Estamos em 1979. O local: um bairro da periferia na Filadélfia. O jovem Zooman (interpretado pelo ótimo, Amari Cheatom), caminha com aquele gingado típico dos jovens que se acham o máximo ou que pensam que estão abafando.
Costas meio curvadas, calça “baggy” jeans, não no meio da bunda com a cueca aparecendo como hoje em dia, o boné virado e, é lógico, um tênis “All Star” (Eu também fui fissurado por um par deste tênis na minha juventude).
Para completar o quadro, anda com um enorme rádio grudado no ouvido escutando a música “Rapper’s Delight”. Para os noviços no pedaço, a música deu inicio ao que hoje é conhecido como movimento Hip Hop. A diferença é que, naquele tempo, os “rappers” não usavam palavrões, nem tampouco humilhavam as mulheres nas letras de suas músicas.
As primeiras palavras misturadas aos palavrões que saem da boca de Zooman quando entra em cena, nos dão uma idéia clara das dificuldades em crescer num ambiente urbano decadente. O que impera entre os jovens neste meio ambiente é sempre a força bruta. “É isso aí, eu carrego comigo uma faca e também um revólver”. A faca usei outro dia, na plataforma do Metrô, o coroa só sentiu que o sangue estava derramando quando caiu na plataforma. O revólver foi usado mais recentemente. Acabei de matar alguém”, ele diz, como quem estivesse falando a coisa mais normal do mundo. “Acho que era uma menina”.
A peça, escrita em 1980 pelo dramaturgo Charles Fuller – o mesmo que escreveu “A História de um Soldado”, que virou filme, em 1984, estrelado pelo novato Denzel Washington – é um “tour de force”. Sentimos na pele a angústia da mãe (Rosalyn Coleman), que se acha culpada porque mandou sua filha sentar na sacada da casa por causa de um pequeno incidente.
Observamos também sua histeria, até então contida, explodindo com toda força, ao chegar em casa após o enterro da filha, na frente do filho (Jamal Mallory-McCree), que tentando escapar a atmosfera claustrofóbica da casa resolve também ir sentar-se na sacada.
Enquanto isso, o marido (Evan Parke), um ex-lutador de boxe, e agora motorista de ônibus, tenta não só manter a calma como também evitar que sua esposa enlouqueça por causa do sentimento de culpa. Ele também tem que lidar com o seu tio (Ron Canadá), que pensa em vingança e quer ir à rua junto com ele caçar o assassino.
Entretanto, a total falta de solidariedade de seus vizinhos que, simplesmente, se fecham em seus mundos com medo de alguma retaliação por parte do deliquente, faz com que ele se revolte e coloque em frente a sua casa uma placa com os dizeres: “Os assassinos da minha filha estão soltos por causa do silêncio dos meus vizinhos”.
A maneira como o senhor Fuller mostra neste trabalho a dura realidade e também a complexa situação de muitas famílias afro-americanas, presas entre o desespero e a violência manifesta, é admirável. Além do mais, é óbvio que ele considera os fatores econômicos e culturais que, certamente, contribuem para a alienação coletiva e também para o aparecimento de delinquentes como Zooman. Estamos diante de um assassino, mas no fundo, sabemos que ele não passa de um menino.
O Rosto das mulheres do Congo
No Verão de 2000, a dramaturga Lynn Nottage, junto com seu esposo, o diretor Tony Gerber e a diretora Kate Whoriskey, voaram até Uganda para procurarem juntos o sonho que compartilhavam de criar um peça que fosse centrada na vida de mulheres e garotas que se encontravam no centro do devastador conflito armado na República Democrática do Congo (RDC).
Durante a viagem, eles encontraram e entrevistaram 15 mulheres refugiadas do Congo e também do Sudão. As histórias destas e muitas outras mulheres refugiadas, todas vitimas de estupro e tortura nas mãos das força armadas, são de cortar o coração de qualquer um.
Suas histórias literalmente me deixaram sem fôlego diz a senhora Nottage. Uma delas, ao ser perguntada pela dramaturga onde encontrara forças para continuar, simplesmente, respondeu: “devemos viver nossas vidas”.
PS – A peça escrita pela senhora Nottage se chama “Ruined” (Arruinada) e está em cartaz há mais de cinco meses aqui em Manhattan. Ela será resenhada por este escriba num futuro artigo.
Somente em Nova York
Em 2008, foram 10 milhões. Isto mesmo leitor (a). Este foi o número de turistas estrangeiros que a cidade recebeu o ano passado. Não falando, é claro, dos 37 milhões de turistas locais que também apareceram por aqui. Isto em meio a uma das maiores recessões que este país vem enfrentando desde 2007.
É claro que o dólar barato tem ajudado bastante nestes números. Esta massa de pessoas deixou nos cofres da cidade a bagatela de US$ 30 bilhões. Ouviu isto, senhor Gilberto Kassab e Cia?
O prefeito da cidade, o senhor Michael Blomberg, que está tentando reeleger-se pela terceira vez, não acredita que este número será ultrapassado em 2009. Porém, está confiante de que a cidade seguirá sendo uma grande atração para turistas ao redor do mundo.
O escritório de Marketing & Turismo abriu representações em sete cidades. Entre elas estão, Toronto, Moscou e Mumbai (não li nada sobre alguma cidade brasileira). Recentemente, numa entrevista coletiva no famoso ring de patinação do “Rockfeller Center”, o prefeito agradeceu imensamente a todos os turistas que tem contribuindo com suas divisas durante este difícil momento econômico dizendo: “Nós amamos vocês, agora, por favor, podem ir e gastem bastante dinheiro na cidade”, foi como concluiu sua fala.

Edson Cadette