Um amigo dos tempos de São Paulo me esperava em seu pequeno apartamento na Rua 95 com Segunda Avenida para me ajudar na adaptação a nova realidade.
Carregava comigo menos de US$ 1 mil para uma estadia, que imaginava seria de apenas dois anos. Tempo suficiente para aperfeiçoar meu inglês e também economizar um pouco de dinheiro para o retorno. Afinal, parte das minhas raízes haviam ficado em São Paulo, e minha intenção certamente não era ficar muito tempo nos EUA.
Como cheguei no finalzinho da tarde de um sábado, não tive tempo de conhecer minha nova habitação, tampouco o bairro onde estava localizada. Só sabia que iria morar no lado Leste do famoso bairro do Harlem, num apartamento pequeno de dois quartos com mais três pessoas.
E, claro, que sabia o que me esperava pela frente, afinal de contas, meu inglês não era tão fluente, e como milhares de imigrantes, tampouco possuía a permissão exigida pela lei para trabalhar.
Quando se deixa o seu país de origem para um recomeço em outro lugar, não se tem idéia do que nos espera. Tampouco sabemos, exatamente, quanto tempo passaremos longe até o regresso. Acredito que, após alguns anos, estes e outros pensamentos passam pela cabeça dos milhões de aventureiros que chegam aos EUA buscando uma nova oportunidade. Comigo, certamente, não foi diferente.
Em minha opinião, a coisa mais difícil para o imigrante adulto onde quer que ele/a decida morar, não é adaptar-se a sua nova situação, mas sim tentar controlar seus sentimentimentos com relação ao passado. Afinal de contas, querendo ou não, parte das nossas raízes não são transplantadas com a nossa mudança física de lugar.
Fico imaginado os imigrantes que chegaram aqui no começo do século passado, e não tinham a facilidade de comunicação com seus países de origem, iguais as que temos hoje. Eu mesmo, apesar de ter chegado no começo da década de 90, enfrentei muitas dificuldades para me comunicar com meus familiares, e com pessoas que estimava bastante.
E com o passar dos anos, as amizades, os amores, as lembranças, etc vão ficando cada vez mais difíceis de preservar.
Mas tudo isto não quer dizer que tenha me arrependido de ter deixado o Brasil para morar em Nova York. Mesmo que, à princípio, a idéia fôsse permanecer por apenas dois anos, no máximo. A verdade é que sou grato a Nova York por todas as experiências que adquiri nestes últimos 20 anos.
E, sem duvida alguma, a melhor delas é ser tratado como um cidadão, o que, infelizmente, no país onde nasci e onde passei boa parte da vida jamais recebi tal tratamento. Hoje sei literalmente o significado da palavra cidadania.
É claro que a trajetória por aqui nem sempre foi fácil ou tranqüila. Muitas vezes senti imensa vontade de deixar tudo e voltar correndo para o Brasil. Mas de uma maneira ou outra fui me adaptando a esta metrópole. Fui adquirindo mais sabedoria ao longo dos anos, aprendendo mais sobre Nova York e, conseqüentemente, sobre os EUA. Sem falar que aprendi muito mais sobre a sociedade brasileira morando aqui do que quando vivia no Brasil.
Muita gente afirma que esta cidade não representa o que é este imenso país. Talvez tenham razão. Talvez Nova York seja mesmo diferente por causa do seu mosaico étnico e cultural. Isto faz com que a cidade seja única no planeta.
Está sempre de braços abertos para qualquer um que tenha um sonho. Como diz a musica do cantor Frank Sinatra: “If you can make it here, you can make it anywhere” (Se você consegue aqui, você consegue em qualquer lugar.)
Eu, certarmente, aguardo com bastante interesse os meus próximo vinte anos. Mesmo porque agora também tenho uma filha que se chama Núbia, nascida aqui, que, certamente, aprenderá a gostar desta cidade tanto quanto o pai.
CONTINUAMOS INVISÍVEIS
A aprovação pelo Congresso Nacional do Estatuto da Igualdade Racial completamente desfigurado dos ítens que afetam diretamente a comunidade negra comprova que o Estado brasileiro continua insensível às nossas aspirações. O projeto, na sua forma original apresentado pelo senador Paulo Paim, tinha como objetivo tentar oferecer uma melhor condição de oportunidade de ascensão social a milhões de afro-brasileiros.
Porém, da maneira como foi aprovado, ele deveria ter sido repudiado pelas lideranças políticas que se dizem nossos representantes. Aí incluo a principal delas, a SEPPIR. Mas não foi o que se viu. Estas “lideranças”, não se sabe por qual motivo, simplesmente colocaram seus rabos entre as pernas e aceitaram esta nova versão aprovada.
Enquanto a comunidade afrobrasielira não reinvidicar seus direitos com mais empenho, e cobrar de seus representantes uma postura comprometida com seus interesses, seguira sendo tratada com o descaso que se viu esta semana com a aprovação de um Estatuto que, na verdade, deveria ser chamado de “Estatuto da Iniqüidade Racial”.

Edson Cadette