Porém, a visita tinha objetivos diferentes. Estava na cidade para acompanhar as primárias que aconteciam no Estado. Visitei um lugar completamente diferente daquilo que havia visto antes. Um lugar que, ao que tudo indica, está pagando um alto preço, não só pelo desaparecimento de trabalho na área siderúrgica e manufatureira, como também pela “fuga” de residentes brancos, levando consigo todo o comércio que sustentavam. Um enorme vácuo foi deixado e neste espaço foram chegando os negros e latinos sem o apoio do comércio legal.
Hoje, o que encontramos no Norte de Filadélfia está mais parecido com uma cidade fantasma. Ruas sujas, casas pichadas, ou que pegaram fogo e estão abandonadas, jovens fumando maconha em plena tarde e carros esportivos dirigidos por jovens tocando músicas rap a todo volume.
Este foi o cenário que vi enquanto visitava esta parte da cidade. Diferentemente de Nova York, que nestes últimos 15 anos passou por uma revitalização qualitativa enorme, a Filadélfia segue o rumo oposto, ou seja, investimentos privados não foram feitos para atrair novos negócios e jovens profissionais para estas áreas abandonadas. Quem quer que seja o próximo presidente dos EUA terá um enorme trabalho para revitalizar regiões como estas em vários Estados do país. Os anos 90 foram ótimos para os norte-americanos com a globalização; trouxeram fartura de oportunidades para milhões de cidadãos. Infelizmente, este “boom” econômico teve curta duração. A economia norte-americana está pagando um alto preço pelos excessos de consumo. Não há fórmulas mágicas para resolver problemas sérios que este país enfrenta (déficit governamental, implosão hipotecária, desemprego, retração dos investimentos, guerra do Iraque, etc).
Os EUA estão com a corda no pescoço. Sua liderança mundial está correndo sérios riscos. A eleição de Novembro será um divisor de águas. Barack Obama tem tudo para mudar o “modus operandi” de se fazer política por aqui. Resta saber se o eleitorado norte-americano está dispoto a lhe dar esta oportunidade.
OBAMETRO
Barack Obama foi rotulado de elitista pela senadora Hillary Clinton, após ter dito em um comício em São Francisco que os cidadãos da Pensylvania, com raiva da situação econômica de seu Estado, se agarram à religião e armas, e não votam em quem não possui suas características físicas. Para uma pessoa que nos últimos 7 anos junto a seu esposo ganhou nada menos do que 109 milhões de dólares, e pertence a elite de 1% mais rica do país, Hillary não é aquilo que poderíamos chamar de uma (ex)candidata à presidência que se identifique com a massa de assalariados, não é mesmo?
*Julie Nixon Eisenhower, filha do ex-presidente Richard Nixon e casada com o neto do ex-presidente Dwight David Eisenower, apóia discretamente Barack Obama. Ela doou US$ 2.300.00 para sua campanha.
*A campanha do senador gastou 31 milhões de dólares em março preparando-se para as primárias da Pensylvania. Deste total, 11 milhões foram gastos em propaganda televisiva.
*Em um ano e meio, a campanha do Senador Barack Obama arrecadou nada menos do que 300 milhões de dólares.
O PALCO
Estamos no salão da prestigiosa Universidade Howard. Uma enorme bandeira pendurada simboliza a magnitude dos EUA e no seu topo, podemos observar o símbolo desta Universidade criada em 1866 para a educação teológica de padres afro-americanos. Um de seus mais respeitados ex-alunos acaba de entrar em cena para contar-nos um pouco de sua história. Seu nome é Thurgood Marshall (maravilhosamente interpretado pelo grande ator Laurence Fishburne). O senhor Marshall é nacionalmente reconhecido por causa de sua luta contra o sistema de segregação praticado principalmente no Sul e também por ter sido o primeiro afro-americano a sentar-se na Corte Suprema. O segundo é o senhor Clarence Thomas.
Ele estará para sempre associado ao famoso caso “Brown X Board of Education of Topeka” (Brown x Departmento de Educação da cidade de Topeka) onde a Suprema Corte aboliu a lei estadual que permitia a contrução de escolas separadas para alunos negros e brancos. O famoso “separados mais iguais”. Morando em Washington um de seus sonhos era estudar Direito na Universidade de Maryland por causa da reputação na área juridicial, entretanto, este sonho não foi realizado porque a Universidade não admitia negros. Uma de suas vitórias como advogado foi acabar com esta política racista.
Assistir a este trabalho solo estrelando Laurence Fishburne como o venerável advogado foi como estar sendado em uma sala de aula com um grande professor de história. Deixei o teatro conhecendo um pouco mais sobre este extraordinário ser humano que, mesmo sob as mais adversas condições, jamais desistiu de seus sonhos e suas ambições.
Esta peça foi escrita pelo escritor, produtor, diretor de televisão e filme, e agora dramaturgo George Stevens jr. e dirigida por Leonard Foglia.
Servico:
Thurgood
Booth Theater
222 West 45th Street
New York, NY
(212) 239-6200

Edson Cadette