Para o premio Nobel de Economia e professor da prestigiosa Universidade de Chicago, o senhor Robert W. Fogel, este livro é um marco na interpretação da civilização dos Estados Unidos da America. Infelizmente, a morte deste eclético intelectual no final do mês de março sequer foi mencionada pelos dois principais periódicos de São Paulo.
Sua distinta e produtiva carreira teve a duração de mais de 70 anos. O senhor Franklin sempre esteve envolvido nos espinhosos debates que ajudaram os EUA a compreender melhor a perspectiva e a experiência dos afro-americanos.
Isto é certamente uma coisa que o Brasil jamais se preocupou em fazer em relação aos seus cidadãos afro-brasileiros. Ele também esteve bastante envolvido durante os anos das lutas dos Direitos Civis, trabalhando ativamente com o reverendo Martin Luther King Jr., e com o advogado afro-americano e futuro juiz da corte suprema norte americana, o senhor Thurgood Marshall. O senhor Franklin também foi professor nas universidades mais prestigiosas deste pais, entre elas a Harvard, a de Chicago, e a Universidade de Duke, sendo que nesta última quebrou várias barreiras raciais.
Em sua opinião, os historiadores tem um papel vital em ajudar o poder público a compreender melhor a história e desta maneira ajudar o governo a implementar políticas públicas para o benefício daqueles que estão na base da pirâmide social. Para que estes tenham também a oportunidade de ascenderem socialmente. Seu argumento histórico foi decisivo na luta para abolir a nefasta e também racista prática nas escolas públicas onde as crianças negras e brancas eram separadas com a doutrina do “Separated but Equal” (“separados, mas iguais”).
Filho de um advogado e de uma professora primária, desde pequeno, aprendeu que o melhor caminho para a ascensão social era através do estudo. Porém, como qualquer afro-americano que cresceu durante começo do século XX, ele também teve seus encontros com o racismo institucional. Uma vez foi obrigado a descer do trem e dar seu lugar a um passageiro branco. Outra vez foi obrigado a sentar-se na secção marcada para negros durante uma apresentação teatral.
O senhor Franklin foi testemunha do que fizeram ao escritório de advocacia do seu pai durante os notórios distúrbios raciais em Tulsa (Sul) em 1921, quando a parte da cidade onde os negros tinham seus negócios foi completamente destruída.
Ele foi barrado de estudar na Universidade de Oklahoma (Sul). Isto fez com que fosse estudar na Universidade Fisk em Nashville (Sul), onde se graduou em 1935. Com ajuda de um professor branco na Universidade Fisk, que tomou emprestado US$ 500.00 para ajudá-lo, foi aceito na Universidade Harvard, onde recebeu não só o diploma de pós-graduação, como também o diploma de doutorado.
O senhor Franklin é autor de mais de 20 livros, entre os quais “The Free Negro In North Carolina” (O Negro Livre Na Carolina Do Norte), “The Militant South” (O Sul Militante) e “Reconstruction After Civil War” (Reconstrução Depois Da Guerra Civil).
Conversando numa entrevista sobre a medalha da Liberdade, o maior prêmio dedicado pelo governo a uma pessoa civil, que lhe foi entregue pelo então presidente Bill Clinton, Franklin disse que o legado da escravidão ainda estava bastante enraizado no comportamento de muitas pessoas nos EUA contemporâneo. Ele afirmou que no mesmo dia em que recebia o premio, foi “confundido” num restaurante em Washington com uma pessoa que trabalhava na chapelaria.
Uma cliente pediu-lhe que fosse buscar seu casaco. Na mesma época, foi novamente “confundido” no Hotel onde estava hospedado com um guardador de carros, quando um dos hóspedes entregou-lhe a chave do carro e pediu-lhe que fosse pegá-lo.
Somente no Brasil, com sua longa e promíscua história de escravidão e apenas 120 anos de abolição, acreditamos, ou melhor, o pais finge acreditar que este legado não tem ligação alguma na invisibilidade do negro brasileiro.
Segundo o senhor Franklin, seu maior objetivo desde que passou a estudar a história dos EUA, sempre foi tentar entender como uma nação que foi forjada por um grupo de pessoas lutando pela liberdade de europeus, ao mesmo tempo estabeleceu um sistema econômico e social para escravizar pessoas que não fossem européias. Podemos afirmar que não só os EUA aprenderam e continuam aprendendo com intelectuais do gabarito do senhor Franklin, como em 2008 o pais teve a coragem e também a ousadia de colocar na Casa Branca um cidadão afro-americano. Podemos então concluir que somente com muitos estudos, muitos debates, muitos livros publicados, muitos artigos em jornais e também com muitos protestos e até mesmo muitas mortes se quebram barreiras que um dia pareciam intransponíveis.
É desta maneira também que um país consegue não só quebrar certos tabus raciais, como também seguir buscando o ideal da igualdade entre os homens. Isto sim, é o que poderíamos chamar de um grande passo para uma verdadeira democracia racial sem demagogias.
Senhor Franklin, o senhor fez um belo trabalho, agora descanse em paz!
CIDADE CASTIGADA
Não importa a desculpa esfarrapada que o atual prefeito da cidade de São Paulo, o senhor Gilberto Kassab, vomite em frente aos microfones e câmeras da imprensa brasileira, a verdade é que o que aconteceu na cidade no último dia 17.03.09, ou seja, a quase submersão da cidade, como se ela quisesse seguir o mesmo caminho da famosa Atlantis, é inadmissível para uma cidade que almeja o “status” de ser um dos grandes centros econômicos e influentes do planeta.
O alagamento da qual a cidade foi vítima veio mostrar o quanto ainda estamos atrelados a mentalidade terceiro mundista dos servidores públicos brasileiros, que estão mais preocupados em construir suas mansões e rapinar o erário publico do que realmente servir os contribuintes e melhorar não só os serviços públicos como também a arcaica infra-estruturar da cidade.
Foi interessante notar também na coletiva do prefeito que, segundo ele, tudo dentro do possível foi, e está sendo feito para tentar minimizar os estragos que supostamente são causados pelas chuvas. Só faltou ele colocar a culpa por sua incapacidade administrativa em São Pedro. Os mais desavisados (que continuam sendo os milhões de sofredores na cidade) aceitam resignados estas estapafúrdias explicações. A grande, e ao mesmo tempo triste verdade, é que, exceto em certos bolsões, a infra-estruturar de São Paulo, em geral, é péssima. E isto eu falo em todas as áreas, seja ela no transporte público, na segurança pública (aqui os jovens negros moradores das periferias sabem bem do que estou falando), na manutenção das ruas, na coleta de lixo, na limpeza dos rios, etc.
Os paulistanos precisam cair na real e parar de querer comparar a cidade com metrópoles como Nova York, Paris, Londres, Amsterdam, Madrid, Tóquio, etc. para ficarmos nas mais famosas, é claro. Para aqueles que tiveram suas casas inundadas e seus negócios quase arruinados, o prefeito ofereceu que entrem em contacto com a prefeitura para tentarem algum tipo de restituição.
A mídia local que deveria investigar denuncias e também cobrar dos servidores públicos melhores serviços, prefere ficar 24 horas antenada atrás do jogador-celebridade Ronaldo que certamente não tem muita coisa importante a dizer em relação à qualidade de vida na cidade. São Paulo certamente já viveu dias melhores!
O título original do artigo é “LEGADO – JOHN HOPE FRANKLIN (1915-2009)

Edson Cadette