Passei os primeiros 29 anos da minha vida sob a enorme influência destas duas pessoas. Contudo, a influência positiva que meu avô exerceu na minha formação intelectual é difícil de quantificar. Meu gosto por livros e também pela leitura diária de jornais certamente veio daí. Ele sempre estava com um periódico nas mãos me fazendo perguntas sobre os acontecimentos diários no Brasil e no mundo.
Isto quando não me perguntava a resposta de alguma palavra cruzada que estava fazendo, ou como estavam minhas notas na escola. Esta influência certamente também foi passada a seu bisneto. Na minha última viagem à São Paulo, visitando minha irmã, qual não foi minha surpresa ao entrar no quarto do meu sobrinho e ver na sua estante a coleção de livros “Clássicos da Literatura Juvenil” presenteado pelo meu avô quando eu ainda era adolescente.
Lembro-me de sua tristeza quando repeti a antiga 6ª série, em 1973. Para meu avô Aristóteles, não havia razão alguma para que isto tivesse acontecido. Felizmente, após a mancada, voltei ao meu melhor comportamento escolar até chegar à faculdade.
Minha realização sobre a magnitude de sua pessoa aconteceu no meio dos anos 70. Estava com uns 13 ou 14 anos. Juntamente com minha mãe e meus irmãos, fui levado por ele no seu VW 1962 “Fusquinha” azul celeste, para ficarmos sócios do Clube da Policia Militar (ADPM) localizado na Marginal do Rio Tietê, na Zona Leste.
Após nos deixar esperando no carro por alguns minutos, ele regressou com as nossas carteiras de associados. Recebi de suas mãos a minha “carteirinha” vermelha com o emblema da Policia Militar em cima da minha foto. Lembro-me deste detalhe como se tivesse ocorrido há pouco. A partir daquele momento percebi que meu avô Aristóteles Pires de Oliveira (Tenente-Coronel Aristóteles) era altamente respeitado não só dentro da pequena comunidade onde vivíamos, como também entre os militares da reserva que freqüentavam o clube. Os reservistas da sua época sempre se perfilavam para a continência quando o viam andando pelas áreas do clube.
É, claro que, como seu neto, sentia um profundo orgulho dele. Vim saber anos depois que meu avô foi um dos primeiros, se não o primeiro afro-brasileiro dentro da antiga Força Pública do Estado de São Paulo, a chegar ao posto de Tenente-Coronel. Algo que, na época, eu não dava a devida importância. Talvez a razão disto fosse que nem mesmo ele gostava de falar muito sobre o assunto. Era uma pessoa altamente discreta e muito reservada.
Sua visão sobre conhecimento era fantástica. Em outras palavras: quando o assunto era estudo, ele não media esforços para ajudar quem quer que fosse, incluindo até mesmo aqueles que não faziam parte diretamente da nossa família. Uma ocasião, um antigo amigo dos tempos da Faculdade estava precisando de uma ajuda financeira para colocar em dia o pagamento de suas mensalidades. Após explicar ao meu avô do que se tratava, ele recebeu prontamente a ajuda para quitar a dívida. Sua maneira simples de se vestir enganava a muitos que achavam que aquele senhor negro era uma pessoa humilde com poucos recursos, tanto intelectuais como materiais.
Entre os anos de 1974 e 1983, minha mãe, eu, e também meus irmãos passávamos um mês na Baixada Santista durante as férias do final do ano. Descíamos para a praia no seu pequeno carro. Ele levava os quatro netos (minha mãe sempre descia de ônibus), mais o mantimentopara todo o mês. Acredito que éramos a única família negra na comunidade com este privilégio.
É claro que esta “extravagância” era financiada por ele. Assim como eram financiados também todas as contas, as compras do supermercado (minha mãe fazia questão de ir até os jardins para fazer a compra do mês), as escolas particulares que freqüentei, os passeios que fiz, minhas idas aos estádios, minhas festas de aniversários, as festas do Natal, as do Ano Novo etc.
Uma de suas brincadeiras favoritas comigo era quando o time do Corinthians perdia. Eu chegava à casa cabisbaixo, com a bandeira enrolada debaixo do braço. Então me perguntava como quem não queria nada quem havia ganhado a partida. É claro que eu, sarcasticamente, lhe respondia: “O senhor sabe muito bem que ganhou o jogo”. Muitas vezes quando estou caminhando pelas ruas de Manhattan me pego pensando na sua voz quando eu lhe pedia alguns trocados para sair. Ele sempre dizia: “Se eu tivesse 10 cruzeiros, comprava uma rapadura”. Dez minutos depois abria sua velha carteira preta de couro enrolada num elástico (costume que às vezes pratico), e me dava o dinheiro pedido.
Quando comecei a trabalhar na VARIG no meio dos anos 80, fazia questão de levar-lhe diariamente os dois principais jornais de São Paulo – A Folha e o Estadão. Várias vezes chegava em casa, e ele estava ali sentado na sua poltrona preferida esperando pelos periódicos, ou assistindo algum programa na televisão.
No Inverno ele costumava sentar com um cobertor cobrindo suas pernas enquanto lia algum livro. Em 1987, depois de trabalhar na VARIG por um ano, minha primeira viagem de férias à Nova York foi patrocinada por ele. Lembro-me também que, aos sábados, após chegar do trabalho (trabalhava das 6h às 12h), ele estava me esperando para irmos ao Clube da Polícia Militar.
Naturalmente fazia questão de seguirmos no seu velho Fusca. Ao chegarmos, ele ia direto à sauna, e eu para o campo de futebol. Depois do jogo eu também ia para a sauna encontrá-lo para ficarmos juntos. Após todos estes anos é muito nítido prá mim que o meu avô Aristóteles Pires de Oliveira foi não só a grande inspiração na minha vida como também o grande alicerce que manteve a nossa família unida enquanto ele esteve à frente do nosso barco.
Serei eternamente grato por tudo que o meu vão (como costumava chamá-lo) fez pela nossa família e, principalmente, tudo que fez por mim. Acredito que este sentimento é não só partilhado por mim, mas também por minha mãe, meus irmãos e todos aqueles que o conheceram.
Livresco
A historiografia brasileira tem sido altamente cruel com os personagens negros ligados à escravidão e ou a sua abolição. Zumbi continua sendo, ainda hoje, o maior – e para muita gente o único – herói negro brasileiro.
Aos poucos outras pessoas importantes ligadas ao movimento abolicionista vão ganhando o espaço que merecem. Um destes personagens foi o advogado e jornalista negro, Luiz Gama. O livro “O Advogado dos Escravos: Luiz Gama” do escritor, advogado e também professor de Direito, Nelson Câmara, lança uma luz sobre este importante brasileiro.
Filho da união entre o filho de um fidalgo português com uma mulçumana livre e alfabetizada do Nordeste da África, Luiz Gama nasceu livre em Salvador, na Bahia. Entretanto, foi vendido pelo própio pai aos 10 anos indo parar na cidade de Campinas, em São Paulo.
Até os 18, Luiz Gama era analfabeto, mas seu intelecto era tão superior que em poucos anos já advogava em favor da sua própria liberdade.
Quando morreu em 1882 sua popularidade era tão grande que seu caixão foi carregado por uma massa de admiradores, saindo do Bairro do Brás seguindo a pé até o cemitério da Consolação.
Este ano o Brasil celebra 100 anos da morte do abolicionista Joaquim Nabuco, considerado pelos historiadores, o abolicionista mais importante. Entretanto, a própria trajetória de Luiz Gama, primeiro como escravo, e depois como advogado livre e jornalista, mostra que, na verdade, ele foi muito mais importante para a causa da abolição no Brasil do que qualquer outro brasileiro.

Edson Cadette