Para muita gente, esta marca mais descontraída é um traço positivo depois de oito anos, em que a Casa Branca mais parecia o interior de um sombrio castelo. Mesmo trabalhando nos finais de semana, o presidente Obama enviou comunicado informando que, de agora em diante, a indumentária a partir da sexta-feira é mais relaxada – o famoso “casual Fridays”.
O ex- assessor da Casa Branca, Dan Bartlett, se lembra de um curioso episódio em que foi admoestado por mais de 15 minutos pelo ex presidente George W. Bush que o proibiu de entrar porque estava vestido com uma camisa social.
Há mudanças também na dieta oficial. Obama dá preferencia a comidas mais leves como grelhados, galinhas e peixes. Também foi instalada em seu gabinete uma pequena geladeira onde ele mantém seus chás orgânicos. Ao que parece a nuvem cinzenta que pairou por oito anos sobre a Casa Branca, como naquele desenho animado da Família Adams, finalmente se dissipou dando lugar a um sol radiante. Este é certamente um sinal dos novos tempos!
NOVA YORK SOB A NEVE: O PALCO
– 2009 chegou. Nada melhor do que deixar de pensar um pouco nas más noticias econômicas que nos atingem sem parar, como os flocos de neve que caem na cidade. Há anos a cidade não via tanta neve, e morando há 19 anos por aqui, esta é também a primeira vez que observo nas notícias locais que os EUA estão desesperados com a situação econômica.
Quanto mais leio sobre os problemas econômicos menos os entendo. Com relação à neve que anda caindo, coloco a culpa na minha mãe que, junto com meu sobrinho, está visitando a cidade pela primeira vez. Ela me diz que a neve não é nada se comparada a quase submersa São Paulo das chuvas que caíram no mês de dezembro.
Quanto à área econômica, este cataclisma tem todas as digitais do senhor GWB e de sua desastrada Administração. De qualquer maneira, aproveito a pechincha de US$ 15.00 para ver a excelente peça “Shipment”, que está sendo encenada no espaço cultural “Kitchen” localizado do lado Oeste da cidade, mais precisamente na Rua 19 com a 10ª Avenida.
A peça, escrita e dirigida por um jovem chinês de nome Young Jean Lee, e com um elenco totalmente composto por jovens afro-americanos metralha a torto e a direito certos estereótipos entre negros e brancos nos EUA. É animador apreciar o trabalho de dramaturgos da nova geração que não tem medo de “ofender” o público com suas novas idéias e a disposição de abordar velhos problemas raciais que ainda persistem por aqui, mesmo depois da eleição de Barack Obama.
No primeiro ato da peça vemos dois jovens dançando ao som de musica rock e seus movimentos de “break-dance”. Sentimos o ímpeto de sairmos de nossas cadeiras para dançar. O que vem a seguir é totalmente inesperado. Em excelente monólogo, o jovem ator Mikeah Ernest Jennings fuzila a platéia com suas histórias (e muitos palavrões) sobre o mal entendido entre negros e brancos. Apesar do tom altamente ofensivo, não dá para não rir das verdades que estão sendo esbofeteadas nas nossas caras.
O segundo ato mostra as armadilhas que muitos jovens afro-americanos caem na ânsia de atingir o estrelato a qualquer preço. Mesmo que para isso tenham que vender drogas. Neste caso, o apogeu para o jovem protagonista é virar artista de música Rap. No entanto, o destaque fica para a belíssima e talentosa Amélia Workman que faz o papel de uma traficante que acaba de chegar ao pedaço e não pretende levar desaforo de ninguém, nem que com isto tenha que pagar com sua própria vida para mostrar “respeito”.
O último ato, e em minha opinião, o mais fraco, mostra o relacionamento completamente conturbado, para dizer o mínimo, entre cinco amigos da classe média afro-americana que se reúnem para um jantar na casa de um deles. Farpas e recriminações são trocadas entre todos e certo gosto amargo acaba ficando no ar quando termina o jantar.
Ao final da vibrante apresentação temos a nítida sensação de termos andado numa enorme montanha russa. A peça “The Shipment” faz perguntas difíceis de serem respondidas e, ao mesmo tempo, também espera soluções para problemas quase impossíveis de serem resolvidos.
Ao sair do teatro e ao caminhar na friorenta Manhattan em direção ao Metrô, pensei na situação do negro no Brasil neste começo de século XXI. Por aí a discussão sobre a existência ou não do racismo é evitado, ou melhor, é abortado pela mídia com a cumplicidade de alguns pseudo intelectuais negros que deveriam saber melhor.
É triste ler na mídia brasileira que estes mesmos intelectuais que são contra as ações afirmativas, ou qualquer outra política pública que tenha como alvo a comunidade negra, se recusem a reconhecer que os mais de 300 anos de escravidão trouxeram para os descendendentes de escravos uma desvantagem em relação aos imigrantes europeus no que diz respeito ao acesso ao conhecimento e à informação; em outras palavras, a plena cidadania.
É como se esta importante parte da história brasileira não existisse, ou não continuasse exercendo nenhuma influência e não fosse determinante para o avanço ou não da comunidade negra no país. Enquanto como grupo não tivermos influência, poder de decisão, e força de mercado, nossas vozes como grupo continuarão estéreis.
CAFÉ
Estive outro dia no café Dousoeur de Paris. Este pequeno, mas aconchegante espaço está localizado bem na esquina da Rua 46 com a 10ª avenida. Com suas pequenas mesas (3) e suas duas poltronas postas uma em cada lado da porta de entrada, este lugar é o que poderíamos chamar de charmoso. Provavelmente os decoradores (e donas) estavam pensando na famosa etiqueta francesa do século XVIII, e não, é claro, na participação da França no tráfico dos noirs, ou na famosa guilhotina.
A imaculada imagem do país da Liberte, Egalite e Fraternite deve ser bem preservada. Servindo doces, bolos, cafés e sanduíches, este espaço tem tudo para fazer sucesso entre os franceses que moram na cidade. Enquanto lia um artigo muito interessante comentando os 100 primeiros dias do presidente Roosevelt e a depressão norte americana de 1929, comparando-os com o inicio da administração Obama, tomei um delicioso café creme (café com leite) e um divino bolo de chocolate. Com toda certeza serei um habitué deste café!
Dousoeur de Paris
652 10ª Avenida
New York, NY

Edson Cadette