Queens, Nova York – O veterano radialista e disc jockey (como costumávamos chamar os antigos tocadores de discos nas rádios) morto em 2012, teve uma carreira no rádio que durou  mais de 50 anos. Ele foi um dos primeiros DJs negros a atingir uma vasta audiência fora dos  ouvintes afroamericanos.

Jackson começou sua longa carreira nos anos 30, uma época em que ainda era extremamente difíicil para um DJ afroamericano conseguir  trabalho  numa rádio comercial. A segregação ainda era prática comum na sociedade norte- americana.

Mesmo assim, sua audiência não se restringia aos afroamericanos. Houve uma época em que chegou a trabalhar em três programas simultaneamente como DJ. Num programa de R&B, num de Jazz e, por último, num de música popular.

Como executivo Hal Jackson foi o pioneiro em abrir espaço para uma rádio voltada para o formato de música contemporânea urbana com raízes na música negra. Nos anos 70 este tipo de programação dominou os ares nos EUA, primeiro em NYC e depois no resto do país.

Hal Jackson foi tambem o primeiro locutor afroamericano a pertencer a “Sala da Fama” da Associacao Nacional dos Loucutores dos EUA, e um dos 5 primeiros a fazer parte da “Sala da Fama” do rádio.

“Hal foi um voz constante da América negra. De Martin Luther King, jr. ao priimeiro presidente negro, Barack Obama, o senhor Hal literalmente conectou os pontos”, disse o reverendo Al Sharpton, de Nova York.

Hal Jackson nasceu em Charleston, na Carolina do Sul provavelmente no dia 03/11/1915. Porém, como ele mesmo explicou em sua autobiografia, “The House That Jack Built” (A Casa que o Jack Construiu) que seu nascimento, assim como de muitos negros no sul do país, não foi oficializado pelo Estado.

Por causa de sua quase adoração por esportes, ele conseguiu ser contratado por uma rádio em Washington, que pertencia ao periódico “The Washington Post” para apresentar uma resenha esportiva diária de 15 minutos chamada “A resenha Bronze”. E claro que para apresentar este programa, Jackson teve que esconder até o último instante que era afroamericano. “Quando comecei, o negócio era altamente segregado”, disse em 2008. “Felizmente isto não durou muito”, acrescentou então.

Quando o fator racial  deixou de ser um impedimento,  Jackson podia ser ouvido, tanto transmitindo jogos de futebol norte-americano da universidade Howard; como apresentando um programa musical. Ele tambem tornou-se um empresário de sucesso mantendo um time de basquete exclusivamente com jogadores negros, o Washington Bears (Os Ursos de Washington) para disputar o campeonato profissional mundial de basquete em 1943.

Na sua passagem por Washington, foi um participante ativo na luta pelos direitos civis dos negros, arrecadando fundos para as campanhas antirracistas do pastor Martin Luther King.

Em 1954, mudou-se para Nova York, trabalhando quase  24 horas por dia atrás do microfone. Sua agenda lotada só foi diminuída por causa de um envolvimento em 1960 onde ele recebia dinheiro para tocar certas musicas. Jackson foi obrigado a afastar-se do microfone por um tempo em NYC.  Tempos depois estas acusações foram todas retiradas.

Ele começou então sua longa carreira como executivo de rádio nos anos 60, primeiro como diretor de programação de uma radio no bairro do Queens. Depois produzindo e apresentando shows no famoso teatro Apollo, no bairro do Harlem, no Central Park, e tambem num parque de diversões, em Nova Jersey.

Hal Jackson tambem ajudou a criar o concurso de beleza para as jovens negras. Ele esteve entre os primeiro a lutar para fazer do aniversário de Martin Luther King, feriado nacional.

Em 1971, fez parte do grupo que fundou a primeira emissora de rádio inteiramente comandada por negros na cidade de Nova York, a famosa radio WBLS. No meio dos anos 70, a rádio era a mais ouvida na cidade. Isto, claro, em decorrencia do tambem suave disc jóquei Frank Crocker, que misturava na programaçãoR&B, Disco e outros gêneros.

Trabalhando agora somente atrás dos microfones, Jackson com seu talento empresarial conseguiu comprar outra rádio, tornando-se o primeiro negro dono de um império de comunicação país afora. Porém, quando um horário abria na radio, ele rapidamente voltava atrás do microfone para apresentar aquilo que ficou conhecido aqui como “Sunday Classics” (Domingos Clássicos). Um programa com músicas de diferentes eras. Originalmente de apenas 2 horas, o programa expandiu-se e chegou a 8 horas.

“Hal Jackson, uma das últimas ligações vivas ao tempo quando vozes negras no rádio ainda eram uma raridade, bem como atores negros nas telas de cinema”, disse o autor e diretor Nelson George. “Ele conectou várias gerações de ouvintes a uma enorme gama de músicas afroamericanas, e, claro, nem sempre observando os limites artificiais entre o Jazz, Blues, Broadway e R&B.

George, autor entre outros do aclamado livro “The Death of Rhytm And Blues”(A Morte do Ritmo e do Blues – trad. livre), disse que Jackson “ajudou os afroamericanos a ver o melhor dentro deles, tanto antes, como tambem depois do movimento pelos direitos civis”.

Dez anos de Afropress

Há 10 anos afropress foi colada no ar. Aparentemente o que era um pequeno sonho tornou-se uma grande realidade. Esta mídia alternativa, sem dúvida, é leitura obrigatória para queles que querem estar a par das informações relacionadas a metade da população do país. Com uma pequena equipe de colaboradores, todos escrevendo em caráter voluntário, a Afropress vem mostrando que é possível fazer Jornalismo independente e sério. Parabéns ao visionário editor Dojival Vieira e toda sua equipe de voluntários – entre os quais me incluo – pelo excelente trabalho. Que venham os próximos 10 anos.

Edson Cadette