Entre os muitos colaboradores, poderíamos destacar uma pessoa em especial. A cantora Odetta Holmes (1931 – 2008), considerada não só pela equipe do reverendo King, mas também por todos os que participaram, como a voz musical dos direitos civis. A interpretação da música “I’m on My Way” (Estou a Caminho) cantada no dia, fez com que a platéia de mais de meio milhão de pessoas ficasse paralisada de emoção.
Sua voz também podia ser escutada acompanhando as imagens em preto e branco daqueles que marchavam nas ruas do Alabama e também do Mississippi enfrentando, não só as mangueiras, mas também os cães pastores alemães da polícia. Duas das principais cidades no sul do país que lutavam árduamente pela permanência do “status quo” e também do racismo norte americano.
Sua carreira artística durou mais de 60 anos. E neste período, ela gravou mais de 30 álbuns de Música Folclórica, Espirituals, Blues e também Jazz. Seu álbum “Folk Songs” (Canções Folclóricas), lançado em 1963 foi um dos mais vendidos naquele ano.
A década de 60 foi de grande produtividade para Odetta, que gravou 16 albums. Ela também cantou em lanchonetes até chegar ao famoso Carnegie Hall, em Nova York, onde fez uma apresentação com o polivalente Harry Belafonte. Sua influência musical pode ser percebida nos trabalhos de músicos como Janis Joplin, Joan Baez, Tracy Chapman e Bob Dylan, entre outros.
Dylan disse numa entrevista à revista masculina “Playboy” que a música de Odetta teve um profundo impacto no começo de sua carreira e o fez não só optar por cantar canções folclóricas, como também trocar sua guitarra elétrica por uma acústica.
Rosa Parks, por causa de sua recusa em ceder seu lugar num ônibus no Alabama, deu inicio ao boicote contra a segregação nos ônibus municipais; foi o estopim na luta pelos direitos civis. Ao ser perguntada qual música de Odetta tinha maior significado para ela, respondeu prontamente: “todas as músicas que Odetta canta”.
Uma das canções preferidas de Odetta era “I’m on My Way” (Estou à Caminho) cantada durante o auge da luta pelos diretos civis. Outra que também a marcou muito foi “Freedom” (Liberdade), que tem sua raiz na escravidão no Sul. E diz o seguinte: “Ó Liberdade/ Ó Liberdade/ Ó Liberdade sobre mim/ e antes que eu seja um escravo/ serei enterrado no meu túmulo/E vou para a casa do senhor e estarei livre”.
Para Odetta, estas canções representavam o estado de espírito da população afro-americana no Sul. Além do mais, estas eram também músicas de libertação. “Você caminha na estrada da vida, o pé da sociedade está em cima do seu pescoço. É impossível libertar-se. Você chega a uma encruzilhada, ou você cai e aceita seu destino resignado, ou segue em frente com sua vida”, disse ela numa entrevista.
Durante uma outra entrevista para o periódico “The New York Times”, em 2007, aos 77 anos, relembrou o quanto era difícil a vida para qualquer pessoa negra no Sul do pais, especialmente no começo do século XX. Contudo, um episódio que deixou profunda marca na sua alma aconteceu num trem em Los Angeles. O condutor apareceu no vagão reservado ao negros e pediu que todos saíssem, ou fossem para qualquer outro lugar, para acomodar os lugares aos passageiros brancos. “Isto era a indicação de que eu ou o que eu representava não tinha qualquer valor para a sociedade em geral”, contou.
Odetta nasceu em 31 de Dezembro de 1931, em Birmingham, no Alabama, uma das cidades mais segregacionistas do sul. As músicas cantadas pelos presidiários e também pelos trabalhadores rurais nas várias plantações de algodão tiveram um profundo impacto na sua formação musical.
Entretanto, ela afirmou que somente encontrou sua própria voz escutando Blues, Jazz e Música Folclórica nas tradições dos afro-americanos e também dos anglo-americanos.
Ela diplomou-se pela Faculdade “City College” de Los Angeles, na Califórnia. Segundo dizia, seu treinamento em música clássica e teatral foi um bom exercício, mas não teve nada a ver com sua experiência de vida.
Em 1999, foi agraciada pelo então presidente Bill Clinton com a medalha Nacional das Artes e Humanidades. Em 2000, nomeada para receber o prêmio “Grammy” de música pelo CD “Blues Everywhere I Go”. Na sua última entrevista disse que os versos a seguir marcaram profundamente sua carreira: “Às vezes me sinto como uma criança órfã/às vezes me sinto como uma criança órfã/às vezes me sinto como uma criança órfã/bem longe de casa/ bem longe de casa/ verdadeiro crente/verdadeiro crente/bem longe de casa/bem longe de casa.
Odetta Holmes planejava voltar ao Memorial Lincoln para a posse de Barack Obama. Infelizmente não foi possível. Ela faleceu aqui em Manhattan no dia 2 de Dezembro. Sua voz ficará para sempre ligada ao Movimento pelos Direitos Civis dos EUA.

Edson Cadette