Queens, Nova York –  O ano passado, antes da Copa do Mundo no Brasil, o periódico “The New York Times” destacou na primeira página do seu caderno de Esportes um enorme artigo sobre o fenômeno Neymar. A matéria fez parte de uma série que o jornal realizou sobre as Olimpíadas na Inglaterra realizadas em Londres, em 2012.

O artigo comete um erro crasso ao dizer que o campeonato paulista é o torneio de futebol mais importante no Brasil. Isto mostra o quanto o repórter que escreveu a reportagem, Sam Bordem, sabe sobre o Brasil e sua cultura.

Segundo o artigo, a  justificativa, à época para Neymar da Silva Santos, pai do jogador, manter seu filho vinculado ao Santos até 2014, ao invés de deixar o jovem talentoso fazer fortuna e quem sabe tambem adquirir um melhor conhecimento cultural jogando em algum clube de elite europeu, era que dinheiro não é tudo na vida (parece que o dinheiro acabou falando mais alto na Espanha). Isto para uma pessoa, segundo o artigo, que até Neymar começar a jogar futebol profissionalmente, e faturar milhões, tinha 3 empregos para sustentar a família.

Eu até entendo a mentalidade de Neymar pai porque assim como ele, tambem fui socializado no Brasil com a mentalidade católica que ganhar dinheiro era pecado. Nos EUA, aprendi rapidamente que “time is money” (tempo é dinheiro).  Porém, o que mais me chamou a atenção no longo artigo foi a afirmação de que se o seu filho nao fôsse jogador de futebol provavelmente estaria desempregado e sem perspectiva alguma. Waaaaaaaaaaaaaaaaal. Em outras palavras, o futebol continua sendo a válvula de escape para fugir à pobreza para milhões de brasileiros. Principalmente para os jovens negros e pobres.

O artigo não diz qual é a escolaridade do jogador, mas podemos deduzir que se ele foi recrutado pelo Santos aos 14 anos, mal terminou o ensino básico.

Nem todas as crianças pobres e negras no Brasil serão algum dia famosas como o Neymar. A Educação escolar no país (principalmente para os mais pobres) deveria ser buscada no mesmo nível da vontade de ser jogador de futebol. Dessa maneira, quando um jovem de 20 anos não estivesse correndo atrás de uma pelota dentro das 4 linhas do gramado profissionalmente defendendo algum grande clube no pais, ele poderia, por causa de sua escolaridade, tambem buscar um caminho alternativo. E com isto não ficar desempregado, ou não ter algum propósito na vida como disse Neymar pai sobre seu próprio filho.

Futebol II

Nem mesmo o mais pessimista iria imaginar que a equipe escalada pelo tecnico Luiz Felipe Scolari iria implodir em meros 15 minutos. Foi isto exatamente que aconteceu no Mineirão no ano passado. A Alemanha abriu a defesa brasileira como se estivesse abrindo uma lata de massa de tomate com um destes abridores elétricos. O placar só não foi mais dilatado simplesmente porque a Alemanha desistiu de jogar a sério e passou a treinar para a final.

É verdade que a seleção brasileira de 2014 estava muito aquém das equipes que disputaram as Copas de 70, 74, 78, 82, 94, 98 e 2002. Mas daí a levar 5 gols em menos de 30 minutos é demasiado. Estamos falando de uma geração de jogadores de alto nível onde em seus respectivos times europeus (exceção do jogador Fred que atua no Fluminense) eram titulares e estrelas.

A mídia bunda mole brasileira exigiu uma reformulação na maneira que o futebol é tratado logo após o grande fiasco. Eu pergunto: onde estavam as grandes reportagens a respeito do relacionamento promíscuo entre a CBF, federações estaduais e a poderosa Rede Globo? Onde estavam as grandes reportagens mostrando a maneira como o futebol é gerenciado nas grandes ligas européias (e agora aqui nos EUA), e a maneira como o futebol ainda é dirigido por muitos cartolas ditadores que gostam de se auto promover no Brasil? Onde estavam as grandes reportagens falando das categorias de base onde jovens são “descobertos” e rapidamente são enviados para o exterior por quantias vultosas para o benefício de grandes clubes ainda altamente endividados no pais? O Brasil é um grande exportador de “commodities” chamado jogador de futebol. Agora todos tem uma solução para a horrenda humilhação que sofremos dentro da nossa própria casa.

PS: Foram 64 anos depois da derrota para o Uruguai na final do Mundial de 1950. O falecido goleiro Barbosa que, após a derrota,  pagou um preço alto até seu falecimento em 2000, com toda certeza está esfregando as mãos porque ser humilhado numa semi-final como o Brasil foi nos pés da Alemanha o ano passado, é bem diferente de ser derrotado numa final contra o Uruguai, na época um dos grande times de futebol do mundo. Detalhe:  naquela partida o placar final foi um apertado 2 X 1.

Viva Nova York

Não vivi em Nova York no final dos anos 1970 quando explodiu por aqui , mais precisamente num bar gay do Village, a luta pela aceitação dos homossexuais na cidade. O evento ficou conhecido como o episódio “Stonewall”, por causa do local onde seus frequentadores entraram em conflito com a polícia.

Tampouco vivi na cidade quando a epidemia da AIDS matou os jovens e as jovens do terceiro sexo (parafraseando o jornalista Paulo Francis que já vivia na cidade na época). A primeira vez que visitei a cidade foi no final dos anos 1980, mais precisamente março de 1987.

Com a chegada da década dos anos de 1990, vim para para Nova York. Não posso dizer que a comunidade gay na década passada vivia escondida, ou que os gays eram mais discretos. Entretanto, neste início de século XXI tenho observado que está havendo uma revolução sexual, principalmente, nos garotos que provavelmente nasceram entre o começo e o meio dos anos 1990.

E não estou falando de homens vestidos de mulheres usando maquiagem e silicone, os chamados travestis, mas de garotos magrelas com suas roupas apertadas e de sacolas do tipo que a gente costuma ver nas feiras livres nas periferias de São Paulo. A diferença é que este acessório é de grife. Estes jovens urbanos e afeminados estão tomando de assalto a cidade com sua postura e tambem seu alto poder aquisitivo.

Nova York é uma cidade altamente cosmopolita que abraça todos os tipos de tribos, independente da bandeira. Não sou guru, tampouco tenho bola de cristal, mas minha filha Núbia, de apenas 8 anos, crescerá numa cidade onde o fossilizado papel entre o homem (macho) e a mulher (fêmea) será somente uma referência do ainda não muito longínquo século XX. Quem viver verá!

 

 

Edson Cadette