem do programa público de ações afirmativas. Nada poderia ser mais errôneo. A comunidade afro-brasileira está finalmente colocando para trás o estigma da sua cor e assumindo sem medo de ofender a ninguém sua propria identidade racial, o que, por si só no Brasil, já é um sinal de maturidade.
DESPORTOS
Grant Hill tem 34 anos de idade. Ele é bacharel em história pela prestigiosa Universidade Duke localizada na Carolina do Norte (Sul). Em 1995, começou a jogar basquete profissionalmente pela equipe do “Detroit Piston” de Michigan (meio oeste). Após 12 temporadas na NBA (Associação Nacional de Basquete) ele gostaria de ser lembrado tambem por suas ações fora das quadras. O senhor Hil fez trabalho beneficente para a organização “Habitat for Humanity” (Habitação para Humanidade) que o ajudou a construir casas populares para as familias dos desamparados. Também trabalhou como voluntário para a organização “Prevent Child Abuse America”.(Prevenção contra o abuso de criança na América).
Desde os tempos da universidade ele sempre foi atraído pelas artes. Na época, enquanto seus amigos colocavam posters de cervejas ou mulheres semi-nuas nas paredes de seus dormitórios, o jovem Hill comprou a preço de banana um poster do artista afro-americano Ernie Barnes chamada “Duke’s Fastbreak”, uma pintura de 1986 mostrando o time de basquete da Universidade Duke para colocar na parede de seu quarto. Crescendo na Virginia (Sul) ele sempre esteve cercado por pinturas e esculturas que pertenciam a seus pais – o ex-jogador de futebol norte-americano da equipe do Dallas Cowboy Calvin Hill e sua mãe Janet Hill.
Depois de entrar para a NBA, começou sua coleção de artes afro-americana. Entre seus artistas favoritos estão: Bearden, que capturou muito bem nas suas obras a alegria, o entusiasmo e a dor dos afro-americanos no século XIX, e o artista Catletts pela sua maneira de prestar homenagem às mulheres afro-americanas.
Seu objetivo é levar o maior número de pessoas aos museus para ver a arte afro-americana. Ele e sua esposa, a cantora Tania, apóiam visitas aos museus feitas por escolas públicas para dar às criancas uma oportunidade de conhecer um pouco melhor a arte afro-americana.
Grant Hill era uma das grandes promessas da NBA dos anos 90. Infelizmente, por causa de várias contusões e operações, a promessa de liderar uma nova geração de atletas não foi cumprida.
Entretanto, uma coisa é certa: o legado do senhor Hill certamente seguirá muitos anos depois dele aposentar-se das quadras de basquete da NBA.
13 de Outubro de 1977
Certas datas são marcantes na vida das pessoas. Eu, por exemplo, me lembro muito bem deste dia. A atmosfera na cidade de São Paulo era de euforia, e ao mesmo tempo de apreensão. A grande decisão do Campeonato Paulista de 1977 estava marcada para as 9 horas da noite no Estádio do Morumbi, entre Corinthians X Ponte Preta. A equipe de Campinas contava com jogadores de alto nivel, o goleiro Carlos, o zagueiro Oscar, o meio campista Dicá, e o atacante Rui Rey.
A equipe corinthiana tinha em Palhinha sua estrela máxima e no 0lateral direito Zé Maria sua raça. O Corinthians não ganhava um título há 23 anos. O técnico Osvaldo Brandão era o mesmo que havia dirigido a equipe na conquista do título de 1954 no IV centenário da cidade de São Paulo. Trê anos antes, em 1974, a equipe foi vice campeã paulista contra seu arqui-inimigo, o Palmeiras, perdendo aquela partida por 1X0 e mandando seu melhor jogador, Revelino, mostrar sua categoria em outros gramados.
Podia-se sentir a vibração da cidade por causa deste grande jogo. Diziam as más línguas que quando o Corinthians ganhava a produção nas fábricas aumentava. Os torcedores das outras equipes zombavam dos corinthianos dizendo que estes já não possuíam mais impressões digitais por esfregarem as mãos a cada começo de mais um campeonato estadual na esperança de ganhar o tão sonhado título.
Os corinthianos estavam aflitos porque um Domingo antes, a festa preparada para a comemoração do título foi estragada pelos jogadores Dicá e Rui Rey. Entretanto, este 13 de Outubro iria ser diferente. O Corinthians, sob a direção do folclórico presidente Vicente Mateus, não iria deixar escapar a oportunidade.
Tive a felicidade de presenciar este grande momento na história do Timão no estádio naquela noite. Tive tambem a felicidade de entrar no vestiário corinthiano depois do jogo e conseguir o autógrafo de todos os jogadores que participaram daquela decisão em meio a toda aquela confusão e euforia. Todos os participantes daquela memorável noite jamais imaginariam que 30 anos depois às vésperas de completar um centenário, o Sport Club Corinthians Paulista estaria sob a direção de pessoas tão corruptas e ineptas. Havia um certo preconceito e animosidade contra a pessoa do senhor Vicente Mateus, entretanto, uma coisa sempre foi clara: ele jamais tratou esta agremiação como se fôsse um clube de várzea.
Hoje em dia o profissionalismo gerencial do Corinthians está igual a agua que corre no rio que fica bem atras do clube.

Edson Cadette