Outro dia, assistindo ao DVD de uma série feita pela TV Globo acerca dos problemas que o país enfrenta há pelo menos quatro séculos, observei como está cristalizada na sociedade a idéia de que o problema da pobreza é puramente social. O racismo brasileiro só não é nítido para as pessoas que enterram suas cabeças em algum buraco como um avestruz, para não enxergarem o que esta acontecendo a sua volta. Alguém precisa gritar para os formadores de opinião que o mito da Democracia Racial esta morto, muerto, “dead”.
O título de uma das séries é “Diferenças Regionais”. O repórter faz uma comparação porque o Sul do pais, com maioria absoluta de brancos imigrantes (os exemplos eram imigrantes alemães) é muito mais desenvolvido do que o Norte, onde a maioria da população tem descendência africana. É claro que o legado dos 350 anos de escravidão, aos quais foram submetidos, sequer é mencionado na reportagem que se esforça para explicar o abismo entre as duas regiões do país.
O repórter também não menciona que, quando os imigrantes chegaram ao pais no começo do século XX, trouxeram junto com eles a idéia pseudocientifica de que os negros eram inferiores, contribuindo assim, para que os afro-brasileiros fôssem tratados como párias dentro de seu próprio país.
A matéria ressalta a idéia de que se os afro-brasileiros estão na base da pirâmide social é porque não se esforçaram ao longo dos anos. O país dá oportunidades iguais a todos seus cidadãos, aí incluído os contemporâneos que tiveram como ancestrais homens e mulheres negras escravidos que construíram os alicerces de toda a economia do país.
O repórter também não explica como os imigrantes do Sul conseguiram suas terras, nem tampouco se houve alguma ajuda do governo para que seus ancestrais deixassem seus países de origem. É claro que perguntas como estas e outras abrirão uma caixa de Pandora que o país não quer que seja aberta. Afinal, o mito da Democracia Racial precisa ser preservado custe o que custar.
Até mesmo o presidente do IBGE, o senhor Sergio Bessermann Vianna, que deveria saber melhor sugere que o problema do Norte é que as pessoas não tem escolaridade, como se só isso bastasse para não ser discriminado. O senhor Vianna simplifica o racismo no Brasil como um simples problema de escolaridade. Ele deveria dizer isto ao relator da Suprema Corte, o senhor Joaquim Barbosa, que foi menosprezado por sua colega, a diletante Carmen Lucia Antunes Rocha, alegando que agora ele iria dar um “salto” social porque agora iria presidir o processo do STF (Superior Tribunal Federal) contra a corja de 40 políticos corruptos envolvidos no esquema conhecido como mensalão.
Para os defensores do mito da nossa “democracia racial” o legado escravocrata da colonização portuguesa no Brasil não exerce nenhuma influência na vida dos milhões de afro-brasileiros. Leitor (a) acredite nisto se quiser!
LEITURA
O Cooper Union é um prédio localizado na rua 7 com a terceira avenida no lado Leste de Manhattan. Este prédio foi erguido no século XIX. Já estive neste espaço para algumas palestras e noites de autógrafos.
Há alguns meses estive lá novamente para uma interessante palestra sobre Abraham Lincoln, que foi presidente dos EUA durante a Guerra Civil (1861-1865), e um ex-escravo que teve uma participação muito importante na luta para a abolição da escravatura chamado Frederick Douglas e a amizade entre estes dois personagens da historia norte-americana. O primeiro era advogado e o segundo um ex-escravo defensor da igualdade entre os homens.
Suas vidas traçaram caminhos distintos, mas convergiram para a mesma luta na terra sangrenta da Secessão, Guerra Civil, e emancipação. Oponentes primeiro, eles gradualmente se tornaram aliados e finalmente amigos, cada um influenciando e sendo atraído pelo outro. Quando a pressão da guerra levou Lincoln a aceitar a emancipação dos afro-americanos, e o senhor Douglas aceitar as idéias republicanas, finalmente conseguiram entender-se. O três encontros entre os dois na Casa Branca alterou profundamente a direção da Guerra Civil e o destino dos EUA.
A Guerra Civil, ao contrário do que muita gente pensa, não foi para abolir a instituição peculiar (escravatura). Ela declarada porque os Estados sulistas queriam manter sua independência em relação ao governo federal para continuarem usufruindo da escravidão. Em Fevereiro de 1860 Lincoln fez um discurso no prédio Cooper Union sobre como seria sua administração; ele jamais disse uma palavra contra a escravidão. Lincoln era um republicano conservador, não era abolicionista, nem tão pouco lutava pela igualdade dos afro-americanos.
Segundo ele, a preocupação do governo deveria ser sobre infra-estrutura e não sobre dar fim à instituição da escravidão. Ele também acreditava que os negros (termos usado na época) deveriam mudar-se para algum lugar fora dos EUA. Em março de 1861, ganhou a eleição e no mesmo ano começou a Guerra Civil. Os Estados do sul, entre os quais Alabama, Geórgia, Carolinas e o Texas, se auto intitulavam confederados e queriam a separação do resto do país. Lincoln jamais permitiria isto. Enfrentou a guerra, foi reeleito e terminou com a escravidão.
Ao mesmo tempo manteve o país intacto. Entretanto, pagou com a própria vida ao ser assassinado, em abril de 1865, no Estado de Washington, por John Wilkes Booth um ator e espião dos confederados enquanto assistia a uma peça de teatro.
Na mesma tarde em que o presidente foi assassinado, Frederick Douglas fez um elogio ao presidente morto no Estado de Nova York, enaltecendo suas qualidades, dizendo que o sangue do ex-presidente iria redimir a promessa da Republica de liberdade e igualdade para todos. Meses depois da morte do senhor Lincoln, o senhor Douglas recebeu um pacote enviado pela viúva Mary Todd Lincoln com os seguinte dizeres: “Meu marido o considerava um amigo especial, e antes de morrer, ele me disse que gostaria de mostrar sua gratidão a você. Tomei a liberdade de enviar-lhe sua bengala pessoal como um monumento do homem publico, e uma expressão pessoal de carinho do presidente à sua pessoa”.
Douglas aceitou o presente como uma indicação do interesse humano no bem estar da raça humana do presidente morto.

Edson Cadette