A elegante e também belíssima artista Lena Horne nasceu em Nova York, mais precisamente no bairro do Brooklyn. De acordo com a lenda, sua pele era tão clara que seus amiguinhos de infância a acusavam de ter um pai branco.
É claro que sua cor de pele mais clara não a impediu de sofrer as indignações e racismo da sociedade norte-americana. Aos 16 anos, antes mesmo de terminar o ensino médio, ela foi contratada para dançar na casa de espetáculos “The Cotton Club”.
O famoso clube em Nova York, que não permitia a entrada de freqüentadores negros. A não ser, é claro, para trabalhar como faxineiros, ou em alguma atuação artística. A senhora Horne foi a primeira atriz afro-americana a conseguir um grande contrato com um dos principais estúdios de Hollywood, o MGM nos anos 40.
Nesta mesma década estrelou vários filmes. Entre eles, “Thousand Cheers” (1943), “Broadway Rhythm”(1944), “Two girls and a saylor”(1944), “Ziegfeld Follies”(1946), e “Words and Music”(1948) – cantando um ou outro número musical que poderia ser facilmente editado para a audiência extremamente racista do sul dos EUA, onde a idéia de uma artista negra atuando ao lado de um elenco branco, a menos que fosse em algum papel subserviente, era impensável.
Hattie McDaniell, a primeira atriz negra a ganhar um Oscar pelo seu trabalho no filme “… E o Vento Levou”, personificou bem o tipo de papel esteriotipado reservado a atores e atrizes negros na fase de outro dos studios de Hollywood.
“A única vez que pronunciei uma única palavra a outro ator que fosse branco foi Kathrun Grayson numa pequena ponta do filme ‘Show Boat’”, incluída no número musical “Till the Clouds Rolls By” (1946), um filme sobre a vida de Jerome Kern”, disse a senhora Horne numa entrevista em 1990. Naquela ponta ela atuava como Julie, uma mulata forçada a fugir do barco porque tinha casado com um homem branco.
Apesar de sua beleza e de seus talentos artísticos como atriz e também como cantora de jazz, podemos afirmar que, infelizmente, ela nasceu numa época onde as opções artísticas para os afro-americanos eram bastante restritas. Principalmente no cinema. A não ser, é claro, que fosse para algum papel subserviente.
Seu primeiro filme no estúdio MGM foi em 1942 intitulado “Panama Hattie”. A grande crítica de cinema da eclética revista New Yorker, Pauline Kael, achou o filme uma porcaria, exceto, é claro, pelos números musicais de Lena Horne.
Quando o estúdio MGM resolveu refilmar o clássico “Show Boat”, em 1951, decidiu por uma atriz branca. A escolhida foi Ava Gardner que, por sinal, não interpretou nenhuma das canções no filme. Lena Horne nunca foi seriamente cogitada para o papel na nova versão.
Em 1947, quando se casou com um homem branco, o arranjador, maestro e pianista Lennie Hayton, que foi por muitos anos seu diretor musical e também da MGM, o casamento ocorreu na França, e foi mantido em segredo por três anos.
Em 1945, Lena Horne era considerada por muitos a artista afro-americana mais bem paga de Hollywood. Além dos US$ 1 mil que ela ganhava por semana trabalhando para o estúdio MGM, ganhava ainda US$1,5 mil por cada apresentação no rádio, e US$ 6,500 por semana quando se apresentava em cabarés.
Horne também foi extremamente popular com os soldados, tanto negros quanto brancos durante a Segunda Guerra Mundial. Logicamente os soldados negros não podiam colocar em seus armários fotos das artistas brancas da época, então colocavam as de Lena Horne.
Nesta mesma época, a cantora começou a criticar a maneira pela qual os soldados negros eram tratados pelas Forças Armadas. Não podemos esquecer que as Forças Armadas nos EUA só se livraram do regime de segregação, em 1948, três anos após o final da Segunda Guerra Mundial.
Por esta razão, ela foi proibida de se apresentar em lugares patrocinado pelas Forças Armadas. Além do mais, por causa de sua amizade com o intelectual W. E. B. DuBois, e também com o ator e ativista Paul Robeson, teve seu trabalho, tanto na televisão como no cinema, bastante diminuído.
No começo dos anos 60, Horne era uma pessoa altamente engajada na luta pelos direitos civis, tornado-se bastante ativa e participando, inclusive, em inúmeros protestos e marchas.
Em 1969, voltou a tela grande atuando ao lado de Richard Widmark no filme “Death at Gunfighter”. Ela atuaria somente em um outro filme, a versão “black” do clássico “O Mágico de Oz”, ao lado de Diana Ross e Michael Jackson, em 1978. Horne continuou gravando sem parar até os anos 90 para a gravadora RCA Victor, entre outras, incluindo aí, a “United Artits” e “Blue Note”.
A pessoa que ela considerou sua maior influencia musical, não foi outro, senão o pianista e compositor Billy Strayhorn. O parceiro e amigo de muitos anos do grande “jazzman” Duke Ellington. “Não nasci com vocação musical”, ela disse ao biografo de Strayhorn, David Hajdu. “Tive que aprender muito. Billy ensaiava direto comigo. Ele trabalhou minhas cordas vocais.”
Strayhorn às vezes trabalhava como seu acompanhador, e ela disse: “ele me ensinou o básico, porque eu não sabia absolutamente nada de leitura musical.”
Strayhorn foi também, disse ela, “o único homem que eu jamais amei”, mas o senhor Strayhorn era um gay assumido, e a amizade entre ambos jamais se transformou em romance. “Ele era tudo que eu buscava em um homem,” ela disse a Hajdu, “exceto que ele não estava nenhum pouco interessado em mim, sexualmente falando.”
Em 1981, aos 64 anos ela selou definitivamente seu lugar dentro da história artística dos EUA no seu famoso show solo chamado: “The Lady and Her Music”, que ficou em cartaz por 14 meses na Broadway. A trilha sonora do show foi produzida por ninguém menos do que Quincy Jones.
Por este show Lena Horne recebeu o premio máximo do teatro em Nova York, o famoso premio “Tony”, como a melhor vocalista feminina do ano.
Diferentemente da famosa música do grande cantor Francis Albert Sinatra “The Lady is a Tramp”, Horne definitivamente não era uma qualquer.
Descanse em paz grande dama!

Edson Cadette