Manhattan, Nova York – Willie Louis, morto recentemente em Chicago, não carregou com suas mãos de meeiro placas contra a brutalidade do sistema segregationista conhecido Como Jim Crow no sul dos EUA. Tampouco participou de passeatas buscando seus direitos civis como cidadão norte- americano. Porém, o que ele fez em Drew, um pequeno vilarejo localizado no paupérrimo Estado do Mississippi (sul) há quase 70 anos, foi, sem dúvida, um ato da mais alta coragem. Detalhe: Louis era apenas um adolescente de 18 anos.

À época, o jovem, ainda conhecido como Willie Reed, testemunhou como quarto homens broncos assassinaram cruelmente um menino de apenas 14 anos chamado Emmett Till com um tiro, e depois amarraram seu corpo a uma máquina de separar algodão com arame farpado e o atiraram no rio, porque o menino fizera algo que incomodava o racismo vigente, a saber: o garoto ousou assobiar para uma freguesa branca quando ela saía de um estabelecimento commercial onde ambos se encontravam.

O corpo foi descoberto dias depois no rio Tallahatchie. Sua mãe fez questão que o caixão ficasse aberto para que todos vissem a brutalidade e como ficara com o rosto e corpo desfigurados nas mãos dos racistas.

O jovem Reed testemunhou em uma Corte aberta, numa cidade em que a Ku Klux Klan (KKK) mandava e desmandava com o apoio, inclusive, das autoridades constituídas.

Assim que terminou o julgamento, Louis mudou de nome por razões de segurança e mudou-se para Chicago onde viveu discretamente trabalhando num hospital. Se o jovem Emmett Till ainda estivesse vivo, estaria completando 72 anos.

O assassinato de Till, que estava na cidade visitando familiares, e depois o julgamento dos quarto responsáveis pelo assassinato, se tornaram um divisor de águas no movimento pelos direitos civis. Apesar da absolvição de dois dos acusados, o testemunho do jovem Reed foi algo tão corajoso que o tranformou em herói. Ele raramente falava sobre a tragédia, e quando o fazia, era possível perceber a dor que as suas palavras ainda carregavam.

“Willie Reed enfrentou tudo com muita bravura, apontando as pessoas que pegaram e mataram o jovem Emmett Till,” disse o director Stanley Nelson, que entrevistou Louis para o excelente documentário “The Murder of Emmett Till” (O assassinato de Emmett Till) lançado em 2003.

“Ele era do Mississippi, e no fundo do seu coração sabia que estas pessoas jamais seriam condenadas. Porém, fez o que tinha que ser feito”, completou.

“Eu não podia ficar fora disto,” disse Louis em entrevista ao programa dominical “60 Minutos” da rede CBS, em 2004, ao comentar a decisão que tomara de testemunhar. “Emmett Till tinha apenas 14 anos, provavelmente nunca tinha ido ao Mississippi na vida. Veio visitor o avô e eles o mataram. Quero dizer, isso não é correto”, concluiria.

Numa entrevista com o professor universitário David T. Beito, de 2009, Louis recordou o caso com um desconcertante desânimo. “Algumas pessoas afirmaram que ele assobiou para a senhora branca. Você sabe que isto não era razão para alguem ser assassinado”, disse ao entrevistador.

Viva Nova York

O museu Whitney localizado na esquina da Rua 76 com a Avenida Madison apresentou no começo do ano a exposição Blues For Smoke. A exposição explorou o vasto alcance da arte contemporânea em relação ao Blues como gênero musical e sua estética, não apenas como cateogira musical, mas também como um campo de sensibilidade artistic e de idiomas culturais.

A exposição apresentou trabalhos de mais de 40 artistas dos anos de 1950 até os dias de hoje, bem como materiais selecionados da música e do entretenimento popular.

Por  todo o século passado, escritores e pensadores como Zora Neale Hurston, Ralph Ellison, Albert Murray, Amiri Baraka e Cornel West afirmaram a importância fundamental do Blues, tanto na música norte-americana e sua influência  no Jazz, R&B, Rock, e Hp-Hop, como na literatura, filmes e arted visuais.

Em toda sua diversidade, o Blues tem sido aclamado como uma das grandes conquistas culturais dos EUA, assim como o Jazz, e até mesmo chamado de música clássica norte-americana.

As origens do Blues recaem sobre a cultura vernacular dos afro-americanos vivendo no Delta do Mississippi e Nova Orleans por volta da virada do século XX – pessoas para as quais a escravidão estava na memória recente.

Como escreve o historiador Houston A. Bakers, o Blues surgiu de uma matriz de “músicas de trabalho”, grupos seculares, gritos de trabalhadores negros do campo, harmonias sagradas, sabedoria dos provérbios, filosofia popular, comentários politicos, humor escrachado, lamento melancólico e muito mais.

O título da exposição foi tirado do album solo de 1960 (ano do meu nascimento) do pianista virtuoso Jaki Byard, em que a improvisação no Blues torna-se a base para uma exploração de vanguarda.

Edson Cadette