Normalmente, uma eleição para presidente nos EUA é de interesse mundial, entretanto, por razões óbvias, esta mexeu com todo o planeta. Faço esta pergunta por que no país onde a escravidão física foi abolida há meros 120 anos, e onde a percentagem de negros na população é de quase 50%, seria de suma importância sabermos o que eles pensam.
Contudo, leitor (a), se você como eu, acompanhou através da mídia (no meu caso foi a Globo.com, Folha e o Estado) a reta final das eleições norte-americanas notou que, em nenhum momento, as vozes dos cidadãos negros foram ouvidas. Quero dizer: a voz dos intelectuais, de profissionais e de figuras públicas reconhecidas nacionalmente para que se pudesse ter uma idéia do que realmente pensa a comunidade negra brasileira, não somente a respeito da eleição histórica dos EUA, mas como este fato poderia também fomentar um debate sério acerca dos problemas raciais no Brasil desde sua emancipação em 1888.
Em outras palavras, o que o negro brasileiro pensa, ou sua opinião sobre “current affairs” (atualidades) não é importante o suficiente para se ouvido em âmbito nacional. Haveria oportunidade melhor do que aproveitar a eleição do primeiro presidente negro nos EUA, um país que sempre é usado como exemplo negativo para mostrar aos brasileiros em geral, que o negro sofre discriminação racial e não somente social, como querem alguns intelectuais?
Os EUA sempre reconheceram seu problema racial, mas por causa de debates sérios em esferas importantes da sociedade, como a acadêmica e os setores público e privado, eles enfrentam esta questão, sem demagogias.
Os EUA certamente avançaram nesta questão muito mais do que nós, no Brasil, que seguimos fingindo que o problema não existe, assim como Norman Bates também fingia que sua mãe estava viva no sótão de seu Motel.
No Brasil, a poderosa Rede Globo mandou seu principal âncora juntamente com um grupo de jornalistas para diferentes partes dos EUA para cobrir a eleição, mas não encontramos, entre eles, nenhum jornalista negro brasileiro. É estarrecedor perceber até onde chega a mídia brasileira para tentar encobrir a discussão sobre o racismo no país. Se a democracia racial brasileira é uma farsa, a mídia pode certamente ser acusada de ajudar a mantê-la. Temos aqui um exemplo de coragem da sociedade norte-americana, onde há apenas quatro anos atrás ninguém em sã consciência diria que um negro pudesse estar no comando do país.
Não pense leitor (a) que a ascensão ao poder do senador Obama foi por acaso. Os negros nos EUA são somente 12% da população (eles já foram ultrapassados pelos hispânicos), mas podemos encontrá-los em todas as esferas de influência. E se eles têm essa influência pode ter certeza que foi à base de mortes e de lutas, e não à base de festas carnavalescas.
Ao contrario do Brasil, que em pleno século XXI, ainda questiona a validade do ensinamento da cultura afro brasileira nas escolas publicas.
Mais uma vez, o Brasil perdeu uma oportunidade para discutir sériamente o legado escravocrata que não só afeta os negros, mas também os mantém como cidadãos de segunda classe na base da pirâmide social.
A cobertura jornalística da eleição presidencial dos EUA no Brasil mostrou uma vez mais o poder da mídia de iludir a massa ignara, e fazê-la acreditar que o racismo é um problema somente dos gringos norte americanos e ele foi resolvido em parte com a eleição de Barack Obama.
O título original do artigo é “A farsa brasileira e a coragem dos EUA”

Edson Cadette