O “crack” é uma forma altamente aditiva da cocaína, e bastante popular por causa de sua alta intensidade e baixo preço. Pequenas doses da cocaína podem ser misturadas com diferentes produtos químicos para um “barato” maior. Na época da sua aparição, o presidente norte americano era o senhor Ronald Reagan. Um dos pilares da sua administração era a luta contra as drogas que invadiam o país, vindas principalmente da Colômbia. Em 1990, o prefeito de Washington, Marion Barry, ficou famoso mundialmente, não por suas credenciais como político, mas porque foi filmado em um hotel usando “crack” com uma prostituta. Sua imagem usando a droga apareceu em todo o mundo.
Na época, duras sentenças foram impostas aos drogados. Na sua grande maioria, os usuários eram afro-americanos pobres. Em contrapartida, os usuários da cocaína, em sua grande maioria brancos da classe média, eram sentenciados com penas mais leves pelas mesmas ofensas. A percepção era de que o “crack” era muito mais devastador do que o pó da cocaína.
Vinte anos depois do aparecimento do “crack”, um painel de juristas de uma agência governamental que apresenta diretrizes para as sentenças nas prisões federais, aprovou por unanimidade a aplicação de penas mais leves para crimes relacionados com o “crack”. Estas novas diretrizes serão aplicadas retroativamente em muitos casos. As estatísticas mostram que 85% dos prisioneiros federais presos por envolvimento com o “crack” são afro-americanos.
O senador democrata pelo estado de Massachussetts, Edward M. Kennedy, um dos lutadores contra os diferentes tipos de sentenças dado aos usuários do “crack”, aprovou as novas diretrizes. Uma das beneficiárias pela medida poderá ser a senhora Merika Johnson, que foi sentenciada por distribuir pequenas quantidades da droga na Filadélfia. Ela está presa há mais de uma década.
Isto me fez lembrar as prisões brasileiras, onde a vasta maioria que compõe a população carcerária no país e composta por afro-brasileiros. É claro que falar em disparidade na aplicação das leis entre brancos e negros no Brasil, é mexer em vespeiro que os defensores do mito da democracia racial no país querem evitar, assim como o Conde Drácula evita o raiar do dia. Afinal, o mito precisa continuar vivo na psiquê do país. Mesmo que para isto os afro-brasileiros continuem sendo tratados como cidadãos de segunda classe.
DESPUDORADO
“If I did…” (Se eu cometi…) é o título de um livro sobre o assassinato de duas pessoas no começo da década de 90, aqui nos EUA. Foi foi escrito pelo principal suspeito do crime, o cidadão afro-americano Orenthal James Simpson. O senhor Simpson foi um famoso jogador de futebol norte-americano (aquele jogo jogado com as mãos) na década de 60/70, e foi também garoto propaganda de várias empresas. Sua popularidade era tão grande na época que ele foi convidado a participar da série de filmes “Corra que a Policia vem Ai”. Simpson acabou absolvido da acusação depois de um longo julgamento.
Para quem não se lembra deste caso, é a historia do assassinato de sua ex-mulher e de um amigo dela. O crime foi cometido na luxuosa mansão do casal num bairro de elite em Los Angeles(Oeste). A cena do senhor O. J. (como ele é conhecido aqui) sendo perseguido pela polícia em uma Pick-Up branca foi transmitida ao vivo para todo país. Nunca descobriram o assassino, e O. J. gastou uma fortuna com advogados para livrá-lo da prisão.
Este caso “paralisou” os EUA por mais de seis meses, e mostrou o quanto o país ainda estava dividido entre brancos e negros. Quando a sentença foi anunciada, viam-se negros pulando de alegria pela absolvição do senhor Simpson, enquanto os brancos resignados, acreditavam que um réu culpado havia escapado da prisão.
Só quem tem um profundo conhecimento das relações raciais neste país entendeu o porque desta diferença. É claro que muitos negros acreditavam na culpabilidade de O. J., mas eles estavam felizes porque um cidadão afro-americano, e casado com uma mulher branca, havia ludibriado o sistema penal do país, que muitas vezes colocava em liberdade homens brancos supostamente culpados, mas que eram absolvidos por causa de seu grande poder aquisitivo.
Ele se encontrava em total ostracismo por aqui até ser contactado por uma emissora de televisão para uma entrevista sobre o lançamento do livro, onde aparentemente conta como, se tivesse cometido o crime, o modo como o teria feito. Após uma enxurrada de telefonemas, e-mails, cartas e protestos, a emissora cancelou a entrevista e a editora Harper Collins cancelou o lançamento do livro, que pode ser adquirido pela Internet.
Recentemente, o senhor Simpson foi acusado de roubar memorabilias esportivas em um hotel em Las Vegas (Oeste). Isto poderá causar-lhe uma pena de prisão para o resto da vida. O. J. Simpson não deveria ter saído do buraco que o manteve escondido nestes últimos 13 anos.
TELENOVELA
Se a intenção do autor da telenovela Duas Caras, Agnaldo Silva, era fazer uma cena engraçada entre a empregada afro-brasileira Sabrina (Cris Vianna) e o filho do seu patrão, o Barretinho(Dudu Azevedo), o tiro certamente saiu pela culatra. No capítulo que foi ao ar no dia 11.10.07 observamos que certos traços culturais brasileiros ainda estão bastante enraizados na psiquê do país. O capítulo em questão mostra a empregada indo até o quarto do patrão para acordá-lo. Pergunto-me o porque dela não bater a porta para avisar-lhe que estava na hora de levantar.
A interação entre os dois personagens foi um exemplo crasso do desrespeito da elite do país em relação aos seus subalternos. A empregada não só entrou no quarto do jovem patrão, como também foi assediada sexualmente. Provavelmente ele acredita que, pelo fato de ser branco e filho do patrão, a empregada estaria feliz em satisfazer sua libido sexual. Fica implícito também nesta cena, a velha idéia do ideal branco de beleza. Pelo menos, é isto o que pensa o jovem patrão ao assediar a empregada. Ele está tão seguro de si que não acredita na rejeição por parte dela.
Fico imaginando nas casas, nos escritórios, nos bares, nos clubes, nas escolas etc., enfim, em todas as áreas da sociedade as pessoas falando desta cena, e a achando muito engraçada. Eu sinceramente gostaria de perguntar ao autor onde está a graça.
Ao terminar a cena me veio à mente a imagem da escrava a disposição do sinhozinho para satisfazer, não somente o seu apetite sexual, como também o dos seus filhos. Desde o aparecimento da telenovela na televisão brasileira, os atores negros sempre tiveram que mostrar seu talento primeiro entrando pela porta da cozinha. É triste saber que, em pleno século XXI, muitos deles ainda continuam submetidos a este tipo de papel.
Cenas como esta vem mostrar que os cidadãos afro-brasileiros ainda tem um longo caminho a percorrer se quiserem fugir do estereótipo de subservientes ou de objetos sexuais.
SOB FOGO CRUZADO
A última vez que estive no Rio de Janeiro foi em 1988. Na época fui ate a “Cidade Maravilhosa” com uma antiga namorada. Passamos uma semana fora do Rio, mais precisamente em Niterói, na casa de um conhecido. Gostei bastante do lugar. A temperatura estava agradabilíssima e as praias eram muito bonitas. Na época, eu ainda não percebia a divisão racial que certamente existia na cidade. A vasta maioria de seus cidadãos afro-brasileiros vivendo nos morros e subúrbios (com péssima infra-estrutura), enquanto a classe média branca carioca vivendo sob a proteção do Estado à beira da orla marítima.
Leitor(a), você já percebeu que todas as vezes que mostram fotos na televisão do Rio dos supostos anos “dourados” só há cidadãos brancos nestas imagens? Tenho certeza que o recorte racial continua o mesmo. A infra-estrutura nos subúrbios cariocas continua péssima também, principalmente, nas comunidades (favelas). O mais recente exemplo deste descaso aconteceu no bairro de Manguinhos, Zona Norte da cidade, onde exite uma creche conhecida pelo nome de Creche Manguinhos.
Esta creche, dirigida pela diretora Luciana Santos, já foi assaltada quatro vezes, isto mesmo, quatro vezes, sem nenhuma providência da policia local. No último dia 12.12.07, a creche esteve sob fogo cruzado entre os traficantes locais e a polícia. A diretora, que muitas vezes coloca dinheiro do próprio bolso para criar atividades para o entretenimento das crianças, disse que está cansada de escondê-las no banheiro cada vez que há troca de tiros.
O governador do Estado, ao invés de falar baboseiras sobre os favelados, deveria preocupar-se em proteger estas crianças, que tem grandes chances, quando crescerem, de fazerem parte da triste estatística de assassinatos cometidos pela policia dentro das comunidades cariocas.
Correção: No meu artigo sobre o senador Barack Obama eu, errôneamente, escrevi que ele foi eleito senador pelo Estado de Illinois, em 2000. Na verdade ele ainda era senador estadual. Ele foi eleito senador pelo Estado de Illinois somente em 2004.

Edson Cadette