Queens, Nova York – Quando Alf Kumalo, fotógrafo sul-africano morto no ano passado, começou sua extraordinária carreira jornalística, ele não tinha nenhuma intimidade com uma máquina fotográfica, e o jornal onde começou a trabalhar como repórter era tão pequeno que ele era obrigado a tirar suas fotos para ilustrar os próprios artigos.

Depois de encontrar-se por diversas vezes com Nelson Mandela, à época um advogado, Kumalo, atraído pela força da fotografia em preto e branco, partiu para outra direção tornando-se um dos maiores fotógrafos sul africanos. O tema das suas fotos eram as iniquidades, crueldades e injustiças do sistema do apartheid.

Kumalo trouxe para a fotografia seu olhar atento de repórter. Quando a polícia o ameaçava tentando, inclusive, muitas vezes destruir seu equipamento, conseguia simular que cumpria as ordens e colocava a câmera na cabeça, tirando fotos com dispositivo programado na máquina.

Na época, Kumalo estava sujeito as mesmas indignidades que sofriam seus compatriotas, bem como as brutalidades e a prisão, além, claro das privacções econômicas. Na verdade, ele também, era parte do cenário que fotografava.

O fotógrafo sul-africano do apartheid trabalhou para as principais publicações que cobriam a situação sul-africana sob o apartheid, inclusive “The Golden City Post” e a revista “Drum”. Também trabalhou para o “Star”, e para publicações fora da África, como o norte-americano  “The New York Times”.

Kumalo tinha um faro apurado para estar onde a história estava acontecendo. Por exemplo, são suas algumas das fotos do massacre de “Sharpeville” no dia 21 de Marco de 1960, quando 69 pessoas negras foram mortas por policiais brancos enquanto protestavam contra a lei do passé, que restringia  a circulação e os movimentos dos negros. Ele estava lá.

Em 1963, fotografou o que ficou sendo conhecido como o julgamento de Rivonia, o nome se deve a localização num subúrbio de Joanesburgo onde viviam os ativistas do CNA (Congresso Nacional Africano).

Nelson Mandela juntamente com outros ativistas, foi sentenciado a mais de 20 anos de prisão. Nos anos 70, ele fotografou o ativista Steven Biko, lider do movimento de consciencia negra. Em 1976  tambem estava presente durante a revolta dos estudantes negros contra a implementacao compulsoria do “Afrikaans”, a lingua dos brancos “Afrikaners”, nas escolas públicas. O protesto foi recebido com a costumeira violência da policia, e espalhou-se rapidamente nos guetos pelo país afora.

O fotógrafo era tambem conhecido por retratos e fotos de dignatários e celebridades, inclusive de Muhammad Ali, do músico Hugh Msekela, da cantora Miriam Makeba, do tenista Arthur Ashe e do reverendo Desmond Tutu.

“Alf Kumalo era mais do que um fotografo jornalista de documentários. Era acima de tudo, um dos eminentes historiadores da Africa do Sul,” disse o ex-presidente Thabo Mbeki, numa declaração. “Ninguém podia contradizer a verdade do que ele havia capturado tão competentemente por suas lentes”, acrescentou Mbeki, certa vez.

Ciente de que o poder de sua narrartiva era incontestável, o regime do apartheid o submeteu a constantes assédios na esperanca de que Kumalo, um simples e obstinado homem de integridade, abandonasse seu trabalho ou se vendesse. Kumalo manteve-se íntegro até o fim.

África

Se não estivesse lendo o artigo no The New York Times, a primeira impressão que certamente teria seria a fotografia que estava observando tinha sido tirada em algum lugar remoto nos grotões do Brasil. A foto mostra um barraco erguido em terra batida, montado rústicamente com latão e com uma porta de madeira. Detalhe: há na porta um cadeado.

O local é um salão de sinuca localizado na periferia de Nairobi, a capital do Quênia, onde um jovem estudante católico do ensino médio foi assassinado à sague frio com um tiro na cabeça enquanto implorava pela vida.

Os assassinos eram homens fardados da policia militar local. Qualquer semelhança com a nossa polícia no Brasil é mera coincidencia. O único erro do jovem estudante de nome John Kioko Muthini, era ser irmão de um malfeitor procurado.

“Numa escala de um a dez, onde o dez é a nota maxima no quesito eficiência, eu daria dois”, disse Macharia Njeru, o encarregado de verificar alegações criminosas da policia, incluindo envolvimento com corrupção, matanças, abusos generalisados e desrespeito aos direitos humanos.

 Numa das áreas mais pobres da cidade onde os moradores vivem em casebres contruidos de latão, como nas favelas brasileiras, é possível ver animais inchados boiando nos riachos sujos de lixos. Nestas areas os policiais certamente não são heróis. Muitos residentes vem os policiais como uma constante ameaça carregando os fuzis russo AK-47 pendurados nos ombros.

Enquanto o pai do jovem Kioko Muthini esperava do lado de fora do necrotério, ao ver seu filho numa poça de sangue disse resignado: “Por que não o levaram para a delegacia? Por que o mataram à sangue frio?”

O efetivo da policia militar no Quenia gira em torno de 70 mil soldados. A corporação é uma das mais corruptas no leste do continente africano.

Adolescentes na favela onde morava o jovem Muthini disseram que os mesmo policiais que o mataram vivem cobrando dinheiro deles, ameaçando levá-los para a prisão se não pagarem o equivalente a US$ 20 por semana.

“A polícia no Quenia frequentemente executa indivíduos”, diz o relatório da ONU publicado em 2009. O mais perturbador é a existência de esquadrões da morte no próprio aparelho policial. Ao contrário da próspera comunidade de negócios, a indústria do safari, ou a reforma judiciária, o serviço da policia nacional tem sido intencionalmente colocado para escanteio, e com isto serve a todo tipo de manipulação pelos políticos no pais.

O problema com a policia é tão profundo que um dos melhores filmes quenianos chama-se “Nairobi Half Life” (trad livre – Nairobi Meia Vida) e tem como protagonistas dois policiais corruptos que ameaçam criminosos arrancando dinheiro e depois os matando.

No final do filme, enquanto os dois policiais são presos, um dos Astros olha e diz para o companheiro em suahili: “nós somos carcaças”.

A familia de Muthini disse que Charles, o irmão malfeitor mais velho de John Kioko foi encontrado recentemente morto, e seu corpo foi jogado perto do aeroporto de Nairobi.

 

Edson Cadette