Manhattan, Nova York- Passaram-se exatamente um ano e cinco meses desde que o jovem Trayvon Martin foi morto por um vigia comunitário de nome George Zimmerman, numa pequena comunidade no Estado da Flórida.

Nesse período, resurgiram as teorias a respeito de como os EUA ainda continuam sendo uma Nação que trata os cidadãos afro-americanos com desdém. Mesmo para um país que elegeu seu primeiro presidente negro em 2008 e o reelegeu em 2012.

Para muita gente, a morte do jovem Martin vem mostrar uma vez mais que o racismo norte-americano continua firme e forte, afetando a vida da vasta maioria dos cidadãos negros, não importando que estudos revelem uma melhoria substancial para os negros nos últimos 50 anos.

 Há uma nítida impressão na comunidade que a vida de um jovem, ou mesmo um adulto negro, não vale  um dólar furado. Várias pessoas com as quais conversei  após o veredicto disseram que o país avançou na questão racial, mas ainda está muito  longe do que esperam de uma verdadeira  democracia. O caso do adolescente morto veio confirmar suas suspeitas.

É verdade que os EUA mudaram. O relacionamento entre a minoria negra e a maioria branca, incluídos os latinos que se auto declaram brancos, está longe de ser perfeito. Porém, acreditar que os EUA são ainda aquele país que lincha negros,  que os obriga a fazer teste de alfabetização para para votar, ou sejam obrigados a usar a parte traseira dos ônibus  no transporte público é, no mínimo, usar de má fé, analisar o caso Trayvon Martin por um prisma exclusivamente racial.

Não quero dizer com isso que o quesito raça não tenha tido um papel importante no fatídico encontro dos dois, e que a percepção estereotipada de um jovem negro andando de capuz numa comunidade fechada não tenha despertado no assassino a idéia de que Martin estava ali para fazer algo ilícito.

Essa percepção fez com que  Zimmerman, após ser informado pelo despachante da policia de que havia feito sua parte e que a policia dali para frente iria se encarregar de investigar a denúncia, teve um papel fundamental, o que o levou a seguir o adolescente.  Detalhe:  Zimmerman tem somente 29 anos, ou seja, ele nasceu em 1984.

Em outras palavras, cresceu provavelmente observando destaques altamente positivos  na comunidade afro-americana. É difícil compreender como uma pessoa tão jovem e que tem um pai como juiz pode carregar dentro da sua mente percepções tão negativas relacionadas aos jovens afro-americanos deste inicio de século XXI.

O caso apresentado pelo promotor contra  Zimmerman foi pobremente apresentado. Houve muitas discrepâncias. A principal testemunha, a jovem Rachel John Tell, balbuciava suas respostas ao ser interrogada pelo advogado de defesa, mostrando sua total desconexão sobre o que estava acontecendo ao seu lado. Nem mesmo o peso do Departamento de Justiça sob o comando do Secretário Eric Holder foi suficiente para conseguir uma condenação.

Cinquenta anos atrás, como cidadão do sul, o jovem Martin saberia que deveria estar alerta  porque como uma pessoa negra ele estaria sujeito a ser morto por qualquer ação que representasse uma ameaça ao poder branco norte americano. Porém, em pleno século XXI, ele sentia-se livre para  ir e vir como bem entendesse.

 Infelizmente, a presença do presidente Obama na Casa Branca não dissipou o estereótipo negativo que muitas pessoas ainda têm sobre os jovens negros nos EUA, ou seja: alguém que está sempre à espreita para fazer algo ilícito. No final, o jovem Martin foi morto tentando fugir da chuva, e carregando consigo um saquinho de balas e uma latinha de chá. Sua morte provou que o problema racial norte americano pode não ser endêmico como querem alguns, mas  está sempre pronto a mostrar sua horrenda cara.

 

 

 

 

Edson Cadette