Passei anos negando meu passado como descendente de escravos, e também suas histórias. Por causa disso, sei absolutamente nada sobre minhas origens, ou de qual parte da África meus antepassados foram arrancados.
Acredito, sinceramente, que essa é uma situação que atinge a milhões de afro-brasileiros. Estou falando daqueles que não se escondem sob o manto da nossa morenice, negando sua ancestralidade africana e, ainda por cima, acreditando que fazem parte da metade branca da população brasileira.
Fomos condicionados a ver o continente africano com lentes totalmente negativas. E com isso, é claro, exaltar únicamente a conexão brasileira com a cultura européia. Todas a imagens que nos eram apresentadas na escola sobre a África eram de um lugar podre com um passado pouco digno de fazer parte da história mundial.
Se em pleno século XXI a relação do Brasil com a África ainda e vista com olhos enviesados e sua história é pouco divulgada, como iremos resgatar a memória daqueles que ajudaram a construir o arcabouço do pais?
A “reaproximação” do Brasil com a África veio a acontecer, às duras penas, somente agora em pleno século XXI durante o Governo Lula, para tristeza de muita gente que ainda tem uma visão esteriotipada do continente africano.
Temos muito o que aprender sobre a nossa formação, e também sobre a massa de seres humanos escravizados que ergueram a civilização brasileira sob a égide do “bacalhau”, o famoso chicote dos senhores.
Há tantas histórias que precisariam ser desvendadas e mostradas ao público. Há mais de 4 mil comunidades remanescentes de quilombos espalhadas em território brasileiro. Pouco sabemos sobre suas histórias, e o que estes pequenos núcleos constituídos por escravos fugidos e libertos representaram durante a luta para por fim à escravidão.
É uma pena que não haja no Brasil mais historiadores dispostos a tratar do tema. A SEPPIR foi criada há oito anos. Será que, nesse período, não houve recursos financeiros para a capacitação e também formação de universitários interessados no tema? Afinal de contas, qual e então a finalidade da Lei 10.639? Ficar somente no papel?
Aprendi recentemente que, de cada dez dias da nossa história, sete deles foram vividos sob a influência desta instituição peculiar – a escravidão negra. Só isso, nos dá uma idéia de como o vil comércio estava inserido em todos os aspectos e relações da sociedade brasileira.
É claro que, como cidadãos do século XXI, não conseguimos captar a atmosfera reinante durante aquele período, os horrores perpetrados. Temos que deixar bem claro que a classe dominante, composta majoritariamente por fazendeiros, não queria mudança alguma na situação vigente.
Há várias causas para o nosso atraso. Uma delas foi, certamente, a recusa dos fazendeiros escravocratas em acreditar que a manutenção e o trabalho em suas fazendas não poderia ser feitos por mãos livres, mas somente pelas mãos do escravo negro africano.
E podemos afirmar, com toda a certeza, que havia, na época, o pensamento generalizado de que os negros eram raça inferior. Portanto, capacitados somente para o trabalho servil.
O livro “Da Senzala a Colônia”, da historiadora Emília Viotti, é um “tour de force”, uma façanha, uma verdadeira aula de história brasileira sobre o relacionamento dos fazendeiros escravocratas, a Igreja Católica, os escravos, e a sociedade em geral no século XVIII e XIX.
Somos transportados para as grandes e pequenas fazendas de café espalhadas, principalmente, pelo Rio de Janeiro e São Paulo. Aprendemos como acordos com o Império Britânico para por fim ao comércio de escravos não eram cumpridos.
Nesta luta para manter o status quo país, e o grande comercio de almas negras, não eram levados em conta o que o escravo pensava, suas aspirações, ou seu sofrimento. Em outras palavras: sua humanidade.
Afinal de contas para a elite da época, os negros nada mais eram do que simples mercadorias para serem usadas e distribuídas de acordo com a vontade e desejo dos seus donos. Estava escrito na Carta Magna que como propriedade os senhores poderiam dispor deles como bem quisessem. Um direito inalienável que os fazendeiros queriam assegurado a todo o custo.
Aprendemos também sobre o comércio interno de escravos depois de 1851 quando, sob pressão das grandes potências (Inglaterra, Franca, Holanda), o Gverno aboliu o comércio negreiro. Diga-se de passagem que um acordo firmado entre o Brasil e a Inglaterra 20 anos antes afirmava que qualquer navio negreiro que aportasse no Brasil seus escravos deveriam ser libertados imediatamente.
Com a expansão cafeeira no Sudeste, e a proibição do comércio com a África, os fazendeiros paulistas e cariocas buscavam no nordeste, especificamente, nas fazendas de cana de açúcar,
a mão-de-obra escrava para trabalhar em suas fazendas.
Nem mesmo a Igreja Católica escapa ilesa. Fica claro que o papel dela era ajudar manter o
status quo
afiinal, era também beneficiada com terras e benesses da classe dominante.
Padres diziam aos escravos que o seu papel na terra era obedecer aos seus senhores porque,
aos olhos de Deus, todos eram iguais. Os padres possuíam escravos e os puniam tanto ou mais do que os próprios fazendeiros.
José do Patrocínio, farmacêutico e abolicionista era filho de um padre. A Igreja só veio manifestar-se a favor da emancipação dos escravos em 1887, ou seja, somente às portas da abolição.
Segundo Viotti, a partir da metade do século XIX, os dias da escravidão estavam contados. Isto apesar de intelectuais, o clero, e a classe de fazendeiros tentarem impedir seu fim. Para muitos deles, se o país ficasse sem escravos seria um caos total. Dizia-se que o pais não estava pronto para o trabalho livre.
Mesmo admitindo que a escravidão estava com seus dias contados, os donos do poder queriam uma extinção do trabalho escravo gradualmente. Em muitos casos advogavam seu final para o começo do século XX (!).
Entre a Lei do Ventre Livre, a Lei dos Sexagenários e a abolição, foram 18 anos de lutas. Detalhe: em cada etapa desta luta, os fazendeiros buscavam junto ao Governo Imperial maneiras de ressarcimento por causa dos investimentos feitos na escravidão.
É fascinante ler o que diziam pessoas como o ministro da Justiça e também escritor, José de Alencar, um defensor ferrenho da escravidão negra. Para este senhor, a maneira como o Governo estava agindo em relação à abolição da escravidão iria trazer, com certeza, a total ruína da propriedade privada no país.
Em outras palavras: o Brasil só iria crescer economicamente se continuasse o infame tráfico de escravos, e o uso dos negros nas grandes fazendas. Principalmente as dos Rio de Janeiro e também as de São Paulo.
Qualquer professor/a de historia do Brasil que não ler este livro e não indicá-lo aos seus alunos estará, não só prestando um enorme desserviço aos jovens cidadãos do Brasil, mas também ajudando a perpetuar o mito de que a escravidão não foi assim tão ruim.
Muitos dos males sócio-econômicos que os afro-brasileiros enfrentam ainda hoje estão diretamente ligados ao legado da escravidão. Negar isso como muitos querem, é minimizar o impacto nefasto desta instituição na formação da civilização brasileira. Isto, com toda a certeza,
a comunidade afro-brasileira não engole mais.
Senzala à Colônia
Emilia Viotti Da Costa
Difusão Européia Do Livro
Cotação: Excelente

Edson Cadette