Leitor (a), este crime hediondo é somente a mais recente prova de que o encontro do aparato de repressão do Estado – a polícia – com os cidadãos negros é quase sempre traumático, quando não letal.
Dois casos vêm à memória depois desta tragédia. O primeiro, o do jovem dentista Flávio Santana, assassinado quando voltava do aeroporto de Guarulhos, após deixar a namorada; e o outro no interior de São Paulo onde um jovem foi morto por policiais dentro de sua casa enquanto sua mãe suplicava por sua vida no quarto ao lado. Para ficarmos em dois casos com maior repercussão.
Isto quer dizer que, para a polícia, não importa sua condição social e sim sua cor. Somente aquelas pessoas com a mente totalmente obtusa se recusam a ver o óbvio. Ou seja, negro brasileiro continua sendo tratado à priori como suspeito até prova em contrário.
No país da mestiçagem, do carnaval, do samba e do futebol, sempre será o suspeito numero um.
Na verdade, desde que colocou os pés no Brasil como escravo, o negro aos olhos da sociedade sempre foi suspeito. Primeiro pairava no ar a suspeita por causa dos milhões de escravos “infestando” todas as áreas, onde a atmosfera era propícia para revoltas. Depois de 1888 com a libertação, mas jogado para escanteio por causa da vinda de milhões de europeus brancos, tornou-se mais uma vez suspeito porque era encontra vadiando nas cidades a procura de algum trabalho.
E desde aquela época é preciso dizer que nunca houve por parte do Estado qualquer política para sua integração total dentro da sociedade. Isto vem acontecendo independentemente do Estado brasileiro aceitá-lo ou não como cidadão.
A morte do motoboy Eduardo Luis Pinheiros dos Santos veio mostrar uma vez mais que o afro descendente ainda tem um longo caminho a percorrer para ter sua cidadania reconhecida. Diferentemente de seus “irmãos” do Norte, onde muito sangue correu, muitos distúrbios aconteceram, e muitos protestos ajudaram o pais a reconhecer o afro-americano como cidadão.
É claro que há muito mais do que isso. Infelizmente no Brasil ainda estamos longe deste tipo de conscientização. Principalmente porque muitos cidadãos negros defendem a absurda idéia que o Brasil é realmente uma democracia racial, apesar de estudos comprovando o racismo institucional que milhões de negros sofrem no pais diariamente.
Enquanto não houver uma conscientização por parte dos negros, e também uma maior cobrança ao Estado brasileiro a reconhecer seus direitos civis, casos como o do motoboy seguirão acontecendo no pais.
Se o governador do Estado de São Paulo, Alberto Goldman estivesse realmente preocupado com seus eleitores negros, teria demitido imediatamente o comandante da policia da Capital, coronel Álvaro Batista Camilo.
Isso mostra que podemos ser até metade da população, mas não temos força alguma política para pressionar o governo do Estado a tomar uma atitude mais drástica em relação ao Comandante da Policia.
Um pedido de desculpas por carta é inaceitável nesta barbárie. Algumas perguntas agora ficam no ar. Por que o Comandante da Policia não deu uma entrevista coletiva explicando porque seus comandados agiram bárbaramente? Por que não pediu a mãe do cidadão morto que comparecesse a Policia Militar para um pedido pessoal de desculpas?
Esta e outras questões deveriam ser levantadas pela grande mídia de São Paulo. Mais uma vez a mídia perdeu a oportunidade de investigar seriamente como o cidadão negro continua sendo um alvo em potencial nas mãos da racista polícia do Estado.

Edson Cadette