Contudo, a ordem social aparentemente não é um problema para ele. As coisas começam a ficar mais complicadas quando a namorada vai para a universidade e acaba se casando com outro homem e ele é convocado para servir na guerra do Vietnã.
Celphus se recusa a ir, alegando motivo religioso usando frases do tipo: “ame seu vizinho como a si mesmo” e “não matarás”, que aprendeu ainda jovem quando frequentava a Igreja Batista. Considerado um traidor, é preso e sai somente oito anos depois. Nesse meio tempo a guerra termina.
As coisas ficam ainda mais complicadas para Celphus depois que sai da prisão. Por ser considerado um traidor não consegue trabalho. Vagando de um lugar ao outro, finalmente arruma um bico de carregador. Sonhando com sua antiga vida no campo e com a namorada perdida, entra num emaranhado de situações, nas quais álcool barato, drogas e mulheres fáceis estão à disposição, equanto segue recebendo seu cheque semanal, é, claro!
Após ser despedido por causa dos constantes atrasos e embriaguez, ele também acaba perdendo a amante. Sem trabalho fixo e sem o respaldo de uma família, Celphus vaga pela cidade meio bêbado, meio drogado tentando conseguir qualquer tipo de trabalho em troca de alguns dólares para sutentar seus vícios e pagar o aluguel.
Celphus chega até mesmo a varrer o chão de um bar em troca de um copo de whisky barato. Sua trajetória começa melhorar somente quando recebe uma carta dizendo que estava novamente de posse de sua antiga propriedade.
Ao retornar a sua cidade natal, percebe o quanto tudo havia mudado. A segregação racial estava acabada, alguns de seus amigos estavam mortos, e sua propriedade precisando de reparos urgentes. Um dia, enquanto contemplava a paisagem e lembrava os tempos antigos, a antiga namorada bate à porta e lhe explica que foi ela quem comprou a antiga propriedade e lhe deu como presente.
Como se os anos não tivessem passado, e eles não tivessem seguido caminhos completamente diferentes, os dois se abraçam na esperança de terem encontrado o que estava faltando em suas vidas.
A peça “Home” (Lar) do dramaturgo Sam-Art Williams foi, primeiro, apresentada aqui em Manhattan em 1981, pela Companhia de Teatro Negro. Ela também foi nomeada para receber o prêmio de melhor trabalho teatral. Na sua versão original, o papel do protagonista foi encenado pelo ator Samuel L. Jackson.
Em 2008, devo ter assistido a umas cinco ou seis peças teatrais contando a experiência da comunidade afroamericana. Foram histórias que ilustraram esperança, sonho, sofrimento, frustrações e, acima de tudo, histórias com visões diversas da comunidade.
É importante notar que são historias como estas que dão ao resto do país uma idéia da cultura afroamericana fora dos estereótipos negativos da musica rap. Ao contrário da cultura brasileira que quer tornar a todos como iguais, mesmo onde a diferença seria mais benéfica para o país.
O Brasil ganharia muito, se conhecesse as lutas, os sonhos, frustrações, esperanças e, até mesmo, a raiva sentida pelo cidadão negro por causa de sua condição de inferioridade em um país que se diz racialmente democrático.
Até quando a panela de pressão da situação socioeconômica do afro brasileiro continuará tampada antes de explodir na cara do país é de difícil previsão. Mas para que estas histórias aflorem, o país primeiro precisa reconhecer que o racismo é um problema sério, mas também dar condições para que apareçam, não somente jogadores de futebol, mas dramaturgos, escritores, pintores etc. afro brasileiros para contarem suas próprias histórias.
Enquanto isto não acontecer, a comunidade negra no Brasil ficará sujeita a ter sua história contada e interpretrada por quem tem pouco ou nada a ver com ela.

Edson Cadette