Na verdade esta serie e considerada aqui como um marco na televisão do pais. Conversando com alguns colegas afro-americanos onde trabalho atualmente, fui informado por eles sobre o alvoroço que a série causou na época. Me disseram que muitos negros, aqui em Nova York, ficaram tão revoltados com a história que saíam às ruas procurando qualquer justificativa para brigar com brancos.
Por causa das idéias de igualdade entre homens na fundação dos EUA, sua relação com o homem negro sempre levou o país a constantes debates, diferentemente do Brasil que, simplesmente, tentou enterrar o assunto no pós1888. A série foi levada ao ar em janeiro de 1977.
Baseada no livro homônimo escrito por Alex Haley, o mesmo autor que colaborou com o ativista Malcolm X na sua autobiografia, Roots conta a história do jovem Kunta Kinté, um africano tirado à força de sua comunidade para trabalhar numa plantação no sul dos EUA.
É verdade que a o autor mistura fatos reais com ficção de uma maneira novelesca. Mas isto não invalida a essência da historia. O que marcou a série foi que, pela primeira vez, a história estava sendo, não só contada através do olhar de uma pessoa negra, mas também sendo mostrava na televisão os horrores do período escravocrata – o rapto de pessoas do continente africano, a horrenda travessia pelo mar, a separação familiar, a punição com o chicote, o estupro da mulher escrava, a ideologia da inferioridade intelectual do negro, etc.
Eu não me lembro qual foi a reação da série no Brasil. Mas podemos imaginar que, certamente, não causou nenhuma introspecção acerca do passado da população negra. Tampouco me lembro se houve por parte do meu professor de história alguma discussão sobre os horrores da escravidão brasileira e, consequentemente, qual foi o legado deixado por esta peculiar instituição nas relações sociais entre negros e brancos.
Na época, eu estava com apenas dezessete anos, e não só estava completamente tomado pela influência da cultura européia branca, como também rejeitava qualquer tipo de ligação com a Mãe África. Em outras palavras, a África e o que ela representava não merecia nenhuma atenção especial da minha parte.
É triste admiti-lo, mas foi o que aconteceu. Se fizermos uma pesquisa histórica a respeito do que era ensinado na escola pública/privada nos anos 70/80, iremos verificar que toda a história da instituição da escravidão não representava mais do que duas páginas nos livros didáticos. Era (e acredito que continua sendo) como se este período fosse somente um pequeno “blip” (pontinho) sem muita importância no radar da história brasileira.
Não acredito que as coisas tenham mudado muito qualitativamente desde aquela época porque ouço dizer que mais de 70% das escolas públicas ainda se recusam a ensinar história afro-brasileira a seus alunos. Como podemos ter uma conversa séria sobre racismo se não temos conhecimento dos horrores perpetrados aos escravos brasileiros desde sua saída acorrentados da África até morrerem de tanto trabalhar.
Este passado, que se recusa a desaparecer da nossa sociedade e também da nossa identidade, continua sendo, sem duvida alguma, a razão “sine qua non” das nossas mazelas e também do nosso perpétuo atraso. Em um país que teve todo seu arcabouço erguido no lombo de mais de quatro milhões de escravos negros, a negação brasileira deste passado é, certamente, um ato de lobotomia a seus estudantes.
As novelas brasileiras, com suas historietas de um país que existe somente nos estúdios Globais são repetidas “ad nauseum”. Entretanto, uma série importante como esta fica simplesmente enterrada no fundo do baú da televisão brasileira. Tristeza Oh! Tristeza!
Leitura
Outro dia peguei o Metrô A (linha Azul) que ficou famoso na música de Duke Ellington “Take the A train” (Pegue o Trem A) aqui perto do meu trabalho até a aconchegante livraria Hue-Man localizada no coração do Harlem, mais precisamente na Avenida Frederick Douglass, para uma leitura.
Foram mais de meia hora de Metrô. A viagem é rápida, se levarmos em consideração que eu trabalho perto de onde estavam as Tôrres Gêmeas, extremo sul da ilha de Manhattan e a livraria fica quase no outro extremo.
A leitura era da escritora Paule Marshall, uma senhora frágil beirando os 70 anos. Filha de pais da pequena ilha de Barbados nasceu e também foi criada no bairro do Brooklyn (NY). Autora de vários livros sobre a cultura afro-americana ela estava na livraria para falar do seu livro de memórias intitulado “Triangular Road” (Caminho Triangular).
A senhora Marshall leu para o público que lotou as dependências da livraria parte do primeiro capítulo, onde fala sobre seu relacionamento com o poeta laureado Langston Hughes e também sobre sua viagem a Europa juntamente com o poeta.
Após quase duas horas de perguntas e respostas, aprendemos um pouco sobre o clima do país durante a luta pelos direitos civis dos negros e também da guerra do Vietnam. E, claro, sobre sua participação em importantes demonstrações contra o governo norte americano.
Enquanto caminhava em direção ao Metrô pensei no panteão de escritores negros que este país produziu, entre eles, Richard Wright, James Baldwin, Ralph Ellison, Langston Hughes, Zora Neale Hurston, Jessie Fauset, Alice Walker e agora a senhora Paule Marshall. De repente uma sensação de tristeza tomou conta de mim.
Pensei nas histórias dos negros brasileiros que vão sendo perdidas ao longos dos anos sem serem devidamente documentadas ou descritas em livros. Somos mais de 80 milhões no país e, infelizmente, não conseguimos produzir dentro desta massa um grupo de escritores capazes de contar as nosssas próprias historias. Triste melancolia!

Edson Cadette