Manhattan, Nova York – Eu, sinceramente, gostaria de saber o que a ministra da Secretaria de Políticas da Igualdade Racial (SEPPIR) falou a presidente Dilma Rousseff após tomar conhecimento do que aconteceu com a auxiliar de serviços gerais, Claudia Silva Ferreira, 38 anos, assassinada a tiros por policiais cariocas que, provavelmente, deveriam estar em algum curral de porcos  e não vestindo o uniforme da polícia.

Este não foi o primeiro nem sera o último caso em que uma pessoa inocente é assassinada por policiais truculentos. Com mais de mil favelas espalhadas pela cidade e centenas de cortiços nos seus arredores, há décadas o Rio deixou de ser o cartão de visitas do Brasil.

Menos de uma semana antes deste horrível episódio, a ministra, juntamente com mais de 20 supostos líderes do movimento negro brasileiro, sentou-se com a presidente Dilma Rousseff para discutir maneiras de coibir o racismo nos campos de futebol. Para efeito de marketing a menos de 4 meses da Copa do Mundo, a presidente posou com o atleta Tinga prestando-lhe solidariedade no recente episódio envolvendo mais um jogador (Arouca, do Santos Futebol Clube) e um árbitro, ambos negros.

Nota-se pela foto oficial da reunião postada na internet (e não na grande Imprensa que práticamente ignorou o encontro) que todos os participantes estão felizes, sorridentes, provavelmente por estarem usufruindo de acomodações em hotéis cinco estrelas com as facilidades de praxe, inclusive condução gratuita para o aeroporto e passagens pagas para os seus destinos.

É claro que não estavam ali para discutir o desaparecimento (morte) do pedreiro Amarildo, a morte do garoto propaganda do governo baiano, assassinado há dois anos, ou os três adolescentes entregues a uma gangue rival pelo Exército e encontrados mortos num lixão em 2008, no Rio. Para ficarmos em 3 casos mais recentes.

Tampouco estavam ali para reclamarem das constants humilhações que cidadãos negros sofrem diáriamente nos encontros com a polícia, muito menos cobrar da Presidente a aplicação de medidas com base na constitucionalidade das cotas aprovadas pelo STF em 2006. Muito menos ainda cobrar a aplicação da Lei 10.39/2003, que trata da obrigatoriedade da inclusão da história da África e cultura afro-brasileira nas escolas de ensino fundamental e médio.

Compareceram à reunião para, simplesmente, “bater um papo” com a Presidente falarem de propostas pueris que também ficarão no papel. Se o governo brasileiro estivesse realmente interessado em combater o racismo e suas nefastas ramificações tanto na área privada como na pública, muitas destas propostas que já foram apresentadas anteriormente já teriam sido implementadas há tempos.

Jogada dentro da caçamba de um camburão como se fora um animal ainda vivo para ser abatido num matadouro, Claudia Silva Ferreira recebeu o tratamento normalmente reservado a negros de um Estado que insiste em não ver a humanidade daqueles que habitam as comunidades espalhadas pelas periferias do país. Ficou em evidência, mais um vez, que o negro no Brasil não tem ninguém que fale por ele ou quem o represente. Até quando?

 

 

 

Edson Cadette