A novidade desta vez está em que pessoas importantes de diversos segmentos da comunidade afro-brasileira opinaram sobre suas experiências com relação ao racismo latente e também manifesto.
O último especial publicado pelo jornal aconteceu há 13 anos, ou seja, se Obama tivesse perdido a eleição, certamente o de agora não teria sido publicado.
Foi interessante ler também no Caderno que a comunidade afro-brasileira está perdendo o medo de ofender os donos do poder com suas críticas. E o que é mais importante, ela está finalmente desmistificando a teoria da democracia racial brasileira. Mesmo fazendo parte de uma cultura geral, os negros brasileiros têm sua própria história para contar, o que até então era difícil para a sociedade em geral aceitar, ou seja: no caso do negro brasileiro, seu passado como escravo.
Isto não quer dizer que o negro deva ter vergonha, ou deva esconder este fato histórico. Um dos grandes desafios da comunidade afro-brasileira na atualidade é formar historiadores para tentar resgatar melhor esta história. O outro é fazer com que o país reconheça seu racismo. Infelizmente, ainda há no país uma idéia disseminada de que este problema irá desaparecer com o tempo.
São incontáveis os problemas raciais enfrentados quase que diariamente pela comunidade afro-brasielira, seja em forma sutil do tipo “precisa-se de pessoas de boa aparência”, ou mais explícitos como as truculentas abordagens policiais.
Segundo a reportagem houve avanços, eu diria avanços tímidos, entretanto, em um pais onde a população negra representa mais de 80 milhões de pessoas, ainda há muito o que fazer para que se chegue a igualdade de oportunidades.
Mesmo com este super atrasado debate sobre as políticas publicas direcionadas pela primeira vez a esta comunidade, o triste é saber que ainda há no país cidadãos afro- brasileiros que, por causa de um certo “sucesso”, acreditam nunca terem sofrido racismo.
Veja o caso do senhor José Carlos Bueno, diretor de recursos humanos do banco Bradesco. Ele afirma que a única vez que enfrentou algum problema racial foi em uma pelada de futebol, quando fizeram alguma referência à sua cor. Para ele, o fato ocorrido em um campo de várzea não significa racismo. Será então que os torcedores do Juventude que humilharam o jogador do Corinthians Felipe, recentemente, são racistas somente nos Estádios? Não acredito.
O assunto racismo sempre foi tabu na sociedade brasileira.Tanto negros quanto brancos praticamente aceitaram seus papéis sem muito questionamento, e com isto, ajudaram também a manter também o mito da democracia racial. Honestamente falando, o negro sempre levou a pior neste arranjo.
O que vem acontecendo nestes últimos sete ou oito anos é que a comunidade afro- brasileira finalmente deixou para trás sua passividade, ou seja, Samba, Futebol e Carnaval, este famoso triunvirato que, por décadas, serviu para a alienar a população negra perdeu muito de sua força.
Há uma enorme urgência nesta comunidade que sempre foi tratada com descaso, de reivindicar seus direitos, e com isto participar mais ativamente dos benefícios do sistema capitalista. Mesmo que seja do capitalismo selvagem brasileiro.

Edson Cadette