Se, por um lado, temos os europeus com uma sede insaciável de escravos africanos para suas plantações e Minas no novo mundo, por outro, temos um Continente disposto (com poucas exceções) a fornecer esta mão de obra ao preço certo.
Ao som dos vibrantes tambores tocando músicas Yoruba, vemos um jovem príncipe andando junto a seus amigos. O jovem Oroonoko acaba de chegar de uma missão, e está prestes a se casar com uma linda princesa, filha do seu mentor no campo de batalha. O nome dela é Imoinda. Entretanto, no dia seu casamento, ao tentar lutar contra o rei corrupto que quer arrancar a noiva de seus braços, Oroonoko é enganado e despachado como escravo para uma plantação no Caribe (Suriname) pelo lacaio pessoal do rei.
Ao chegar a plantação reencontra sua amada, a qual acreditava morta. O destino dos jovens amantes se mistura com a rebelião que está prestes a acontecer resultando em um trágico final de crime passional .
Esta peça ainda mostra a horripilante viagem dos escravos nos navios negreiro. Ao desembarcarem no porto de destino, eram amarrados nus em estacas para inspeção pelos escravocratas locais antes de serem distribuídos entre as várias plantações de cana na região.
Histórias como a do jovem Oroonoko provavelmente ocorreram aos milhares durante o período do tráfico. A peça foi escrita em 1688 por um escravo chamado Aphra Behn. No Brasil, onde mais de 4 milhões de escravos desembarcaram, ainda hoje pouco sabemos dos nossos ancestrais africanos e suas sociedades. O negro brasileiro continua em um grande vácuo histórico sobre sua identidade cultural. Isto tambem é uma grande tragédia.
LIVRESCO
O carismático ativista afro-americano Malcolm X amedrontou os EUA com sua retórica racial durante as turbulentas décadas de 50/60. Ele ficou estigmatizado por uma foto na janela de sua casa, no bairro do “Queens”, segurando um rifle onde dizia: “By any means necessary” (trad. Livre: De qualquer maneira necessária). Membros do grupo dos muçulmanos negros, do qual havia se desligado, haviam bombardeado sua casa com coquetel Molotov quase matando toda sua família. Malcolm estava de vigia para evitar um outro atentado.
Huey P. Newton e Bobby Seale fundaram o partido Pantera Negra (Black Panther) no final dos anos 60. O partido foi criado um ano após a morte de Malcolm. Usando a retórica anti-brancos de Malcolm X, e sua famosa foto como símbolo de resistência, Huey e seus seguidores logo azedaram o diálogo sobre os direitos civis dos afro-americanos no país que havia culminado com as leis dos Direitos Civis assinada em 1965.
Após escapar de atentados contra sua vida, de tiroteios com a polícia da Califórnia , e tambem da prisão, Newton foi morto em 1989, com três tiros na cabeça ao se recusar a pagar um traficante de drogas por uma dose de crack que havia consumido.
O excelente livro “Will you die with Me” de Flores A. Forbes disseca com muitos detalhes como era realmente a vida de um pantera e os objetivos do partido. Forbes entrou para a organização com apenas 16 anos. Por mais de 10 anos fez parte do partido chegando até o posto de segurança. Engolindo a ideologia racista do partido, Forbes seguia as ordens, por mais absurdas que elas pudessem parecer. Em Outubro de 1977, depois de um atentado sem sucesso à vida de uma testemunha que iria acusar Newton de assassinato, Forbes fugiu para Chicago com dois amigos dizendo adeus para seus dias como membro dos Panteras Negras.
Eventualmente, Forbes se entregou à policia ficando 8 anos preso. O livro e a confissão é, ao mesmo tempo, a redenção de um homem revoltado que quando jovem seguiu a ideologia de um charlatão que fez muitos afro-americanos, e muitos liberais brancos acreditarem que a luta armada contra o sistema racista dos EUA era o único caminho.
Diferentemente do grande Malcolm X, que continua sendo celebrado como um dos grandes ativistas da luta pela igualdade entre negros e brancos, Newton e os Panteras Negras ficarão para sempre marcados como um grupo de rufiões relegados à rabeira da história.
Serviço
Will You Die With Me? : My Life And The Black Panther Party.
Flores A. Forbes
Editora: Simon & Schuster. 320 paginas.
PELÍCULA
“Cidade dos Homens” (2007) é um bom filme. Entretanto, acredito que seja difícil para um cidadão brasileiro descobrir algo novo nesta história, que tem como pano de fundo a guerra nos morros cariocas e a amizade entre dois amigos. O filme foi feito pelos mesmos produtores de “Cidade de Deus”, então sabemos que violência e morte farão parte da história.
Acerola e Laranjinha são dois amigos de infância que estão prestes a completar 18 anos de idade. Enquanto o primeiro se vê envolto com a paternidade e a responsabilidade decorrente de ter um filho, o segundo busca encontrar seu progenitor e, quem sabe, receber também o seu sobrenome.
Neste meio tempo ,vemos duas gangues disputando um dos morros cariocas. Fui ver o filme com alguns amigos. Encerrada a sessão, um deles, que foi criado na Inglaterra, ficou completamente indignado com a situação dos favelados. Fui perguntado como é possível pessoas viverem naquelas condições, e o porque não haver uma maior intervenção do Estado para tentar melhorar a situação de caos em que vivem aqueles cidadãos.
Tentei explicar o inexplicável. Tentei dizer que o morro sempre existiu e que as pessoas mais pobres foram sendo empurradas para estas áreas por causa da especulação imobiliária; que muitos vêem de famílias pobres, muitos não tem escolaridade, etc. Entretanto, o que realmente o deixou boquiaberto foi ver tantos afro-brasileiros concentrados em áreas tão insalubres.
Quando tentei explicar sobre o racismo no Brasil, ele colocou a mão na minha frente e disse: “mas eu sempre pensei que o racismo fosse inexistente no Brasil. Naquele momento percebi que a ideologia das classes dominantes estava funcionando. Ou seja, a exportação da ideologia da democracia racial brasileira. Os morros cariocas são as provas contundentes de que a mentira tem perna curta.
Servico:
Cidade dos Homens
Direcao: Paulo Morelli
Duracao: 2 horas
Estrelando: Douglas Silva e Darlan Cunha

Edson Cadette