A última vez que a livraria esteve tão lotada foi quando o atual presidente Barack Obama esteve na cidade para lançar o seu “Dream from my Father” (Sonhos do Meu Pai), em 2006.
Numa conversa bastante informal com a jornalista Jane Pauley, Rice falou um pouco de sua família, o Estado onde nasceu, o Alabama, e como foi crescer durante na época pesada da segregação racial norte-americana, especialmente no sul do país.
Filha única de um pastor Batista, professor, e atleta universitário, Condoleeza Rice aprendeu a gostar de política, e também de esportes (principalmente o futebol norte-americano) por causa do pai. Sua mãe era professora, e com ela, desenvolveu a paixão pelo piano, e também um gosto apurado pelas artes. Com ambos, aprendeu o valor da fé diante das adversidades, e a importância em retribuir à comunidade. (Uma prática que deveria ser mais usada pelos nossos afro-brasileiros de “sucesso” no Brasil).
Ambos mostraram a ela que, mesmo não podendo comer um simples sanduíche no balcão de uma loja de departamentos (uma referência a loja Woolworth’s, que durante a década de 50, se recusava a servir clientes negros em suas dependências), ela poderia ser um dia presidente dos Estados Unidos da América.
Perita em assuntos soviéticos, e também do bloco do leste europeu, Rice teve um papel fundamental na política norte-americana quando a cortina de ferro e a União Soviética começaram a se desintegrar.
Para a ex secretaria de Estado, educação é uma ferramenta fundamental, principalmente para as minorias que muitas vezes se encontra “trapped” (presas) nos guetos urbanos das grandes cidades.
Ela reconhece que, em muitas destas escolas, os recursos não são os mesmos das ricas escolas espalhadas pelos inúmeros subúrbios ricos paaís afora. Entretanto, para ela, isto não podia servir de desculpas para um aluno ter um desempenho abaixo do seu potencial.
Falando abertamente sobre o programa das Ações Afirmativas, a ex-Secretária de Estado foi enfática: “Eu sou totalmente a favor desta política pública do Governo norte- americano”. A Ação Afirmativa, na opinião dela, é uma ferramenta que serve para tentar diversificar áreas onde o mesmo grupo de pessoas com os mesmos contactos continuam perpetuando o “status quo”.
Para Rice, as Ações Afirmativa servem para mostrar que há um grupo maior que precisa também de um espaço dentro da sociedade.
A platéia, que lotou as dependências da livraria, foi cativada pela eloqüência, e também finesse desta senhora que, certamente, fez e continua fazendo história não só como a primeira mulher negra com o cargo de Secretaria de Estado, como Conselheira de Segurança do ex-Presidente George W. Bush, mas também como professora universitária de uma das instituições mais eclética do pais, a universidade Stanford, em Palo Alto, no Estado da Califórnia.
Pobreza na terra do Tio Sam
Segundo reportagem recente do periódico “The New York Times”, aproximadamente 44 milhões de norte-americanos vivem abaixo da linha da pobreza hoje em dia aqui nos EUA. De acordo com o último relatório do Censo, a situação poderia ser ainda mais dramática, mas por causa da ajuda do Governo, milhões de norte-americanos estão recebendo o seguro desemprego (que, diga-se de passagem, foi estendido por dois anos), e outras formas de assistência governamental.
Isso, certamente, tem evitado o aumento ainda maior da pobreza. Para uma pessoa solteira em 2009, a linha da pobreza no EUA era de US$ 10.830 antes dos impostos, e de US$ 22.050 para uma família de quatro pessoas.
Para os especialistas, há claros sinais de que o aumento da pobreza seguirá seu caminho em 2011 porque a economia norte-americana segue na sua anêmica recuperação, e o desemprego, segundo dados oficiais, segue com taxas de quase 10% da população economicamente ativa.
O relatório do Censo aponta também para um aumento da pobreza entre os cidadãos brancos, negros e os latinos (aqui chamados de hispanos) com seus históricos de disparidades confirmados.
Entre a população branca, a percentagem de pobreza e de 9,4%, enquanto que para os afro-americanos e de 25,8%, e para os latinos e de 25,3%. Para os asiáticos a percentagem e de 12,5% do total de sua população no país.
Segundo nos informa o professor e economista da Universidade Harvard, Lawrence Katz, os ganhos alcançados durante o começo da década foram aniquilados pela recessão. O ganho médio anual das famílias, em 2009, foi 5% menor do que no mesmo período em 1999. “Esta e a primeira vez na história em que uma década inteira produziu essencialmente nenhum crescimento econômico para a típica família norte-americana,” disse Katz.
O número de residentes sem qualquer tipo de seguro médico chegou a 51 milhões em 2010, um aumento de cinco milhões em relação a 2009. Entretanto, este numero deve cair nos próximos anos por causa das mudanças implementadas no sistema de saúde pelo atual Governo no começo de 2010.
Apesar de enorme resistência do lobby da indústria de saúde, a meta do Governo Obama é oferecer um plano de saúde a todos os cidadãos norte-americanos.
Benefícios governamentais, como o “cheque-alimento” e o crédito no Imposto de Renda, que certamente ajudam a aumentar a arrecadação familiar, não são levados em consideração para o cálculo da linha da pobreza.
A linha da pobreza é uma medida defeituosa, os especialistas concordam, mas ela continua sendo a melhor maneira, e também a mais consistente para medir as necessidades básicas disponíveis, e suas flutuações refletem suas genuínas tendências.
O título original do artigo é “O outro lado da ex-Secretária de EstadoCondoleezza Rice”.

Edson Cadette