Um contingente de mais de 4 milhões de africanos foram capturados, escravizados e levados para o Brasil. Um número bem maior do que os que foram levados de forma forçada para os EUA. Como é de conhecimento geral, a escravidão só foi abolida em maio de 1.888. Apenas 12 anos antes do século XX.
E para sermos bem sinceros, foi somente na primeira década do século XXI que o Estado começou a reconhecer que havia, sim, um problema racial no pais. Temos que reconhecer que foi durante o mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso que as primeiras políticas públicas direcionadas a comunidade afro-brasileiras foram implementadas para o constrangimento de muita gente que ainda acreditava na falácia da democracia racial.
O argumento de que programas como as ações afirmativas jamais poderiam ser implementadas no Brasil porque simplesmente não havia qualquer problema que as justificasse. Os livros publicados a favor destas políticas não são divulgados e não ganham repercussão, o que mostra a forma distorcida como o debate vem sendo travado.
“Ele era uma lenda”, disse o professor de Sociologia da Universidade de Princeton, Edward Telles, o brazilianista e também autor do aclamado “Racismo à Brasileira”. “Dos anos 30 até os anos 90, o Brasil era considerado ao redor do mundo como uma democracia racial, mas ninguém falava, ou discutia sobre raça. Entretanto, havia, sim, uma hierarquia racial. Pessoas pobres invariavelmente eram negras, e as elites quase que totalmente brancas. Ele não tinha medo de dizer a todos que a demoracia racial brasileira era um grande mito. Ele disse isto por 60 anos.” Afirmou Telles.
Aos 30 anos, Abdias fundou o Teatro Experimental do Negro no Rio de Janerio, com a intenção de treinar atores e atrizes negros, desafiando assim a norma, na época, de atores brancos pintarem o rosto para representarem papéis de personagens negros.
Com isso buscava também abraçar a herança da cultura africana. Numa época em que a África era vista como um continente totalmente primitivo, e o Brasil buscava, a todo custo, renegar suas raízes e dessa forma enfatizar suas raízes européias, como se fossem as únicas de sua formação cultural.
Como ator, Abdias trabalhou na peça “Orfeu da Conceição, escrita por Vinicius de Morais, que serviu de base para o filme “Orfeu Negro”, dirigido pelo francês Marcel Camus. O filme ganhou a “Palma de Ouro” do Festival de Cannes, em 1959. Também participou ativamente de eventos sobre os direitos civis dos negros na década de 1950.
Depois do golpe de Estado de 1964, Abdias deixou o país e partiu para o exílio. Ele morou na Nigéria, e também aqui nos EUA até a década de 1980. Durante seu auto exílio, pintou quadros com temas da religiosidade e influência cultural africana no Brasil, que já foram exibidos nos EUA e também em outras partes do mundo.
Na política, ajudou a fundar o PDT juntamente com o ex-governador Leonel Brizola. Com a fundação do partido via a possibilidade política de uma séria discussão sobre o racismo. Ele foi também um dos responsáveis pela criação do Instituto de Pesquisa IPEAFRO, dedicado ao estudo da cultura afro-brasileira.
“Não há brasileiro mais importante do que Abdias do Nascimento, desde que o Brasil aboliu a escravidão, em 1888”, disse Ollie A. Johnson, professor de e studos africanos da “State Wayne University” na cidade de Detroit, e autor do livro “Brazilian Party Politcs and the Coup of 1964”. “Nenhum outro brasileiro lutou tão duro e por tanto tempo contra a supremacia branca, e o racismo no Brasil na era pó-abolição”, disse Johnson.
Abdias estudou contabilidade e se formou em economia pela Universidade do Rio de Janeiro e assumiu a luta pelos direitos civis para a população negra ainda adolescente, quando passou a se interessar pela Frente Negra Brasileira.
Durante seu exílio nos EUA, foi responsável pela criação da cadeira de estudos sobre a Cultura Africana, e também pelo Programa de estudos porto-riquenhos. Também ensinou nas prestigiosas universidades de Yale e Wesleyan.
O velho lutador se manteve ativista até o fim de sua vida. Ao ser perguntado pelo professor de Harvard, Henry Louis Gates Jr., para sua série “Negros na América do Sul”, se o Brasil era realmente uma democracia racial, foi enfático: “Os negros sofreram na pele a mentira que há democracia racial no país,” ele disse. “Você tem que olhar a família negra. Onde eles vivem? As crianças negras, como elas são educadas? Você verá que tudo é uma mentira. Você deve entender o que eu estou dizendo com uma profunda raiva e amargura a maneira como o negro é tratado no Brasil.”
Gates perguntou se, contudo, havia razões para otimismo. “Se eu não fosse otimista eu já teria me enforcado”, disse Abdias do Nascimento.
Viva Nova York
Fui outro dia ao Cine Clube Maysles, localizado no bairro do Harlem, para ver um filme sobre violência nas ruas de Chicago. O filme “The Interrupters” é um documentário que gruda na pele da gente como se fosse chiclete queimado.
O mesmo que eu, juntamente com meus amigos, costumávamos atirar no teto da sala de aula observando o fio que caia no chão. Qualquer um que tocasse nele ficaria com a mão grudada.
O título se refere a um grupo de pessoas que cansadas de testemunhar tanta violência nas ruas de Chicago, resolve agir e, com isso, tentar impedir que jovens morram violentamente por causa de disputas banais do tipo: “Você me desrespeitou”, “Você olhou para minha namorada”, “Você esbarrou em mim” etc.
Nessas mortes, fica nítida a ausência de uma figura paterna para mostrar a estes jovens como canalizar melhor seus anseios, suas frustrações e também suas angustias, numa comunidade em que acabam sendo atraídos pelo glamour da criminalidade. O filme nos envolve de uma maneira que nem percebemos sua duração de duas horas.
O documentário segue os passos de uma mulher e dois homens trabalhando muito bravos, e até mesmo com uma certa dose de humor, tentando proteger as comunidades da mesma violência que eles empregavam quando ainda eram adolescentes.
Filmado no período de um ano, o filme capta não somente o trabalho deles, mas também suas histórias de violência, de esperança e, é e claro, de redenção.
Viva Nova York II
Estreiou na cidade há duas semanas a versão açucarada do filme “Help”, baseado no livro homônimo da escritora Kathryn Stockett. A cidade de Jackson no Estado racista do Mississippi dos anos 60 serve de palco para a história.
Eugenia Phelan (Emma Stone) regressa da Universidade com sonhos de tornar-se escritora. Porém, o único trabalho que consegue na cidade é de colunista no jornal local como conselheira doméstica.
Triste por saber que a empregada da casa, Constantine (Cicely Tyson) que, por mais de 20 nos cuidou dela deixou a família sem explicação, ela começa a entrevistar as empregadas domésticas locais para saber como era para elas cuidarem não só dos afazeres domésticos, mas também dos filhos de suas patroas para escrever um livro.
Com a ajuda da empregada de uma de suas amigas, Aibeleen (Viola Davis), e também de uma empregada sem papas na língua, Miniee (Octavia Spencer), ela consegue reunir um número suficiente de histórias para um livro.
É claro que nesta história não faltam os acontecimentos que marcaram a época, como o assassinato do ativista Medgar Evers, morto pelas costas quando entrava na sua casa, e também os famosos sinais “For Colored only” (Para Pessoas de Cor) espalhados pela cidade.
O filme consegue captar bem a sociedade esquizofrênica no sul dos EUA, onde uma empregada podia cuidar do filho de sua patroa branca, mas não podia usar o mesmo banheiro da família. Cicely Tyson, Viola Davis e Octavia Spencer dão um show de interpretação. A jovem e talentosa Emma Stone está perfeita no papel de Skeeter.
PS:- Não saia de casa para ver este filme sem um lenço.

Edson Cadette