Manhattan, Nova York – O mais recente filme sobre a escravidão nos EUA, “12 Years a Slave” (12 Anos como Escravo), dirigido pelo britânico Steve McQueen e protagonizado pelo seu compatriota Chiwtel Ejiofor massacra a mente e o coração do telespectador como se ele/a fôsse um lutador de boxe sendo golpeado miserávelmente com suas mãos agarradas às cordas pedindo ajuda ao juiz para que a luta termine.

Não há neste extraordinário, filme escravos cantando alegremente enquanto collhem o algodão. Tampouco vemos escravos domésticos felizes em ajudar suas sinházinhas nos afazeres da Casa Grande, ou com roupas de festa (“E O Vento Levou”). A dura realidade diária da escravidão impregnada na sociedade norte-americana, principalmente, nos Estados sulistas, é mostrada com a crueldade de praxe: seres humanos tratados como meras mercadorias para benefício, única e exclusivamente, de seus donos e senhores.

O filme é baseado na história real de Solomon Northup, um afro-americano nascido livre que, em 1841, foi sequestrado nas ruas de Washington e vendido como escravo. Suas narrativas foram publicadas em 1853, um ano após a publicação do livro “A Cabana do Pai Tomas”.

Os horrores começam com Solomon (Chiwetel Ejiofor) já escravizado trabalhando numa plantação de cana. Vemos a pessoa encarregada dos escravos mostrando como se faz o corte, enquanto o dono montado num cavalo observa-os sob um calor intenso.

Numa sucessão de flashbacks a história muda para um passado completamente diferente, onde Solomon vivendo no interior de Nova York com a esposa e filhos, caminha pelas ruas da cidade livre como qualquer outro cidadão. Indicado por um amigo ele aceita um trabalho oferecido por dois homens brancos para tocar violino num circo em Washington.

Momentos depois vemos os três jantando e tomando vinho numa agradável conversa que nos leva a pensar em uma amizade de longa data. Porém, esta atmosfera de alegria se evapora no ar como éter quando, na manhã seguinte, Solomon acorda acorrentado. Detalhe: quando a câmera mostra do alto onde ele esta acorrentado, vemos ao longe o símbolo do poder nos EUA: a Casa Branca.

Daí para frente passa de mão em mão como mercadoria. A brutalidade a que é submetido logo no primeiro diálogo com um de seus captores é algo que, para nós cidadãos do século XIX, é impossível imaginar.

Diferentemente da vasta maioria de escravos que morriam nas plantaçõess e cujo destino Solomon compartilhou por 12 anos, ele nasceu livre. Sua autobiografia, Narrative of Solomon Northup, a Citizen of New-York, Kidnapped in Washington City in 1841, and Rescued in 1853, From a Cotton Plantation Near the Red River, in Lousiana (Narrativa de Solomon Northup, um cidadão de Nova-York, sequestrado na cidade de Washington em 1841, e resgatado em 1853, de uma plantação de algodão perto do rio vermelho, em Luisiana) fez com que se tornasse uma testemunha de valor histórico.

No norte do país ele podia desfrutar de sua liberdade. É verdade que não podia votar, mas podia andar livremente com sua família, apesar de ser um homem negro.

Parte significativa do livro é a maneria como Solomon descreve a vida diária na plantação. Depois de ser vendido para um escravocrata com um pouco mais de decência, ele vai parar nas mãos do bêbado Edwin Epps (Michael Fassbender). Solomon vai aos poucos aceitando psicológicamente sua condição de sub-humano. O ódio que Edwin Epps sente por Solom é tão palpável como o corte de uma navalha na cara.

Um assunto pouco comentado quando se fala de escravidão é o ódio que as sinházinhas sentiam por escravas mais jovens e mais bonitas. Elas sabiam que seus maridos estavam dormindo com elas e muitas das crianças que nasciam nas plantações eram fruto do estupro destas mulheres.

Patsey (Lupita Nyong’o) era uma destas jovens escravas pega entre o ódio da sinházinha e a obrigação de sastifazer sexualmente o bruto do seu dono. As cenas onde a sinházina (Sarah Paulson) atira um dos utensílios no rosto de Patsey e as chibatas que leva, simplesmente, por buscar um sabão mostra o inferno que ela vivia.

Não há em “12 Anos como Escravo” o sentimentalismo barato de outros filmes do gênero. O diretor Steve McQueen está consciente do papel que seu país teve no tráfico negreiro. “12 Anos como Escravo” foi a maneira que encontrou para mostrar que os horrores da escravidão africana foram levados adiante mesmo depois de os EUA deixarem de ser colônia britânica.

 

Edson Cadette